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O USO DE PSICOATIVOS NA CENA DE MÚSICA ELETRÔNICA DE SALVADOR – BAHIA: UMA INVESTIDA INICIAL (FEVEREIRO DE 2006)

Por Adriana Prates

RESUMO

O presente trabalho é resultado de uma investida etnográfica na cena de música eletrônica da cidade de Salvador-Bahia, com a atenção voltada para questões relacionadas ao uso de psicoativos. É fruto de observação, entrevistas e conversas informais e procura demonstrar a amplitude do universo que compreende a música eletrônica, as clivagens que o mesmo comporta, com o objetivo de relativizar a compreensão generalizada da existência de uma relação automática entre o uso de psicoativos e a preferência pela música eletrônica.

PALAVRAS-CHAVES

Música eletrônica – Cena – Uso de psicoativos

EM PRIMEIRO LUGAR: O QUE SE ENTENDE POR MÚSICA ELETRÔNICA ?

Sob a denominação “música eletrônica” repousam estilos musicais variados e variáveis, entre os quais há de comum o fato das músicas serem produzidas de forma binária , possuindo, porém, dentro de cada gênero/subgênero, estrutura, velocidade, timbres e climas característicos . A expressão generalizadora “bate-estaca” é muito utilizada, especialmente de forma pejorativa, para denominar a música eletrônica. No entanto, esta compreende um vasto universo musical, do qual a House, o Tecno, o Drum and Bass e o Trance são os principais gêneros. Embora seja comumente relacionada às pistas de dança, a música eletrônica abrange também estilos não dançantes como, por exemplo, o Trip Hop, o Illbient, e o IDM (Intelligent Dance Music). Os gêneros também se subdividem. A House, por exemplo, pode ser apreciada nas vertentes Deep, Funky, Tech, Minimal, Soulfull, Hard, Freak, Tribal ou Progressive. O Trance pode ser Euro, Psy, Goa, Morning, Progressive, Fullon, Dark, Tech ou Hard, e assim por diante . O surgimento da música eletrônica está relacionado a vários eventos, dispersos ao longo do planeta e dos anos. Sem alongar ou entrar em aspectos polêmicos, serão citados os principais acontecimentos relacionados à emergência do que viria a ser, no Brasil, a partir de meados dos anos 90, conhecido como música eletrônica.

Experimentações com sons “sintéticos” são conhecidas desde fins do século XIX. Em relação à música pop, mais especificamente ao que hoje corriqueiramente se denomina “música eletrônica”, pode-se dizer que a história começa com o Kraftwerk, grupo alemão cujos componentes experimentavam produzir música a partir de recursos puramente eletrônicos, no final da década de 60. Esses artistas abriram precedente para a produção de uma música pop baseada em sons que não eram comumente associados com música, como o ruído de um trem em movimento, vidro quebrando ou buzinas de automóveis, por exemplo, sempre evocando o contexto tecnológico e a vida nas sociedades industriais.

Na década de 70 encontra-se outro elemento relevante para o surgimento não somente do que viria a ser conhecido como música eletrônica, mas também de um contexto para sua fruição e formação de uma cultura relacionada, que é consolidação, com o advento da “disco music” , da frequência aos nightclubs – ambientes fechados onde as pessoas se reuniam para dançar um som reproduzido mecanicamente. Além da freqüência aos espaços de dança, é importante ressaltar que a música House, o primeiro dentre os estilos do que viria um dia a ser conhecido como música eletrônica, começou a tomar forma no início da década de 80, a partir de influências da música Disco, com suas linhas de baixo melódicas e ritmo bem marcado, herdados, por sua vez, do funk.

Em textos que relatam o surgimento da House, sempre aparecem em destaque dois nightclubs e seus respectivos DJs (disc-jocqueis): o Paradise Garage, de New York – clube de frequência multirracial (e “multissexual”), onde atuava o cultuado Larry Levan – e o Warehouse (cujo nome batizou o gênero), de Chicago, onde Franckie Knuckles, considerado o criador da House, comandava o som. A segregação entre brancos e negros, homossexuais e heterossexuais não era a atitude que predominava nesses clubes, ao contrário do que costumava ocorrer em outros ambientes nos Estados Unidos. Como afirma Cheeseman no artigo “History of House”: “the emphasis was in the music”. Esses acontecimentos datam da primeira metade da década de 80. Quase ao mesmo tempo, em Detroit, Derrick May e Kevin Saunderson davam ao mundo uma versão menos “soulfull” e mais robótica do som produzido em New York e Chicago, originando mais um gênero de música eletrônica: o Tecno .

No fim da década de 80, com a chegada da House e do Tecno americanos ao velho continente e com a popularização de aparelhos eletrônicos como o sampler (que tem a capacidade de armazenar e reproduzir uma amostra selecionada de som em qualquer velocidade, adequando os trechos selecionados à escala musical), surge na Inglaterra a “Acid House”, estilo no qual a construção musical se dava através de colagens de sons diversos e de trechos de outras músicas, além de explorar bastante o som da TB 303, aparelho construído para simular linhas de baixo que, desprezado pelos músicos “tradicionais”, foi alçado à categoria de objeto de culto pelos produtores de música eletrônica. Também não se pode esquecer, ao contar esta história, da influência da cultura dos Sound Systems, trazida pelos imigrantes jamaicanos para os EUA, vez que esta teve um papel importante na origem do rap, em fins da década de 70 do século passado. O Rap (que significa Rhythm and Poetry) é um estilo musical no qual a figura do DJ, elemento importante no que viria a ser chamado futuramente de cultura clubber, era também uma peça-chave.

A partir dos anos 90, a música produzida para pistas de dança foi, durante algum tempo, considerada de forma unívoca, sendo categorizada como “Dance Music”. Com a consolidação e expansão do estilo, a denominação genérica de “Música Tecno” começou a ser utilizada, sendo substituída depois pela expressão “Música Eletrônica”, já que “Tecno” é, na verdade, a denominação de um gênero específico.

