P R A G A T E C N O

rede colaborativa em torno da cultura do dj e cibercultura, cultura livre

Sérgio Vidal, pesquisador do Giesp – UFBA

entrevista a socióloga e dj Adriana Prates (*)

Você além de DJ, pesquisa a cena de música eletrônica em Salvador. Atualmente na antropologia, um dos grandes dilemas é justamente o trabalho do antropólogo que pesquisa culturas às quais ele está fortemente vínculado. A antropóloga Beatriz Labate chega a propor a categoria antropólogo-ayahuasqueiro, quando discute o trabalho de campo de alguns autores que em suas etnografias ingeriam ayahuasca nos rituais que participavam. No seu caso, você pesquisa comportamento de uso de psicoativos, mas também outros elementos da Cultura Eletrônica como a música e os Djs. Como você lida com essa questão, e o que ela representa para você ?

Essa questão dá margem a muitas considerações… eu pessoalmente, acho que a proximidade traz mais vantagens do que desvantagens, embora também coloque desafios bem difíceis, tais como conseguir desnaturalizar o que é cotidiano para nós ou conseguir equilibrar a dimensão dos interesses pessoais e políticos no trabalho científico. Porque muitas vezes o que nós, cientistas sociais, dizemos, tem a chance de vir a se tornar parte do imaginário social. Isso torna muito forte a tentação da autoridade, quero dizer a tentação de impor um ponto de vista favorável às nossas crenças e desejos como se fosse uma verdade provada pela ciência.

Então acho que é importante ser honesto na escrita. Vários autores recomendam deixar claros os motivos que nos levaram a estudar um determinado tema e a relação que mantemos com o nosso objeto de pesquisa, pois só dizendo a nossa posição no campo conseguimos equilibrar mais ou menos o peso da subjetividade e conseguimos conter, em alguma medida, essa dimensão autoritária.

O trabalho no BaLanCe é das suas atividades mais recentes. Como você tem encarado esse novo desafio, e o que ele tem significado para o seu envolvimento com a Cena da Cultura Eletrônica?

Primeiramente, quero dizer que acho que o trabalho do Balance, embora seja bem específico, tem uma importância política que vai além da cena de música eletrônica. Mais do que ajudar, no contexto das festas de música eletrônica, pessoas que enfrentem dificuldades decorrentes do uso, o trabalho do Balance é, acima de tudo, educativo. E também provocativo, pois o simples fato do coletivo existir já sugere pautas como a discussão da cidadania do usuário, seu direito à informação, auxílio, etc.

Você usou a palavra desafio… acho que o Balance existir já é um desafio – afinal a cena da música eletrônica foi escolhida como bode expiatório nessa guerra contra as drogas e nós, em vez de nos encolhermos amedrontados, partimos para o enfrentamento. E não somente no nível do discurso, mas também num nível concreto: porque a existência do Balance é nada menos que a execução de uma proposta alternativa para lidar com a questão do uso de psicoativos. E é fundamental propor outras alternativas para lidar com a questão das drogas, afinal ela está em todo lugar, faz parte da história da humanidade, e a proibição não tem dado resultados…

Aliás, pensando bem: a proibição tem dado resultado, sim! Porque ingenuamente se costuma pensar que objetivo da proibição é erradicar o uso de drogas – mas a experiência mostra que tal não acontece, pelo contrário. Então se a proibição é notavelmente ineficaz em inibir o uso de drogas e suas consequências sociais, e mesmo assim não se procura pensar em outras alternativas para lidar com a questão, só é possível concluir que o objetivo da proibição é outro e que, neste sentido, ela deve estar dando ótimos resultados – mas não para a sociedade como um todo, e sim, com certeza, para determinados grupos – vez que colabora para aumentar a concentração de poder e reafirmar valores que beneficiam certos setores da sociedade.

Você é uma das poucas Djs mulheres de Salvador, mas é muito bem estabelecida na cena e tem 10 anos de um trabalho sólido. Como você acha que está atualmente a questão da inserção das mulheres nessa profissão e quais dicas você daria para outras mulheres que quisessem ser Dj´s?

Graças a “Jack”, ao menos na cena da música eletrônica underground, creio que quem abraça a profissão de Dj não conhece problemas em relação ao gênero ou mesmo em relação à orientação sexual. Não sei se você sabe, mas a música eletrônica, como a conhecemos hoje, começou a tomar forma nos guetos multirraciais e multissexuais de Chicago e N. York, e, felizmente, muito da atitude inicial de convivência pacífica entre pessoas com diferentes etnias e preferência sexuais ainda prevalece. O respeito às diferenças faz parte da nossa tradição!

Assim, a dica é uma só e serve para qualquer pessoa: ouçam muito som, pesquisem bastante, conheçam a história dessa música e se joguem!

*O texto foi originalmente disponibilizado no blog http://noticiascanabicas.blogspot.com
Contato: sergiociso@yahoo.com.br

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