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Entrevista: Música e afeto – Jeder Janotti

entrevista a Claudio Manoel Duarte

Quando pensamos em música pop, podemos localizar (sub)culturas bastante definidas em torno de alguns estilos musicais. O que caracteriza essas (sub)cultura musicais, no sentido de formatarem um estilo de vida?
Jeder Janotti – Antes de mais nada o consumo de um determinado gênero musical. Só que ouvir, comprar, dançar e viver música também significam, nesses casos, determinados modos de andar, de dançar, de se vestir, de frequentar determinados lugares, de preferências por certos filmes e/ou programa televisivos, enfim, uma série de valorações do mundo. O que significa que: consumir música é estar aberto a sonoridades específicas, mas é também, muito mais do que consumir um gênero musical.
Em que sentido o afeto gera essas (sub)culturas?
Jeder Janotti – Não acredito que o afeto gere essas subculturas, o que acontece é que os gêneros musicais possuem diferentes modos de valorar o mundo, portanto de gosto e afetividades. O mundo midiático que compõem um certo consumo musical pressupõem determinadas forias (afetos), ou seja traços eufóricos em direção a alguns elementos associados a um gênero musical e disfóricos em relação a elementos considerados negativos dentro dessa cultura musical.
Cenas anteriores, como a dos punks nos anos 70/80, buscavam a ocupação de espaço públicos (as ruas, concretamente) como forma de visibilidade, assim como a do hippies e sua “contra-cultura” em fins dos anos 60 – talvez como um embate direto com outras culturas mais “tradicionais”? Algumas cenas hoje, no entanto, buscam outras formas de circulação – inclusive semi-ocultas, como a do indie-rock, e alguns setores da música eletrônica. O que ouve para essa mudança de posturas das (sub)culturas?
Jeder Janotti – Acredito que elas refletem uma mudança geral em relação as possibilidades da atuação política, não que esses movimentos abandonem o campo político, mas que essas relações são efetivadas de maneira diferenciada em relação às décadas de sessenta e setenta. Por exemplo, manter um selo independente, brigar por canais de produção e distribuição é uma forma de intervenção política bastante interessante quando se olha para o domínio do mercado fonográfico por um número pequeno de grandes empresas.
O underground sempre esteve associado à pouca circulação. Hoje, com as redes telemáticas e a absorção (apropriação) dessa cultura pelos mercados mainstreams, nos faz pensar: onde circula o underground?
Jeder Janotti – Acho que os canais de comunicação contemporâneos tiraram um pouco do romantismo que envolvia a pequena circulação, de qualquer modo, se ainda é possível pensar o underground, com certeza ele está associado ao consumo segmentado, o que aconteceu (e ainda bem!!!!) é que os pequenos selos e gravadoras se profissionalizaram em um quesito fundamental: distribuição!!! Mas, ainda acho que uma das características do underground é a tiragem pequena, pelo menos aos olhos dos participantes das cenas musicais que ainda se valem desse termo. Só para se pensar como é difícil demarcar de maneira precisa o termo underground, as duas músicas brasileiras mais bem colocadas na história dos charts internacionais são LK (drum´n´bass) e Roots (heavy metal), gêneros musicais que a princípio seriam “underground”. Acho que para quem interesse em estudar a música pop é mais importante preocupar-se com o modo como fãs, críticos, produtores e músicos se valem desse termo (e aqui é preciso reconhecer que quase a totalidade dos pesquisadores de música pop são fãs) do que tentar definir de maneira generalista “The Underground”.
As redes telemáticas, através da tecnologia p2p, associadas à possibilidade de controle das etapas de mercado (produção /circulação/ consumo) trouxe à música (e da informação em geral) a circulação livre da música, sob o domínio dos próprios artistas. Em que sentido esse dado alterou o comportamento na produção de (sub)culturas?
Jeder Janotti – Isso varia de acordo com os gêneros musicais, no indie rock várias pessoas deixaram de comprar CDs, já no heavy metal esse fenômeno parece não ter afetado de maneira substancial o mercado das pequenas gravadoras. Uma coisa é certa o processo de circulação e acesso à música se alterou completamente nos últimos dez anos. Esse é um fenômeno bastante complexo, no caso do Brasil, se lembrarmos que apenas 10% da população possui acesso regular à internet e que, uma grande parte do mercado fonográfico é dedicado aos segmentos populares, acredito que mais substancial que a circulação p2p é a proliferação de gravadores de Cds e a circulação de Cds piratas, fato que demonstra não só a fragilidade técnica das grandes corporações, bem como, o preço abusivo dos produtos musicais no Brasil.

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