Como visto neste pequeno histórico, o que hoje se chama de música eletrônica é fruto do cruzamento de vários movimentos, em várias partes do globo. O contexto histórico do surgimento da ME, envolve ainda aspectos como a criação, popularização e conseqüente barateamento de aparelhos como sintetizadores e grooveboxes, assim como de computadores, além do desenvolvimento e disseminação de softwares destinados à produção musical. Esses também foram fatores de potencialização do gênero pois, embora usados por músicos de todos os tipos e estilos, é na música eletrônica que tais recursos adquirem papel central, não só na produção das faixas mas também na própria concepção musical, pensada e elaborada a partir dos mesmos.

Um elemento que define a música eletrônica, ao lado de características estéticas específicas – como determinados andamentos, timbres e texturas – e do modo de composição – binário, é sua associação com o underground. O termo underground adjetiva produtos culturais cuja intenção artística sobrepuja a intenção comercial, e que são produzidos, executados, divulgados e/ou distribuídos de forma alternativa. Assim, mesmo que sejam construídas de forma binária e que possuam timbres e texturas aproximados, faixas de caráter mais pop não se encaixam na definição de música eletrônica como música underground.

De acordo com esta ótica, predominante no meio da música eletrônica, a música tocada na maioria dos clubes direcionados à freqüência homossexual – segmento social costumeiramente associado ao estilo – não é considerada exatamente como eletrônica, visto que nesses locais são executadas as vertentes de caráter mais comercial, baseadas em fórmulas, da House Music.

DIFERENTES SONS, DIFERENTES PÚBLICOS, DIFERENTES IDENTIFICAÇÕES

Na Inglaterra, as primeiras festas de música eletrônica – as Raves – eram misturadas em termos de som e de público. Nessas festas, os participantes eram todos ravers e dançavam ao som de música “tecno”. Com o tempo, aquela música foi se especificando, gerando subgêneros, ganhando nomes diferentes, e públicos mais específicos foram se formando. As maneiras de desfrutar daquela música também foram se diferenciando. Fortaleceu-se a associação de determinados costumes, preferências e objetos – inclusive substâncias psicoativas – com os diferentes gêneros de música eletrônica. Assim, embora não exista uma correlação necessária, existe uma convergência / associação consagrada entre determinados segmentos sociais e alguns subgêneros da Música Eletrônica. Por exemplo: a House é constantemente associada aos gays e, ao menos em São Paulo, onde a cena Drum’n Bass foi muito forte no início deste século, o estilo é associado a jovens pobres das periferias, em sua maioria negros e afrodescendentes, denominados “cibermanos” (ou clubbers-favela, como já chegaram a ser chamados, segundo Palomino, 244). Já o Tecno e o Trance são mais comumente associados à preferência de jovens brancos pertencentes às camadas média e alta.

Assim, a fragmentação dos estilos foi acompanhada por uma diferenciação do público e dos contextos de fruição. Deste modo, as festas de Drum and Bass se tornaram bem diferentes das festas de Eletro, por exemplo, que, por sua vez, também são bem diferentes das festas de Trance .

Antes de prosseguir, é preciso frisar que não se pretende examinar, aqui, a exatidão de tais correlações ou fazer um acompanhamento do processo da diferenciação musical ou de público. O objetivo do presente trabalho é dar uma idéia geral sobre a cena de música eletrônica de Salvador-Bahia, procurando evidenciar as clivagens existentes e também desvelar aspectos relativos ao uso de psicoativos.

A FORMAÇÃO DA CENA DE SALVADOR

Embora seja consenso que a primeira festa de música eletrônica em Salvador tenha sido promovida pelo Dj Lúcio K, no dia 13 de agosto de 1993, no Solar do Unhão, pode-se falar realmente em uma cena de música eletrônica – compreendendo cena como rotina de acontecimentos / regularidade – conforme conceitualiza Duarte – a partir de 1999.

Só para deixar registrado, um pouco antes disso, Salvador já havia possuído uma cena de Djs. Nesta época, havia na cidade um circuito dedicado ao Miami Beat ou House Miami, estilo musical caracterizado por batidas eletrônicas quebradas e vocais melodiosos. A história desta cena, contada pelo Dj Lucio K., que foi um dos expoentes do estilo, é curiosa. Segundo ele, em meados da década de 80, um dos poucos locais onde era possível adquirir discos importados era uma loja carioca localizada em Copacabana, que recebia os singles da parada norte-americana. De acordo com Lúcio K., os discos do Top Ten americano eram rapidamente adquiridos pelos Djs do Rio de Janeiro. Assim, restava aos Djs baianos, em uma época em que não existia internet e as fontes de informação eram escassas, confiar nas sugestões dos vendedores da loja, que indicavam os discos que sobravam, faixas, justamente, da cena de Miami e Porto Rico – na verdade discos de Freestyle – que também conseguiam boas colocações na parada americana, por venderem bastante entre os jovens americanos de ascendência latina. Aos poucos os Djs baianos assumiram o estilo e várias danceterias – termo que era usado para designar as festas e espaços onde se podia ouvir e dançar o Miami – surgiram em Salvador, formando, na periferia da cidade, um circuito de festas e eventos. Ainda hoje existem apreciadores do Miami, que costumam se reunir nas danceterias Pop Dance (na Rua Carlos Gomes, Centro) e Emoções (no Engenho Velho de Brotas), espaços remanescentes de uma cena que, há vinte anos atrás, incluía diversos bairros populares de Salvador, como Liberdade, São Caetano, Periperi, Paripe…

Voltando especificamente ao que depois viria a ser categorizado como música eletrônica, antes de 1999, o que havia em Salvador eram iniciativas esparsas. Tem-se conhecimento, por exemplo, de uma festa ocorrida em 1996 numa barraca de praia em Itapoã, assim como de uma série de festas denominadas Ogumadélica, ocorridas no ano de 1998. O som dessas festas não possuía ainda caráter segmentado. Na primeira edição da Ogumadélica, por exemplo, na qual estive presente, foi possível escutar faixas de artistas e grupos como Fatboy Slim, Chemical Brothers, Prodigy e Kraftwerk, por exemplo.

