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entrevista/PAULO BELZEBITCHY

ENTREVISTA MISTA COM PAULO BELZEBITCHY

INTRODUÇÃO

Por Adriana Prates

O termo “queer” era originalmente utilizado para agredir pessoas que não estavam em sintonia com os padrões vigentes de gênero e sexualidade, mas, a partir de um determinado momento, foi apropriado pelos agredidos e resignificado, incorporando uma crítica acerca dos processos sociais de normatização. Foi a perspectiva queer que inspirou Paulo Belzebitchy a fazer arte para protestar contra todas as formas de discriminação e opressão.

Ele faz isso por meio de letras dispostas sob bases eletrônicas sujas, que incorporam ritmos malditos como o funk carioca, por exemplo, e de uma vigorosa performance, através da qual detona hipocrisias e contagia a plateia a ponto de conseguir criar, durante o show, uma zona temporária onde, de forma lúdica e catártica, gênero, sexo e desejo se desconectam de forma prática, deixando tudo confuso e muito mais certo do que algumas ficções esterilizadoras sobre quem devemos ser ou como devemos nos expressar querem nos deixar crer. Experiência libertadora e fértil da qual adoro participar.

É esta capacidade que a mim – que transito prioritariamente pelos corredores da academia – fascina, desde os tempos em que fiz a produção, na extinta Boomerangue, de alguns shows da Solange to Aberta, banda que Paulo integrava junto com Pedro Costa: de fazer a platéia experimentar visceralmente a sua proposta, de promover um envolvimento corporal, através da dança, do ambiente e da interação que se estabelece, proporcionando um entendimento que a leitura de nenhum texto é capaz.

Como, infelizmente, não é todo dia que tem festa, acho também interessante, além de dançar, curtir e vivenciar a experiência do show, aprofundar o pensamento a respeito de tudo isso e conhecer mais sobre o universo que inspira Paulo Belzebitchy.

Assim, enquanto esperava a SOTEROPOLIQUEER, festa que acontece na próxima quinta, dia 15 de dezembro no Sunshine (casa noturna localizada no Rio Vermelho e também conhecida como Idearium), solicitei a algumas pessoas, pela internet, que fizessem a Paulo duas perguntas sobre seu trabalho, sua experiência de vida, sua inspiração, enfim, sobre o que desse curiosidade.

Foram convidad@s ativistas, acadêmicos, travestis, transformistas, uma gama de pessoas, dentre as quais responderam, até agora, @s ilustres perguntador@s Scarleth Cabochard Sangalo, Vitória Ottoni, Leandro Colling, Gisele Nussbaumer, Luiz Mott e… eu, que originalmente não pretendia perguntar nada, mas acabei virando perguntadora porque não quis perder a oportunidade de colocar em pauta dois temas que, acredito, necessitam ser levantados e discutidos, mas que não tinham aparecido nas perguntas dos convidados.

Então, enquanto a festa não chega para nos fazer transbordar, vamos à “entrevista mista” com Paulo Belzebitchy. Espero que seja bom pra você também😉

PERGUNTAS

SCARLETH CABOCHARD SANGALO, TRANSFORMISTA

1 – Como você vê o cenário musical brasileiro lá fora? É acessível? As pessoas curtem?

Em Berlim, onde vivo atualmente, além de mim, tem uma galera brasileira muito bacana, que está movimentando bastante a cena musical da cidade como Mc Xuparina, La Roulette, Músicas intermináveis para Viagem, Solange, tô aberta!.

Apesar de algumas pessoas torcerem o nariz, o que existe em qualquer lugar, existe muita gente disponível e receptiva a conhecer o meu trabalho e o trabalho dos artistas que citei acima. Posso dizer que profissionalmente este foi um ano maravilhoso, pois lancei este meu novo projeto oficialmente em Maio deste ano, com um show no Off_Pride Festival, em Zurique, na Suíça. Neste curto período de tempo, aconteceram várias coisas legais, tive a oportunidade de me apresentar em lugares incríveis, conhecer pessoas maravilhosas, e sinto que ainda tenho muito para conquistar. Portanto, se você trabalha com dedicação, certamente encontrará um cenário acessível sim.

2 – Qual o crescimento da musica brasileira na sua visão?

Ouço e gosto muito de música brasileira, até tento me manter atualizado do que está rolando aqui, mas por conta do trabalho, das viagens e de todas as funções do dia-a-dia, acaba sobrando pouco tempo pra isso. Profissionalmente falando, acho que fazer música realmente independente no Brasil é mais complicado (do que na Europa). Sobretudo se você se você não está a fim de ser mais um ingrediente da “panelinha”, aí então tem que ralar peeeencas!

