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30 ANOS DO ELECTRIC CAFE

electric-cafe

(por Adriana Prates – http://www.pragatecno.com.br)

Electric Cafe, álbum da banda alemã Kraftwerk, completou 30 anos em 2016 e eu, na qualidade de fã, fui convidada para apresentar um programa comemorativo na Radio Educadora de Salvador (107,5 FM). Para dar conta da tarefa, passei uns dias reescutando o Electric Cafe e após gravar o programa resolvi registrar em texto os sentimentos e ideias que o disco me trouxe, 30 anos depois do seu lançamento.

 

O Kraftwerk é uma das bandas paradigmáticas da música ocidental. Como todo mundo sabe, seus integrantes são considerados pais da música eletrônica, por seu inédito apreço e uso, há quase cinquenta anos, de sons sintetizados e processados. Ao lado desta (então) peculiaridade eles também exploravam ruídos e sons produzidos por máquinas como carros, rádios e bicicletas, temas de alguns de seus álbuns. Neste sentido, o trabalho do Kraftwerk evidenciava a onipresença da música e ampliava o sentido do termo musicalidade.

 

O som do Kraftwerk costuma ser definido como “sintético”. A despeito de ser corriqueiro o uso das expressões “sintético” e “orgânico”, entendidas como opostas, para diferenciar timbres e sonoridades geradas em sintetizadores e computadores daquelas originadas em instrumentos musicais, confesso que acho estranho quando alguém define alguma sonoridade como “orgânica”, fico cogitando se a pessoa acredita mesmo que um violão ou um tambor brotam, por acaso, da terra. Instrumentos musicais, afinal, são criações humanas, artefatos tecnológicos tanto quanto um computador, um sintetizador ou uma bicicleta. Também vale lembrar que toda sociedade é tecnológica. A tecnologia não existe somente na contemporaneidade (um certo tipo de tecnologia, sim). O desenvolvimento de artefatos que garantem aumento da produtividade e da mobilidade, por exemplo, além de inúmeros confortos foi o que, desde sempre, garantiu a sobrevivência e multiplicação da nossa espécie em tão larga escala.

 

É por isso que eu entendo que, mais do que tematizações a respeito de carros ou robôs, as músicas do Kraftwerk são comentários sobre a era contemporânea, onde, sim, é crescente o refinamento da interação entre o elemento humano e a máquina, que parecem caminhar para se tornarem um só. Penso tembém que suas criações nunca foram sobre trens ou computadores, mas sobre nós, humanos, vivenciando as peculiaridades da interação com a tecnologia característica do nosso tempo, com todas as possibilidades e repercussões que não cansamos de descobrir, explorar e até mesmo, como no caso deles, poetizar.

 

E a despeito do uso de equipamentos eletrônicos no lugar de instrumentos comuns e da exploração de ruídos e sons não convencionais para fazer música, as cativantes melodias das canções do Kraftwerk nos lembram que sem o elemento humano as máquinas não poderiam criar beleza. As máquinas, aliás, sequer seriam criadas.

 

 

SOBRE O DISCO

 

Em relação ao tema específico do texto, acredito que existem muitas razões para comemorarmos o aniversário do Electric Café. Apesar da recepção ao disco, na época do lançamento, não ter sido muito boa, o tempo serviu para colocar as coisas em seu devido lugar. Distinto do que o Kraftwerk havia feito até então e tendo sido lançado após um disco de grande sucesso, o Electric Cafe quebrou as expectativas do grande público e do mercado, geralmente ávidos por fórmulas.

 

Neste sentido, o Electric Cafe subverteu alguns padrões seguidos pela banda até então. Os discos anteriores, por exemplo, eram temáticos, enquanto as músicas do Electric Cafe não possuíam ligações aparentes. Outra diferença é que (eu acho) o álbum tinha a intenção de ser dançante. A “Disco” havia tornado popular o costume de dançar em nightclubs desde a década anterior e em 1986 o couro já andava comendo em Nova York e Chicago. A onda eletrônica que sacudiria o mundo já dava sinais de sua força e certamente a banda estava atenta a este fato. Tanto que o repertório do disco seguinte, o “The Mix”, lançado no inicio da década de 90, seria composto unicamente por remixes de faixas de vários discos da banda.

 

Originalmente o Electric Cafe se chamaria Technopop (o disco foi relançado com este título em 2009). Penso que o “pop” que eles cogitaram colocar no título do disco fosse por referência ao fato de que a música feita com recursos eletrônicos estava se tornando popular na época. Tecnopop (ou Synthpop), inclusive, nomeava um estilo que estava angariando bastante sucesso, definindo o som de bandas como Human League, Eurythmics e Soft Cell.

 

Em relação às faixas do disco, o lado A encadeava três músicas, compondo uma suíte: Boing Boom Tschak, Techno Pop e Musique Non Stop. O lado B trazia três canções de formato quase convencional: The Telephone Call, que explorava sons de aparelhos telefônicos; Sex Object, que trazia uma pegada “funky” e uma sonoridade de baixo inusitada para os padrões da banda, e por fim a faixa-título, que nos brindava com frases articuladas em português (há quem diga que a voz fala em espanhol, mas gosto de acreditar que está em português).

 

O grande público não se empolgou. A crítica também estranhou. Atribuiu a uma crise a “demora” no lançamento do Electric Cafe, que veio 5 anos depois do seu antecessor, quando o costume do Kraftwerk era lançar um novo trabalho a cada um ou dois anos. A hipótese de crise foi reforçada pela saída de Wolfgang Flur logo após o lançamento do disco, que foi o último a contar com a formação clássica da banda, que reunia até então, além do mencionado Flur, o chefão Ralf Hütter, Florian Schneider e Karl Bartos.

 

É provável que nunca venhamos a saber exatamente o porquê da “demora” no lançamento e das escolhas que tornaram este disco “diferente”, pois a banda sempre foi reservada em relação aos seus processos internos, resguardando seus bastidores. Mas é fato que o disco resistiu bem à passagem do tempo. Inclusive, é com uma música do Electric Cafe que o Kraftwerk vêm encerrando suas apresentações ao vivo, já há algum tempo. Durante todo o show os integrantes da banda permanecem impassíveis atrás de bancadas individuais, até que em Musique Non Stop eles vão progressivamente soltando os elementos que constroem a música, à medida em que vão, sucessivamente, se retirando do palco. A música, porém, segue tocando no palco vazio até o final. Esta performance amplia a potência da mensagem que enxergo em Musique Non Stop, a de que a música está acima de egos e personalidades. Vamos morrer e desaparecer mas a música vai continuar ecoando, a despeito de nós. Porque, afinal, ela é a única coisa que importa.

 

Agora me dêem licença que vou ali escutar o Kraftwerk mais um pouquinho. Até a próxima!

 

 

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Sobre claudiomanoel

Cláudio Manoel Duarte é prof de arte, tecnologias e comunicaçao, mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA/Cibercultura, produtor cultural e criador de gatos siameses. Doutorando UFBA.

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Publicado às 19/12/2016 por em ARTIGOS ENTREVISTAS, CULTURA DO DJ e marcado , .
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