A partir de 1999 é que os primeiros coletivos de música eletrônica – Pragatecno e Soononmoon – começaram a atuar de forma mais sistemática. Foi quando, também, um circuito de festas gays itinerantes, que reivindicavam o status de raves / festas de música eletrônica, começou a se desenvolver e com isso surgiram produtoras voltadas para a promoção deste tipo de evento, como Idéia Fixa e Oops Up.

Como no início da era das raves, na Inglaterra, também no início da cena de Salvador as festas de música eletrônica misturavam públicos e estilos musicais. Já as festas itinerantes atraíam majoritariamente um público gay masculino e restringiam o som às vertentes mais comerciais da House Music, incluindo ainda, por vezes, música pop brasileira remixada ou clássicos da “Disco Music”. Mas também possuíam características de acordo com o que prescrevia a cartilha clubber: eram divulgadas através de e-mails e flyers , traziam Djs como atração principal, pista com iluminação de boate, lounges com pufes e almofadas e, por vezes, stands de roupas alternativas e adereços característicos. Em relação ao contexto musical e de entretenimento da cidade, essas festas podiam perfeitamente ser consideradas alternativas, apesar de trazerem, em termos de som, o que era considerado lixo pelos conhecedores de música eletrônica. Com isso, estabeleciam-se polêmicas entre os aficcionados – que ansiavam por música eletrônica “legítima”- e os produtores desses eventos, acusados de se aproveitar do carisma que a música eletrônica começava a adquirir para promover festas com som comercial.

Nos anos 00, a música eletrônica tornou-se “hype” e com isso atraiu o interesse da mídia e de grandes corporações, dando origem a um fenômeno interessante: a realização de festas de perfil comercial, porém com a presença de Djs prestigiados no underground. Essas festas costumam atrair especialmente adolescentes e indivíduos que almejam participar dos contextos que estiverem desfrutando de prestígio na mídia. Em Salvador este tipo de evento começou a ocorrer há cerca de três anos, formando um pequeno mercado “mainstrean” de festas de música eletrônica. Assim, a cidade hoje conta também com eventos de caráter nitidamente comerciais, mas que levam o som de Djs respeitados no underground a um público não especializado.

Com tudo isso, hoje já é possível dizer que Salvador possui uma cena de música eletrônica. Esta é modesta e sobrevive, especialmente, graças aos esforços dos coletivos que atuaram para formá-la e continuam movimentando-a até hoje, ao manter uma rotina de festas, além de cuidarem da promoção de cursos de Djs, seminários, etc. Quanto às produtoras mais comerciais, representam iniciativas esparsas e pontuais, cujo objetivo é mais restrito e imediato: a obtenção de lucro, sem compromisso com a formação de público ou manutenção da cena. Entretanto, é inegável que acabam por contribuir neste sentido, por exemplo, ao fazer circular informação a respeito desta música, na mídia, ou ao trazer Djs de outros estados, cujos custos dos altos cachês, além das passagens e hospedagem, os torna inacessíveis para as produções de perfil underground.

Este foi um esboço rápido da formação da cena de música eletrônica em Salvador. Procurou-se apresentar as principais informações, de uma maneira geral, no sentido de ilustrar como se configurou a cena e se deu a formação de seu público. É interessante evidenciar que o presente trabalho é resultado do investimento de uma componente da cena, mais especificamente, da cena House da cidade, onde atua como DJ há mais de cinco anos. Neste sentido, representa uma iniciativa empreendida por uma testemunha, que escreve, em grande parte, sobre o que viveu e presenciou, sobre uma realidade que ajudou a construir, com todas as vantagens e desvantagens que esse fato pode trazer para um trabalho de caráter científico.

EM QUE SENTIDO ESTÁ SENDO USADO O TERMO CENA

Cena é, segundo Duarte, “uma subcultura quanto tem visibilidade (…) é a efervescência contínua de uma cultura específica (…) É o povo se reunindo sempre em torno de algo, num ´point`”. Assim, de acordo com Duarte “O que chamamos de cena é nada mais que uma comunidade se encontrando sempre para consumir o que elas gostam e se identificam, culturalmente” . (Em http://planeta.terra.com.br/arte/pragatecno/textoclaudio2.html)

Em Salvador, a música eletrônica já possui um público fiel e uma rotina de eventos. Com base neste ponto de vista, é possível afirmar, portanto, que a cidade possui uma cena de música eletrônica. Outra razão para destacar o termo, é porque o mesmo é utilizado pelos freqüentadores e aficcionados para definir o conjunto de iniciativas relacionadas à promoção da música eletrônica, de festas e eventos onde a música eletrônica é o motivo – e o que dá o tom – dos encontros. A cena, neste caso, é uma abstração, que procura circunscrever o universo relacionado à musica eletrônica, e é utilizado para referir-se a este, seja em nível musical, mundial, nacional, regional ou local. Assim, fala-se, por exemplo, na “cena de House”, na “cena brasileira”, na “cena do Nordeste”, na “cena de São Paulo”, e assim por diante.

A CENA HOUSE E A CENA TRANCE

Levando em conta a segmentação de som e público da qual se falou anteriormente, é mais adequado dizer que Salvador conta, na verdade, com, pelo menos, duas cenas de música eletrônica, duas rotinas diferenciadas de eventos, constituídas em torno da House e do Trance, que são as vertentes de maior destaque na cidade, e que têm, por isso, a capacidade de promover identificações além da questão musical, possuindo, pode-se dizer, potencial para formar identidade.

A cena House e a cena Trance possuem algumas características em comum, como a apreciação de música binária reta, a divulgação dos eventos via internet e flyers, os Djs como atração principal das festas, etc. No entanto, dão origem a contextos de apreciação bem diferenciados, como será visto a seguir.