VITORIA OTTONI, PSICANALISTA E PROFESSORA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UFBA

1 – No seu entendimento, o que leva uma pessoa a dirigir a sua pulsão sexual sobre este ou aquele objeto de desejo”? ou seja, como se escolhe uma posição masculina ou feminina frente ao objeto do desejo?

Acho “escolher” uma palavra um tanto quanto delicada para falar sobre esse assunto. É muito complicado analisar o que é escolha e o que é sentimento, até porque a forma como cada pessoa se vê e se sente é algo extremamente particular. Além disso, reproduzir um protótipo binário no qual comportamentos, gestos e desejos são atribuídos separadamente a dois únicos gêneros, é algo em que definitivamente não acredito. Acho extremamente limitador definir quem será o homem ou a mulher de uma relação. Somos metralhados o tempo inteiro pela heteronormatividade. Se existe alguma escolha, ela é feita de maneira superficial, muitas vezes até despercebida. Na realidade, (o que se impõe) é apenas a reprodução de um modelo que a sociedade nos impõe como certo, desejável, e digno de respeito.

2 – Como é que você vê o seu papel simbólico de ativista inscrito na sociedade contemporânea?” “Você acredita que deixa uma marca consequente?

Quem me conhece bem, sabe que não sou de ficar guardando o que sinto, seja bom ou ruim, preciso botar pra fora! A música é uma excelente e prazerosa forma de fazer isso! Necessito gritar, ouça quem quiser, goste quem puder, odeie quem não tem nada melhor pra fazer. Pra mim não importa, vou continuar gritando!

Acredito que a partir do momento em que você se abre e mostra a sua verdade, conseqüentemente agrega pessoas que concordam ou não com o que você está mostrando. Nós, que somos alvo de discriminação, temos sim um papel importante na sociedade. O preconceito nos agride, nos exclui e arranca os nossos direitos. Muitas vezes até nos enfraquece, mas é importante não abrirmos mão de mostrarmos o que realmente somos. Porque a cada vez que fazemos isso, caminhamos, mesmo que a passos lentos, para vivermos nossas vidas sem ter que pagar mais caro que ninguém por isto.

PERGUNTAS GISSELE NUSSBAUMER, PROFESSORA DA FACOM-UFBA

1 – É possível falar em uma cultura gay ou queer? Caso seja, o que caracteriza essa cultura e qual seu espaço e público hoje? Caso não seja, como você prefere classificar/denominar seu trabalho?

Honestamente, acho esse papo de cultura uma grande forma de manipulação! Relacionar uma cultura a qualquer identidade sexual me remete a duas coisas que me são extremamente nocivas: normatividade e estereótipos.

Vejo as sexualidades como universos de possibilidades, assim mesmo, no plural! Portanto, acho que quando se cataloga ou atribui uma cultura a um determinado “grupo”, acaba gerando expectativas de comportamentos que de uma maneira ou de outra reprimem nossos desejos, criam barreiras e reforçam um discurso normativo da qual já estou muito cansado!

Isso se reflete totalmente no que faço. A vida não é homogênea e as pessoas muito menos! Acredito ser este o principal motivo de nunca ter parado pra pensar em como poderia classificar ou denominar meu trabalho. Existem milhões de fragmentos que me fazem ser quem sou e a cada hora esses fragmentos se multiplicam, se transformam. Sentiria-me sufocado se juntasse tudo isso em apenas uma ou duas palavras, sem contar no fato de que iria querer mudar essas palavras todos os dias! (risos)

2- De Fortaleza/Nordeste do Brasil para Berlim/Alemanha, qual a diferença em termos de aceitação e espaço para seu trabalho? Onde existe maior preconceito, em que espaços/perfis de pessoas?

Antes de qualquer coisa, é necessário lembrar que são realidades e situações muito singulares, na maioria das vezes até contrastantes.

A diferença mais gritante pra mim, é que na Alemanha as chances de qualquer pessoa fora dos “padrões” sofrer violência física são consideravelmente menores. Além disso, caso aconteça alguma situação do tipo, quem agrediu não ficará impune a menos que você colabore pra isto.

