Cláudia Assef, em entrevista

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Cláudia Assef, djéia, jornalista, editora do site MusicNonStop e autora do livro Todo Dj Já Sambou (em campanha de relançamento) fala sobre a atual cena de djs no Brasil *

Cláudio Manoel Duarte – Seu livro, Todo dj ja sambou, lançado em 2003, recupera, historicamente, a cara de nossa cena de dj no Brasil. Passados alguns anos – e com as visíveis transformações estéticas e mercadológicas em tão pouco tempo – como você ver a chamada “cultura do dj” hoje, qual é a cara dessa cena uma década depois?

Cláudia Assef – Você disse muito bem, muita coisa mudou nesses dez anos. Acho positivo ver que o o DJ passou a fazer parte do cotidiano da sociedade, a ponto de qualquer pessoa achar que pode ser DJ. Quer dizer, claro que qualquer pessoa com treino, suor e muita pesquisa pode sim vir a ser DJ, mas no meio dessa multidão de aspirante apenas alguns vão sobressair. É assim em qualquer profissão, não é mesmo? Só que hoje também existe muita desatenção por parte do público mais genérico, pois o DJ virou apenas uma peça na engrenagem da balada – tão importante quanto uma árvore cenográfica ou uma bela queima de fogos. Então a gente vive uma dicotomia. Se por um lado é legal essa popularidade do DJ, fez com que se fizessem necessárias discussões como a necessidade de a profissão ser reconhecida, dele ter carteira assinada e tal, de outro tem uma série de desdobramentos que se aproximam da comédia. Então aquela cena que a gente conheceu nos anos 90 e até começo dos 2000 se mantém firme, em núcleos de resistência (graças a Deus), como aqui em São Paulo em festas como Capslock e clubes como o D-Edge, que apesar do tamanho ainda consegue trabalhar só com música de pista de alto nível. Também existem produtores muito foda que batalham pela manutenção da boa música de pista de dança, eu citaria nomes como Rodrigo Coelho, Pedro Zopelar e L_Cio no topo da lista.

Cláudio Manoel Duarte – Há, ainda, pouca execução da música eletrônica brasileira pelos djs brasileiros, se compararmos os sets montados principalmente com tracks estrangeiras. Somo desatentos com nós mesmos? Não seriam os djs (brasileiros) o primeiro canal de incentivo na difusão da produção de nossa música eletrônica?

Cláudia Assef – Eu tenho visto os meninos desses núcleos de resistência que eu citei na pergunta acima tocando várias produções brasileiras. Acho que tá rolando essa auto-estima, até porque a produção está muito boa mesmo. Tem selos nacionais atualmente que são incríveis, como hoje já não custos como prensagem e distribuição, a coisa fica muito mais focada na produção em si. Isso foi muito positivo pra nós, brasucas, que sempre patinamos no mercado quando o vinil imperava.

Cláudio Manoel Duarte – A cena empresarial da música eletrônica tomou proporções dos grandes mercados de entretenimento, muito além do marketing cultural. Que aspectos negativos e positivos (se existem) você observaria nesse novo contexto?

Cláudia Assef – Como eu citei na primeira pergunta, a cena mudou. Cresceu. Nem sei se dá pra chamar de música eletrônica algumas coisas. Vou citar como exemplo o Tomorrowland, que eu vi de perto porque trabalhei na transmissão ao vivo durante os três dias de festival. Impressiona a energia da molecada de dançar e consumir música, no caso EDM. Então eu acho que EDM, que é um som pra atrair multidões e despertar na molecada aquela vontade de extravassar energia (meio que nem uma micareta, né), serve como porta de entrada para “drogas mais fortes”. O/a garoto/a começa ouvindo aquele som radiofônico, fácil e previsível – é impressionante como todos os breaks acontecem da mesma forma em todas as músicas! – e vai indiretamente acostumando os ouvidos aos timbres eletrônicos. Mais tarde ele/ela vai entender que tem muito mais pra explorar e com as músicas tão fáceis na internet vai acabar pulando pra um outro patamar de som. Eu pude constatar isso lá no Tomorrowland, vi gente curtindo sets incríveis, como os da duplas Adriatique e Art Department. Se eu acho que tem aspectos negativos em envelopar essa cultura massificada para o consumo? Acho que não. Houve sim uma mudança gigante de status, o que antes era feito por paixão (e muitas vezes sem muita infra) houve é encarado como um grande negócio. Mas assim é o mundo capitalista. Enquanto houver o contraponto à “disneyficação” da música eletrônica, eu acho que tá valendo.

Campanha de reedição do livro: https://www.catarse.me/todo_dj_ja_sambou

Site Music Non Stop https://musicnonstop.uol.com.br

(*conteúdo originalmente publicado no ebook PRAGATECNO ― uma outra cena da mesma)

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