Embora binária e reta, a música Trance é bem diferente da música House, assim como a cultura que se associa a ambas. O Trance é mais acelerado, geralmente mais melódico e impõe climas bem diferentes dos da House. Os públicos também são diferenciados, a começar pela questão do gênero e da orientação sexual. As “baladas” de House contam com afluência predominante de homossexuais do sexo masculino, enquanto que nas festas de Trance, pelo que foi possível perceber até o momento, a proporção de homens e mulheres é bem equilibrada e os homossexuais – de qualquer sexo – não têm presença predominante. Em relação à geração, nas festas de House é possível encontrar pessoas de idades variadas, sendo muito comum a presença de pessoas acima dos trinta anos. O público do Trance parece, de maneira geral, em média, ser mais jovem, aparentando estar, em sua maioria, abaixo dos trinta anos. Os contextos de apreciação também são diversos.

Em Salvador, a cena House possui, em relação ao som, uma face comercial e outra alternativa. Os eventos ocorrem principalmente à noite, em boates e locais pequenos, e costumam ser restritos ao perímetro urbano. Em relação ao uso de psicoativos, além do álcool, que é bastante usado, foi possível testemunhar / ouvir testemunhos acerca do uso de maconha, cocaína, ketamina (special k), poppers (nitrito de amila) e ecstasy. Entretanto, embora tenha sido possível levantar a presença dessas substâncias, a utilização de psicoativos não parece ser parte fundamental do estilo de vida dos freqüentadores da cena House, ao menos em Salvador. O uso é geralmente discreto e o excesso não é algo comum, sendo poucas as vezes em que foi possível testemunhar cenas de abuso, a exemplo de pessoas caídas, desmaiadas ou cometendo insanidades como comer areia ou ficar amigo de tocos de árvore , por exemplo. Até mesmo em relação ao álcool o abuso não é notório, se é que existe em proporção que mereça registro. Sobre o aspecto do uso de drogas ilícitas – ou, na verdade, da “falta de droga” – na cena House de Salvador, é interessante registrar os comentários emitidos por apreciadores desta música, em épocas diferentes, no sentido de explicar porquê esta cena, especialmente em sua faceta alternativa, sobrevive com tanta dificuldade: um deles falou que o que faltava em Salvador era “droga”. O outro disse que o que faltava em Salvador era um “dealer” na porta das festas. Uma Dj de São Paulo, quando soube da incipiência da cena de Salvador, logo perguntou se não era “por falta de droga”. Interessante que, nessas opiniões transparece a consideração dos psicoativos como aditivo para uma cena teoricamente constituída em torno de um estilo de música.

A cena Trance é a cena de eletrônica que “bomba ” em Salvador. Embora conte com eventos em locais fechados, tais como boates e casa de shows, costuma também se materializar em locais afastados, às vezes fora do perímetro urbano, a exemplo de sítios e reservas. É o caso das famigeradas Raves , que costumam durar 24 horas, às vezes até mais . Depois das festas, são tradicionais os afters e chill-outs . Na cena Trance, o apreço por civilizações perdidas e culturas orientais é característico e se revela em ações como a distribuição de calendários maias ou nas mandalas e símbolos esotéricos que costumam compor o ambiente das festas, onde predominam fluorescências, especialmente nas cores laranja e roxo, realçadas pelo uso da luz negra. Ilustrações de divindades como Shiva ou Ganesha constantemente figuram nas ambientações, e muitas vezes aparecem nas vestes dos freqüentadores . Essas características das festas parecem evidenciar que o contato com a natureza e a associação com o misticismo são elementos muito valorizados pelos freqüentadores da cena Trance. O mesmo acontece em relação à psicodelia e à expansão da consciência. Neste sentido, o uso de psicoativos é, aparentemente, parte importante da cultura e do estilo de vida relacionados ao Trance. Até o momento, foi possível presenciar o uso ou ouvir testemunhos acerca do uso das seguintes substâncias: álcool, maconha, haxixe, cocaína, ketamina, lança perfume, salvia divinorum, DMT, peiote, mescalina, ecstasy e ácido lisérgico. Na cena Trance, o uso de psicoativos é largo e facilmente perceptível inclusive para um observador pouco familiarizado. O excesso também é notório, sendo grande a quantidade de pessoas “fritando ” nas festas. Sobre este aspecto, é possível encontrar, na internet, fotologs e páginas do Orkut dedicadas à questão, a exemplo do “Frito passa mal”, onde estão expostas fotos de pessoas “muito loucas” nas Raves, seguidas de comentários dos visitantes das páginas sobre o estado de “fritação”. Em relação aos excessos, foi possível ouvir diversos relatos: sobre uma pessoa que passou a noite com a cabeça enterrada em um arbusto e outro que apanhou um punhado de areia no chão e ofertou aos céus, comendo a areia, em seguida, por exemplo.

Outras pistas autorizam a conclusão de que o uso de psicoativos faz parte do estilo de vida relacionado ao Trance. Por exemplo: é comum que festas e projetos tenham nomes que aludem à substâncias psicoativas, como Yagé e Infected Mushroom – nomes de projetos musicais – ou DMT CHAOS CLUBE, nome da festa cuja segunda edição foi realizada pelo coletivo baiano Soononmoon no dia 11 de maio de 2002, em uma casa noturna do Rio Vermelho chamada Open Gate, ou ainda DIVINORUM, nome de um projeto que leva o psytrance ao público de Curitiba, nos dias de quinta feira . No site do já citado Soononmoon, coletivo que atua na cena Trance baiana, consta o registro de uma experiência com “salvia divinorum”. Na lista de discussão mantida pelo coletivo, o universo dos psicoativos costuma ser constantemente debatido.

O Drum and Bass é também um estilo que conta com apreciadores, em Salvador. No momento, entretanto, a cena Drum and Bass tem sido pouco movimentada. Mas pensando em momentos anteriores, em que esta cena esteve mais ativa, em relação ao uso de psicoativos, não se pode afirmar que esses estiveram ausentes das festas de Drum and Bass, entretanto, se havia consumo de substâncias ilícitas, este nunca foi excessivo ou notório, segundo, inclusive, informação prestada por um dos entrevistados.

O USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS NOS CONTEXTOS DE FRUIÇÃO DE MÚSICA ELETRÔNICA DE SALVADOR

Para falar sobre o uso de psicoativos na cena de música eletrônica – ou melhor, nas cenas House e Trance – de Salvador, foram selecionados, para a realização de entrevistas, dois freqüentadores assíduos, usuários habituais de psicoativos. Sobre a cena de Trance fala um rapaz de 29 anos, que se define como heterossexual e residente com a família no Rio Vermelho. Sobre a cena House, fala um rapaz de 25 anos, que se define como bissexual e divide apartamento no Itaigara com um amigo. Este segundo informante, embora houseiro, costuma também freqüentar raves e festas de Trance. Por este motivo, pôde ensejar comparações entre as duas cenas, o que se revelou bem interessante.

Os dois rapazes possuem, em comum, além da faixa etária, o fato de fazerem uso freqüente de psicoativos nos contextos de fruição de música eletrônica. Durante os depoimentos, que foram gravados, ambos foram encorajados a falar tanto de sua experiência pessoal quanto da perspectiva geral, na cena (s) que freqüentam.

O informante apreciador de House já experimentou cocaína, ketamina, ecstasy, maconha, álcool, LSD, cigarro, GHB e poppers, mas costuma usar, habitualmente, maconha (“everyday”) e ketamina. Seu psicoativo preferido para usar nas festas é o ecstasy, porque “é a melhor forma de você absorver a música, porque você fica muito mais sensível a tudo, e a música, então, entra e tal…”. Entretanto, relatou que, como tem sido difícil achar essa substância em Salvador, têm usando, atualmente, cocaína. Esta dificuldade de encontrar ecstasy é corroborada por outras pessoas, que, por conta deste fato, compraram/utilizaram ketamina, lança-perfume (no carnaval de 2006) ou optaram por não usar nada.

Para o houseiro, a associação geral entre o uso de psicoativos e a música eletrônica:

“tem uma parte verdade, mas tem uma parte que a galera aumenta muito, tipo… têm pessoas que, como associam dessa maneira, acha que você deve ir para a festa eletrônica usar, entendeu ?”. Entretanto, acredita que os psicoativos podem ter um papel na cena, opinião que transparece quando emite a seguinte frase:

“se uma pessoa tomasse ecstasy pela primeira vez na balada de House, ela nunca mais ia querer deixar de ir numa balada de House. Mesmo que não tome, mas, tipo, acho que a possibilidade ia ser maior de ela querer ir numa cena… numa balada de House”.

Em relação à cena House de Salvador, confirmando as impressões obtidas através de observação, relata que o uso de drogas ilícitas se dá em pequena escala, o que atribui, em parte, à dificuldade do acesso. Sobre o padrão de uso nos ambientes onde predomina a música House, ele afirma não ser muito comum a ocorrência de abusos , mesmo de álcool: “passar mal, sair carregado da boate, essas coisas assim ? impossível.”.

Para amparar suas conclusões, como a cena House de Salvador é pequena e tem “pouca droga”, este informante algumas vezes se utilizou da dinâmica da cena House de São Paulo. Assim, aponta o ecstasy, de modo geral, como a substância preferida pelos apreciadores de House, tanto no circuito comercial quanto no alternativo. Diferencia, porém, as finalidades do uso nos dois contextos. Para ele, os usuários que preferem o circuito underground – seu caso – usam o ecstasy porquê se tornam capazes de absorver melhor a música. Explica este fato com um exemplo pessoal: “eu tomo porque vou me sentir muito bem, vou ouvir uma música ótima e a música vai, sacou, vai me satisfazer ali naquele momento, vai ser lindo”. A cena de House comercial é associada, pelo entrevistado, com a “pegação”, a qual julga ser a finalidade maior dos encontros em tal contexto. O público da House comercial, segundo ele, usa ecstasy (ou algum outro psicoativo) para “curtir” a música, mas também para incrementar a pegação, já que o ecstasy deixa a pessoa mais “fofinha”, mais “facinha”, ou seja, mais receptiva à paquera e ao sexo, elementos que admite estarem muito presentes na cena House.

O informante houseiro é também freqüentador da cena Trance, na qual, afirma, o ácido lisérgico é a substância mais utilizada / preferida. E se propõe a explicar porquê:

“como a música Trance é uma música muito mais forte e com características mais psicodélicas, é a mesma coisa do ácido. O ácido é uma onda muito mais forte, muito mais psicodélica também, muito mais visual, e como as festas de Trance também têm muita decoração, psicodélica, visualmente, assim, aquela coisa bem chocante, é uma coisa alimentando a outra. Da mesma forma que é o ecstasy para festa House/clube”.

Conclui, assim, que cada psicoativo potencializa a fruição de um determinado estilo de som/ambiente. Sobre o padrão de uso na cena Trance, ele diz que as pessoas costumam misturar substâncias, “principalmente com maconha, e como ácido não tem muito problema com bebida, com álcool também”. Ainda sobre o padrão de uso do público do Trance ele diz que “é muito” “inclusive tudo” (todas as substâncias), principalmente ácido, em gota, cristalizado, etc.

Sobre abusos, o entrevistado diz que acontecem, pois como há na cena House aqueles que usam e vão “para pegar, para se drogar e pegar, eu acho que tem também os abusados da cena Trance, que só vão para se drogar (…)”. Sobre o aspecto da paquera e do sexo, ele diz: “e nem tem muita viagem de pegação (…) você vai na cena Trance e ninguém pega ninguém. É muito difícil” .

Para ele, os psicoativos têm mais um papel na dinâmica das festas de Trance, já que a música “é forte, rápida, então cansa”. Como as festas duram muitas horas, até dias, os psicoativos teriam também o papel ou a função de garantir a energia para que os freqüentadores permaneçam nos ambientes, dançando durante tanto tempo. A dança, segundo ele, também é diferente:

“No Trance é muito dançar batendo o pé no chão. Muito diferente na cena de House, porque a música não é sempre reta, reta, você pode se balançar e dançar de qualquer maneira, mas no Trance não, é aquela música reta” (…) “Tem dancinha pulando corda, também”.