Falando não apenas de sexualidades, grande parte da população tem a consciência de que não é legal aceitar tudo ou simplesmente “deixar pra lá”; as pessoas organizam, vão pras ruas, fazem passeatas, manifestações, intervenções; não tem esse papo de que a situação está uma bosta, mas vou ali ver a novela

Os eventos, festivais e espaços onde tenho me apresentado são bem parecidos com os que eu me apresentava aqui. Só que lá, eles são muitos, e existe um número bem maior de pessoas envolvidas.

Uma coisa em comum é que os espaços e atividades realmente independentes precisam lutar diariamente para não serem engolidos pelo capitalismo e todo um sistema escroto. A verba é curta, os custos são muitos e a maioria dos eventos são DIY (Do It Yourself – faça você mesmo).

Apesar das dificuldades, tive a oportunidade de participar de eventos maravilhosos, tanto no Brasil, quanto na Europa. Tenho viajado bastante, conhecido muitos países e seguramente posso garantir que gente preconceituosa, fascista e babaca é igual à fome, tem em tudo quanto é lugar

PERGUNTAS LEANDRO COLLING, PROFESSOR DO IHAC-UFBA E PRESIDENTE DA ABEH (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS DA HOMOCULTURA)

1- O teu trabalho, desde o Solange tô aberta, tem a proposta de embaralhar os gêneros, desconstruir a dicotomia entre homens e mulheres, hetero e homossexuais. Eu gostaria de saber sobre os depoimentos do público. Qual o impacto dessa proposta nas pessoas que assistem os shows ou tomam contato com o trabalho?

Em junho deste ano fiz um show em um evento que acontece anualmente, chamado “Transgenialer CSD”, que é uma espécie de “parada alternativa” pra quem não se identifica com a Parada Gay Oficial de Berlim. Esse evento acontece nas ruas de Kreuzberg, um bairro que possui uma vida alternativa fervilhante e também uma enorme população de árabes, turcos e seus descendentes. Estava lá eu cantando em cima de um caminhão, quando vi três garotinhas muçulmanas no meio daquele mar de punks! Elas me pareciam bem jovens, mas já usavam aquele véu em suas cabeças, tenho quase certeza que seus pais nem imaginavam que elas estavam ali, no meio daquela muvuca, mas era notório o quanto elas estavam felizes, dançando, curtindo e incrivelmente encantadas com o meu corpete de paetês todo sujo de sangue fake. Nunca vou esquecer aqueles olhinhos…

Há alguns anos atrás, quando ainda cantava na Solange, tô aberta!, fizemos um show na Polônia, um país extremamente machista e conservador, que com muitas dificuldades teve sua primeira parada gay no ano passado. Logo que chegamos à capital Varsóvia percebemos que era difícil estabelecer algum contato com as pessoas na rua, mesmo que por motivos simples como pedir alguma informação, por exemplo. Este seria o segundo show da nossa primeira turnê internacional, lembro-me perfeitamente que estávamos bem apreensivos! Mas foi na Polônia que fizemos um dos shows mais enlouquecidos das nossas vidas! Foi incrível, as pessoas dançavam e se entregavam como se fosse o último momento de suas vidas, rolou uma energia tão inexplicável que acabamos prolongando o show muito além do previsto sem nem percebermos…

Experiências como essas, me fazem pensar sobre como as reações das pessoas podem surpreender! Desde que saí do Brasil, tive a oportunidade de viajar meio mundo, e com isso aprendi muitas coisas, mas tenho observado especialmente que o respeito e disponibilidade de conhecer e experimentar o que lhe é “estranho”, muitas vezes vêm de lugares e pessoas quase invisíveis.

Perdoe-me se estou fugindo muito do contexto da pergunta, mas diante de situações como estas é tão cansativo ficar discorrendo sobre as críticas verborrágicas e as opiniões sintéticas do underground burguês brasileiro ou europeu (bocejos!)… Não tenho muita paciência pra essa galera que se acha “cult” porque vive com aquela cara de cu azedo, criticando a tudo e a todos. Ocupar a posição de quem julga é bem confortável, é fácil criticar alguém está se expondo, difícil é ir pra pista, dar a cara a tapa!

Mas falando especificamente dos shows, percebo que rola o mesmo que acontece comigo, é como se fosse o momento de ser quem você é de forma quadruplicada, exagerada mesmo. Fico cheio de energia ao ver as pessoas se jogando, se esfregando, ou simplesmente ali no cantinho, observando tudo o que está acontecendo. É uma verdade muito crua, exposta da melhor forma COM PRAZER, e quem não dá conta ou vai embora, ou fica de cara feia, fazendo a recalcada!