O informante apreciador de Trance também já experimentou vários psicoativos e, neste sentido, citou: DMT, salvia divinorum, peiote, mescalina, ácido lisérgico – em forma de papel, gotas, gel, microponto, cristal – cápsula de vento, ketamina, benzina, ressalvando que esta última foi somente uma vez e “nunca mais”. Nas festas de Trance, consome habitualmente o ácido lisérgico.

O informante tranceiro acha que a associação corrente entre psicoativos e música eletrônica se dá porque esta é:

“uma música muito sensitiva (…) não tem uma letra lhe conduzindo numa viagem, é uma viagem muito pessoal, no som há vários timbres, ninguém nunca ouviu aquele instrumento lá, estranho, então não tem assim um cara, uma mulher falando qualquer coisa. É uma viagem muito pessoal”.

Segundo ele, por isso tem muita gente que acha que “só funciona se tomar alguma coisa”. Neste sentido, diz que muita gente nova pergunta como é que se consegue “ouvir aquela música sem tomar alguma coisa”. Para ele, entretanto, esta relação não é de necessidade, embora a relação esteja estabelecida “no imaginário, sim, com certeza”.

Ele explica sua preferência pelo ácido porquê “sente a música de outra forma”. Segundo ele:

“o ecstasy também dá essa sensação de, de outra coisa e tal, mas o ácido é diferente, a viagem é muito profunda, acho que a viagem do ecstasy é bem no corpo, bem, bem, no corpo e a viagem de ácido é muito mais na mente, mais no outro mundo, lá”.

Embora afirme que “a malucada”, os tranceiros mesmo, preferem ácido e que a “playboyzada” e as “patricinhas” preferem ecstasy, ao mesmo tempo diz que “não tem uma preferência no Trance, usa de tudo, e junto, de preferência”. Instado a explicar o significado deste “tudo”, exemplificou:

“tipo pingar dez gotas (de ácido) numa garrafa de um litro d´água, dez gotas, e botar uns quadrados ali dentro também, três balas e misturar tudo e todo mundo tomar. Tem muito isso também, tem uma coisa que eu percebo no Trance, que, principalmente com ácido, o cara não quer tomar sozinho, ele quer que todo mundo tome em volta, os amigos, uma galera que estiver por perto, assim, roda a garrafa. Não fica ninguém surtado, mas fica todo mundo maluquinho junto”.

Relatou que, além dessas misturas, é costume ainda beber cerveja e fumar maconha, regularmente, ao longo da festa.

Ainda sobre o padrão de uso, relatou que:

“no Trance tem uma cultura de tomar tudo. Acho que é porque a música é surreal demais, então a galera que ficar louca o máximo, entendeu ? E já não sabe mais se é da música, se alguém falou do lado, se tá na cabeça, a viagem… Eu vejo que no Trance tem muito isso, de a galera querer alcançar mesmo … sair mesmo do lugar (…) Entrar em outra história”

Sobre a dinâmica das festas, confirma a longa duração como uma tradição e revela que é costume ter “depois dela o after. E depois um after do after…” Segundo ele:

“enquanto tiver um Dj tocando … não precisa nem ter um neguinho em pé, lá, dançando. Se o Dj tiver a fim de tocar, vai para algum lugar, monta (o som) e fica lá”. Isso porquê “também é tempo de passarem as paradas. Que o negócio do ácido é que acaba a festa e tem duas horas que neguinho tomou um ácido e aí tá batendo, e quer ir para algum lugar para gastar a onda dele. Aí à medida que o cansaço vai batendo em um e outro a festa vai terminando aos poucos”.

Ou seja, a cultura do after, segundo o entrevistado, está relacionada ao consumo de psicoativos.

Segundo o informante tranceiro, a organização do line up “tem muito a ver com o peso e a velocidade”. Mas a relação com o uso dos psicoativos também se evidencia: “É foda neguinho tá chegando na festa ainda não tomou nada e tá aquela darkzeira máxima, poderosa” (…) “bota um cara que toca um Dark (estilo de Trance) mais bacaninha…”. Em Salvador, atualmente, o Dark Trance é, segundo o informante, o estilo de maior prestígio. Por ser mais rápido e denso, costuma ser tocado nos horários de pico. O Morning Trance também desfruta de prestígio e é, segundo o informante, mais colorido, ideal para o amanhecer. O Progressive ou um Dark “mais bacaninha”costumam ser reservados para o início e o fim das festas, quando as pessoas estão ainda entrando no clima ou voltando da viagem.

Indagado sobre o significado do termo “fritar”, corrente na cena, aproveitou o momento para expressar sua compreensão sobre a relação entre a música e os psicoativos. Segundo ele, fritar:

“é essa hora que você não sabe que porra tá acontecendo. Se alguém falou com você ou se você achou que alguém falou ou queria que alguém falasse, se falou alguma coisa na música (…) Muito louco. Aí que Eletro(outro estilo de música eletrônica) não dá, falta muito…”

Indagado sobre o perfil dos frequentadores, respondeu que tem todo tipo de gente na cena. O perfil do público, segundo ele, “é muito diversificado, principalmente agora que a cena tá bombando”. A observação, no entanto, não confirma sua afirmação, dado ser perceptível a presença majoritária de indivíduos jovens, brancos, em sua maioria, e, aparentemente, pertencentes às camadas médias. O fato das festas ocorrerem fora do perímetro urbano, já seleciona o público, vez que é necessário possuir carro ou dinheiro para táxi, o que inviabiliza, de maneira geral, o comparecimento de indivíduos menos favorecidos. Assim, mesmo que seja possível encontrar, nas festas de Trance, como disse o informante, “playboy”, “psicólogo” e “vagabundo”, todos parecem estar inseridos, em relação à condição sócio-econômica, em categorias aproximadas.