2- Dizer que faz um trabalho queer, no Brasil, é algo que parece “chique”. A palavra queer vem sendo usada, inclusive, para nomear festas caríssimas em algumas cidades. Você tem encontrado o mesmo em outros países? Já não está na hora de pensarmos em um pós-queer?

Em quase todos os países que visitei encontrei sim algumas “festas queers” que eram nitidamente bem diferentes das que eu costumo freqüentar, os espaços eram normativos, as pessoas eram normativas, mas acho tudo isso meio previsível porque além do capitalismo, existe o próprio fato da palavra queer possuir vários significados na língua inglesa. Então, não dá pra esperar que fosse haver uma exclusividade, né?

Além do mais, a teoria queer a surgiu e cresceu dentro de espaços acadêmicos, sendo na maioria das vezes discutida e apresentada somente entre pessoas que de alguma forma podem ter acesso a esses espaços, isso faz com que ela já seja elitizada, mesmo que involuntariamente!

Apesar de nunca ter sido ligado à academia, tive a sorte de circular num meio onde foi possível conhecer o assunto e conhecer a teoria queer foi muito importante na minha vida! Foi como descobrir um mundo novo, onde eu não precisava mais ter que ficar tentando ser isso ou aquilo, controlando meus trejeitos pra me sentir desejável ou até mesmo aceito; ela me apresentou a possibilidade de ser simplesmente o Paulo, com todas as complexidades, instabilidades e diferenças que me fazem ser quem sou!

Mês passado, participei de um evento com uma travesti no Rio de Janeiro, e no fim deste evento, ela me chamou no cantinho e perguntou: “o que é queer?”

Então, sabendo que assim como ela, MUITA gente nem sabe o que é queer, propor um “pós-queer”, me parece mais uma forma de continuar transitando por espaços elitizados! Mantendo o assunto entre pessoas que de uma maneira já estão dentro de um contexto ou grupo acadêmico e/ou político.

Acho necessário que o tema chegue a pessoas como essa travesti, porque sabemos que por milhões de motivos muito provavelmente ela não conseguirá chegar até o tema. Não por falta de capacidade, mas sim porque o sistema educacional e a sociedade não têm espaço e absolutamente não estão preparados pra lidar com identidades como a dela!!

PERGUNTAS LUIZ MOTT, ANTROPÓLOGO E DECANO DO MOVIMENTO HOMOSSEXUAL BRASILEIRO

1. Num país, como o Brasil, onde 90% dos homopraticantes são egodistônicos e ainda vivem no armário do medo e abjeção, essa proposta de afirmação de um estilo de performance queer radical e chocante não afastaria ainda mais os enrustidos de se assumir, alem de provocar a ira dos homófobos que acusam os LGBT de divulgarem estilos de vida perigosos, suicidas, autodestrutivos?

Acredito que colaborar para o aumento desta porcentagem de enrustidos não seria um caminho melhor. Quando você fala de medo, tenho a sensação de que está invertendo as coisas. Medo é uma palavra que combina muito mais com os homofóbicos, porque eles é que são os covardes nessa história!

Ninguém é obrigado a sacrificar a própria vida por conta da opinião ou julgamento alheio! Mas posso falar por mim, e comigo a discriminação acontecia em casa, na escola, na rua e não existia nenhum lugar onde eu estivesse imune ao preconceito. Sofri traumas e até violência física! As dificuldades estão presentes na vida de qualquer pessoa, mas sem lutas não existem mudanças! Já imaginou se as mulheres, os negros, os deficientes físicos e todas as “minorias” vivessem escondidos ou simplesmente fingissem ter características diferentes das que os tornam alvos de preconceito e discriminação? NADA teria acontecido! NADA teria mudado! Não tenho certeza se viverei para ver os resultados da minha luta, mas não tenho dúvidas de que definitivamente não nasci para aumentar a população de bixas no armário!

Não quero e não vou viver tentando me enquadrar nos padrões violentamente ditados por uma sociedade machista, fascista e cheia de falsos moralismos! Prefiro continuar com minha ”performance queer radical e chocante” do que fazer “arte” e/ou “política” para agradar aos fascistas, covardes e preconceituosos!

2. O Brasil é o campeão mundial de assassinato de gays e travestis: um homocídio a cada 36 horas, crimes praticados com requintes de crueldade, com muitas facadas, mutilações genitais. Performances queers com tanto sangue e violência no estilo sadomasô não estariam banalizando a crueldade dos crimes homofóbicos? Porque Belzebitchy fala de heterossexismo e não de homofobia?