Como já relatado, nas festas de Trance a proporção de homens e mulheres é equilibrada e, segundo o informante, rola muita “azaração” mas não sexo. Diz ele: “como é que consegue trepar, doidão, maluco… de ácido, então…”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A música eletrônica foi, até pouco tempo atrás, trilha sonora exclusiva de eventos de caráter alternativo, por vezes à margem da lei, organizados exclusivamente por seus apreciadores. Chega, porém, ao grande público, no terceiro milênio, muitas vezes em eventos direcionados a milhares de pessoas, sob o patrocínio de companhias transnacionais , gerando em alguns clubbers a nostalgia por uma época considerada mais romântica ou espontânea. No Brasil, não faz muito tempo que a música eletrônica começou a aparecer na grande mídia e que a moda dos clubes ganhou as ruas. Interessante é que hoje, até a música-tema de tradicionais programas de televisão, como, por exemplo, o Fantástico, da Rede Globo, ganharam roupagem de acordo com a cartilha eletrônica. Do mesmo modo, artistas da MPB passaram a se valer do talento de Djs para dar novas roupagens às suas composições ou para fazer versões dançantes de seus sucessos. Até no carnaval da Bahia já existem trios elétricos que trazem Djs não somente como acompanhantes de músicos e estrelas, mas como atração principal, vide o Bloco da Skol, no qual, na terça-feira do carnaval de 2006, apresentaram-se exclusivamente Djs ou o trio eletrônico de Daniela Mercury, há cinco anos atraindo multidões no domingo de carnaval.

Se tudo isso denota certa ascensão da música eletrônica e o prestígio adquirido pela cultura a esta relacionada, por outro lado, festas dedicadas ao estilo, especialmente as raves, vêm se tornando alvo de perseguição, por parte de políticos e autoridades policiais . No Pará, a realização de eventos deste tipo foi até mesmo proibida oficialmente (ver edição da Folha de São Paulo de 21 de novembro de 2005). Este tipo de ação é justificada com o argumento de que na cena de música eletrônica existe grande consumo de substâncias ilegais.

A associação entre psicoativos e música eletrônica é reforçada de várias maneiras. Na novela “O Clone”, da Rede Globo, uma vinheta Tecno era utilizada no momento em que apareciam na tela personagens que, na trama, eram usuários compulsivos de drogas ilícitas. Situações como esta reforçam, sutilmente, uma associação que já é corrente. Do mesmo modo, reportagens de teor sensacionalistas não param de ser produzidas. Neste sentido, as apreensões de substâncias ilícitas efetuadas em festas de música eletrônica costumam ser amplamente noticiadas, geralmente de maneira sensacionalista, contribuindo para formar/reforçar no senso comum a idéia de que este tipo de evento, de maneira geral, constitui território livre para consumo massivo de “drogas”, o que gera protestos veementes dos adeptos da cena.

Por todos esses motivos, é inegável a importância de tratar do uso de psicoativos na cena de música eletrônica a partir de uma abordagem cultural, que fuja do oportunismo das agências oficiais de repressão ou do sensacionalismo da mídia, investindo no desvelamento dos padrões e significados do uso em tais contextos, o que seria útil, por exemplo, para subsidiar propostas para reduzir os danos que o uso desinformado ou o abuso podem, certamente, causar.

Tendo em vista esses fatores, para tentar compreender os significados que assume o uso de psicoativos na cena de música eletrônica, sua relação com o estabelecimento de contextos diversos e o seu papel na dinâmica das cenas específicas, este trabalho procurou abordar, em nível ainda exploratório, o tema do uso de psicoativos na cena de música eletrônica de Salvador. Neste sentido, procurou trazer uma explicação, de forma geral, sobre o que é música eletrônica, mostrar sua amplitude, apresentar os principais estilos e também dar uma idéia de como se compõe a cena de música eletrônica na cidade de Salvador, evidenciando suas fronteiras e fazendo um levantamento das substâncias ilícitas que são consumidas de forma mais constante neste meio.

Certamente não seria prudente falar em conclusões a partir de uma modesta incursão inicial, como é o caso do presente trabalho, cujas afirmações ainda não foram corroboradas por observações continuadas ou pela aplicação sistemática de entrevistas. Entretanto, informações interessantes foram obtidas, especialmente quando se pensa que o universo relacionado à música eletrônica é um aspecto da realidade ainda pouco explorado pelas Ciências Sociais, havendo pouca bibliografia sobre o tema. O mesmo ocorre com a formação de comunidades relacionadas a preferências estéticas. Em relação às possibilidades de investigação, a observação sugere a da relação do uso de psicoativos com as comunidades musicais, seu papel na dinâmica dos eventos e na formação das subjetividades, em tais contextos.

Saindo do campo da amplitude das possibilidades de investigação que o investimento na cena de música eletrônica pode oferecer, e já que ainda não é possível falar em conclusões, cabe então expor, pelo menos, as intrigas deixadas por esta incursão inicial.

Como se tentou demonstrar, a música eletrônica é um termo generalizante, que circunscreve um conjunto de estilos musicais e culturas bem diferentes. Somente este aspecto já deixa evidente que não é possível falar em uma relação automática entre drogas e música eletrônica. Isso seria uma generalização grosseira, reducionista, sendo necessário contextualizar as afirmações neste sentido, de acordo com as nuances que esta música e os comportamentos a ela associados podem assumir.

Além disso, a pouca quantidade de psicoativos que, segundo freqüentadores, circula na cena House de Salvador (ou na pequena cena de Drum and Bass) é outro dado que permite relativizar a associação generalizante entre psicoativos e música eletrônica. Aliás, a própria existência da cena de House de Salvador (ou da pequena cena de Drum and Bass), já seria suficiente para confrontar tal associação, vez que esta é uma cena perfeitamente constituída, mesmo com toda a dificuldade, relatada por informantes, em obter ecstasy – substância supostamente preferida por apreciadores de House e relacionada a esta cena. Por outro lado, na cena Trance, os psicoativos parecem ter presença e papel relevante, o que, por sua vez, não significa que este aspecto possa ser automaticamente derivado do fato da música Trance ser eletrônica.