Não há como afirmar com certeza o status do Brasil no ranking da homofobia. Poucas organizações no Brasil produzem dados sobre violência contra a população LGBTT, e as que o fazem, normalmente acessam dados por clipping e denúncias individuais. Se os institutos de pesquisa, como o IBGE e o DATASUS, incluíssem a opção de orientação sexual e identidade de gênero, poderíamos ter uma visão mais abrangente de como esse fenômeno se expressa e adotar políticas públicas mais específicas e eficazes para o enfrentamento da homofobia. A falta de dados e da declaração de motivo presumido “homofobia”nos BO’s e RO’s, são em si, homofobia patrocinada pelo Estado.

Segundo a ONG Justiça Global, em cerca de 80% das ocorrências de homicídios que envolvem LGBTT, a autoria permanece desconhecida, o que evidencia um descaso do poder público em investigar e responsabilizar aqueles que cometem estes crimes. Também sabemos que os casos de violência contra a população LGBTT estão subnotificados, devido à inexistência da produção de dados em escala nacional que permitam visualizar mais amplamente a situação de violência e as suas características principais.

(Mas) considero infeliz, equivocado e absurdo atribuirmos a banalização dos crimes homofóbicos a performances queers e mais ainda ao “estilo sadomasô”! A sociedade adora jogar a responsabilidade para minorias que já são marginalizadas. É por isso que instituições como a igreja, o sistema educacional brasileiro, a mídia, a maioria dos nossos políticos e mais uma série de outras fontes de discriminação, preconceito e manipulação continuam aí firmes, fortes e atuantes!

Falando especificamente do meu trabalho, uso a música para expressar minhas idéias, não para catequizar as pessoas. Consciente disso, reservo-me o direito de falar sobre o que quero, sobre o que acredito e julgo ser importante.

Não tenho a menor pretensão de agradar e muito menos mudar a opinião de quem quer que seja sobre mim ou sobre o que faço. Portanto, se o senhor realmente ouviu as minhas músicas e continua acreditando que não falo sobre homofobia, só posso defender o seu direito de manifestar isso. Até porque, em um país onde as atitudes e o visual do meu trabalho podem ser considerados como estimulantes para a ira de homofóbicos e o aumento de crimes motivados por homo/transfobia, ainda que eu subisse ao palco com a boca vendada e sem dizer palavra alguma, estaria sim falando sobre homofobia!

PERGUNTAS ADRIANA PRATES, SOCIÓLOGA E DJ

1 – a heteronormatividade já é bastante discutida, mas o que pensar sobre a “homonormatividade”?

Independente se “hetero” ou “homo”, a normatividade é sempre prejudicial e limitadora! Esperar que qualquer pessoa que não seja de uma identidade “hétero”, seja de uma identidade “homo”, me lembra a reprodução do binarismo “feminino” e “masculino”. Todos nós temos o direito de conduzir nossas vidas por caminhos com os quais nos identificamos, e, como tudo na vida, esses caminhos algumas vezes mudam. Que fique claro que não estou falando apenas de identidades e preferências sexuais. Estou também falando de disponibilidade para experimentar e/ou conviver, sem julgamento, com coisas e pessoas diferentes.

2 – o que o queer tem a ver com o gay?

Ao contrário de muitos, não acredito que o movimento queer tenha surgido com o intuito de destruir ou segregar o movimento gay, acho inclusive, muito mesquinho e imaturo cultivar esse tipo de pensamento. Antes de fazer qualquer diferença, é necessário que não esqueçamos o fato de que são minorias que precisam lutar cotidianamente para expressar e vivenciar suas sexualidades, suas afetividades e até mesmo suas próprias identidades!

A igreja, por exemplo, classifica como “abominável” qualquer comportamento ou relação que não sejam pudicos e heteronormativos. Honestamente, não me interessa saber o que a igreja julga ser ou não certo, mas não podemos negar que a opinião e a posição da mesma sobre qualquer assunto têm uma grande influência no governo e na vida e educação da maioria da população brasileira. Não adianta vir com esse papo de que o Brasil é um país laico, porque sabemos que na prática a história é bem diferente!

_____________
Contatos:
queerpaulo@googlemail.com
djadrianaprates@hotmail.com

3 comentários em “entrevista/PAULO BELZEBITCHY

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