Nas entrevistas, informações e idéias interessantes surgiram. Primeiramente sobre o estabelecimento no imaginário da relação entre o uso de psicoativos e a preferência por música eletrônica. Esta idéia, tornada corrente por uma atuação sensacionalista da mídia, parece favorecer, justamente, um posicionamento dos indivíduos neste sentido, o que está sintetizado na frase do informante houseiro:

“tem uma parte verdade mas tem uma parte que a galera aumenta muito, tipo… tem pessoas que, como associam dessa maneira, acha que você deve ir para a festa eletrônica usar, entendeu ?”

Também por conta desta associação corrente, os psicoativos podem passar a ser considerados como um aditivo para a cena, opinião que se evidencia quando alguns frequentadores da cena de House fazem afirmações como: “falta um dealer na porta das festas” “falta droga nesta cidade” ou quando uma DJ de São Paulo, no início de fevereiro de 2006, perguntou se não seria por “falta de droga” que a cena House da cidade não evoluía, em termos numéricos.

Nas entrevistas aparece a consideração de que cada substância potencializa a fruição de um determinado estilo de som e vice-versa. Deste modo, o ecstasy é associado à House e o ácido lisérgico ao Trance, por exemplo. E até dentro do mesmo gênero, alguns sub-estilos são considerados mais propícios para o desfrute dos efeitos dos psicoativos -e vice-versa – como a fala do tranceiro esclarece:

“a viagem do Dark que eu vejo que facilita a viagem do ácido, por exemplo, é que é cheio de coisas, dá muito espaço para você gastar sua onda ali, tem muita informação para você processar, você tá lá doidão e ouvindo Eletro, a cabeça cheia de coisa e o som não te ajuda, o som fica lá só mantendo o ritmo e não tem nada para você ficar pensando”.

Nas falas, especialmente as do tranceiro, transparece a compreensão de uma relação dicotômica, e até mesmo hierárquica, entre corpo e mente e, neste sentido, o lócus da ação dos diferentes psicoativos também são vistos como diferenciados. Assim, a partir dos depoimentos dos entrevistados, é possível inferir que, em sua interação com a música, o ecstasy parece ser compreendido como propiciador de uma experiência mais corporal e o ácido como propiciador de uma experiência mais mental, o que parece ser relacionado, pelos informantes, à preferência musical.

Assim, na cena Trance, o ecstasy, cuja experiência da viagem seria “bem, bem no corpo”, seria preferido pela “playboyzada” e pelas “patricinhas”, enquanto que a “malucada, mesmo” preferiria o ácido lisérgico, cuja viagem “é mais no outro mundo, lá”. Na cena House, embora o ecstasy tenha sido definido como a substancia psicoativa preferida, haveria uma distinção em relação aos objetivos do uso dos gays que preferem um som mais conceitual e dos que preferem uma House mais comercial. Os primeiros usariam, na hipótese do houseiro, para sentir melhor a música, enquanto que os gays que ouvem House comercial, usariam para incrementar a “pegação”.

As falas abaixo exemplificam:

Houseiro: “O ecstasy é mais na cena House porquê é uma coisa mais de pele, e normalmente as pessoas que gostam mais de House são as pessoas que querem pegar mesmo, querem ficar mais clubezinho, mais quentinho, mais no escuro, assim…”

Tranceiro: “o ecstasy também dá essa sensação de, de outra coisa e tal, mas o ácido é diferente, a viagem é muito profunda, acho que a viagem do êxtase é bem no corpo, bem, bem, no corpo, e a viagem de ácido é muito mais na mente, mais no outro mundo, lá”.

Outra consideração que emerge é que, a partir da preferência musical e da preferência por uma determinada substância ou do objetivo de uso, são inferidas características de personalidade, como a fala anterior do houseiro sinaliza. O tranceiro também dá uma pista neste sentido:

Tranceiro: “os malucos mesmos gostam de ácido, a playbozada gosta muito de ecstasy, as patricinhas, principalmente, elas tem medo de ácido, tem medo de surtar, de perder a noção, de ficar maluca, comer areia… não gostam muito de ácido” (…) “a malucada mesmo gosta muito de ácido”.

Entrevistadora: Mas gosta do Trance também… ?

Tranceiro: “Gostam do trance também – gosta, ouve em casa, baixa, compra disco, tem, troca, vem perguntar que música é aquela”…

Transparece, nessas falas, como citado anteriormente, a compreensão da relação entre mente e corpo como dicotômica (e hierárquica). Em relação ao efeito dos psicoativos, o efeito do ácido é remetido à mente e, por isso, a uma “viagem” mais profunda. O ecstasy, ao que parece, é associado à uma fruição mais “corporal” e por isso mais “superficial”, sendo preferido pelos gays que ouvem música comercial ou pela “patricinhas” e playboys, categorias de menor prestígio dentro da cena de música eletrônica underground, o que sinaliza também para uma dimensão de legitimação e estabelecimento de hierarquia, a partir da preferência ou do uso de determinadas substâncias.

Para finalizar, é preciso lembrar, mais uma vez, que essas são somente pistas iniciais, na verdade, impressões e hipóteses a serem ainda devidamente interrogadas e investigadas, mas que já sinalizam que a “viagem” pode ser bem interessante.

WEBGRAFIA

http://planeta.terra.com.br/arte/pragatecno/textoclaudio2.html

http://music.hyperreal.org/library/history_of_house.html

http://www.fotolog.com/frito_passa_mal

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1681068

http://www.soonomoon.org/zumo

http://www.pragatecno.com.br

http://www.eletrogralha.com.br

BIBLIOGRAFIA

Palomino, Érika. Babado Forte: moda, música e noite na virada do século XXI. Ed. Mandarim, São Paulo, 1999.

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