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HOMOSSEXUALIDADE, “MODERNIDADE”, CONSUMO E HIERARQUIA: UM ESTUDO SOBRE A IDENTIDADE NA CONTEMPORANEIDADE

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO DEFENDIDA EM 16 DE AGOSTO DE 2005, NO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS DA UFBA POR ADRIANA PRATES, SOB ORIENTAÇÃO DO PROFESSOR DOUTOR EDSON FARIAS

APRESENTAÇÃO

Este livro é fruto de pesquisa sociológica e traz uma análise do papel do consumo na sociedade contemporânea, procurando mostrar sua importância na configuração da identidade de indivíduos e grupos, assim como seu potencial categorizador e hierarquizador. Para exemplificar a relevância que o consumo adquiriu, em nível geral, na contemporaneidade, aborda a desconstrução do estigma que historicamente acompanha a homossexualidade, através da imposição, via mídia, de um ponto de vista que exalta o bom gosto, a capacidade e a disposição excepcional para o consumo da categoria. Ou seja, em contraponto à consideração negativa da homossexualidade, que foi hegemônica durante décadas, constrói-se atualmente um discurso que associa os homossexuais a elementos valorizados pela sociedade ocidental, fazendo com que a cultura homossexual venha angariando, pode-se dizer, algum prestígio.

Se os homossexuais possuem bom gosto ou realmente são consumidores excepcionais, como ultimamente tem sido afirmado e reafirmado, é o tipo de questão que não fez parte das preocupações que nortearam o desenvolvimento da pesquisa, empenhada antes em desvelar o processo de construção de uma lógica social que vêm se impondo gradativamente e na qual argumentos recorrentes ao consumo se apóiam, assim como evidenciar o papel que o consumo adquiriu na coordenação das relações sociais e na configuração da identidade de indivíduos e grupos. Com isso, espera-se destacar a importância que adquiriu o estilo de vida no âmbito de uma sociedade complexa, múltipla e anônima, como é o caso da sociedade ocidental contemporânea, trazendo à tona a dimensão política do consumo.

Tomando parte do universo homossexual soteropolitano como campo, a pesquisa evidenciou a negociação cotidiana para estabelecer o sentido da identidade, vez que este equaciona as vantagens e desvantagens que todo posicionamento traz.

Tratar de identidade sob tal perspectiva significa atentar para o desenrolar de determinados processos sociais e para os embates travados pelos diferentes grupos que compõem a sociedade, portadores de diferentes interesses, vez que, embora não derive de nenhuma essência, tendo antes o caráter de construção cultural, a identidade marca a posição dos sujeitos e os auxilia a conquistar, manter e expressar o lugar que ocupam no mundo.

INTRODUÇÃO

O termo homossexual procura nomear um segmento que é concebido, pelo senso comum, como homogêneo, sendo utilizado cotidianamente para classificar indivíduos que apresentam atração erótico-afetiva por pessoas do mesmo sexo. No entanto, uma observação mais aproximada possibilita visualizar inúmeras diferenças no interior de um grupo que comporta, na verdade, imensa variação no que diz respeito à faixa etária, situação econômica e nível educacional, por exemplo. Com base nesta constatação, o projeto que deu origem a este trabalho, encaminhado à seleção do Mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, encerrava o interesse de perceber especificidades e analisar as relações entre os subgrupos que compõem este universo, a partir da constatação de que algumas diferenças internas delimitam fronteiras nítidas e por vezes extremamente rígidas.

A idéia de realizar uma pesquisa sobre o assunto surgiu a partir de uma situação observada durante o carnaval, no bairro da Barra, em frente à agência da Caixa Econômica Federal e na esquina da mesma, ponto de encontro de homossexuais, ao qual as pessoas se referiam como “a Caixa”: “o trio parou em frente à Caixa”, “fulano tava na Caixa ontem”. No início, “a Caixa” era um lugar frequentado por pessoas ditas “modernas”, homossexuais com um perfil, se poderia dizer, mais elitizado. Porém, com o passar dos anos o público freqüentador da “Caixa” foi se modificando e o local acabou adquirindo uma frequência mais popular. Neste pequeno trecho de rua era possível observar uma forma peculiar de subdivisão da massa homossexual que ali se concentrava, formando três zonas distintas. Uma parte dos indivíduos ficava no asfalto, bem em frente à agência bancária, outros ficavam na balaustrada em frente, no passeio do lado da orla e outros ainda na rua lateral. De acordo com a característica das pessoas que se concentravam em cada um dos trechos, esses eram batizados com nomes das boates/danceterias de frequência homossexual com os quais a cidade contava, na época. No carnaval de 1998, por exemplo, a parte em frente à “Caixa” era denominada Holmes, o lado da orla era chamado de Mix, e o beco ao lado da agência bancária era o Alambique. Traduzindo: na época a Holmes tinha frequência bem popular, a Mix era uma boate “bem frequentada” e o Alambique era o bar/dancing que estava na moda. Ou seja, cada trecho em torno da “Caixa” foi nomeado com a intenção de definir o perfil daqueles que estavam presentes ali, através da alusão ao estilo dos freqüentadores das casas de entretenimento citadas. No carnaval do ano de 2000, a boate com clientela mais elitizada se chamava Off Club. Assim, foi possível ouvir pessoas falando que no beco do lado da “Caixa” ficava “a galera mais Off”. Algumas pessoas lembravam, em tom de lamento, do tempo em que a “Caixa” era o ponto de encontro dos “modernos”, durante o carnaval.

Por esta época, talvez antes, observando e conversando informalmente, ainda sem saber muito bem porquê ou para quê, era notável, em alguns grupos, a recorrência do uso do termo “moderno”, utilizado para adjetivar festas, pessoas, locais, etc. O consumo era outro elemento constantemente evocado, especialmente aquele de caráter cultural. A fruição de itens como viagens, cinema, teatro, música, fotografia, arte e gastronomia, por exemplo, eram absolutamente valorizados, e parecia existir uma compreensão de que o interesse por tópicos como esses sinalizava a posse de determinadas qualidades pessoais.

Em muitas outras oportunidades foi possível observar a procura pela diferenciação hierárquica dentro do universo homossexual. Em uma delas, por exemplo, uma lésbica fez o seguinte comentário, em referência aos homossexuais que estavam nas proximidades da “Caixa”: “eu sou mais do que isso. Meus amigos são mais do que isso”. Outra vez, tempos depois, em um bar da moda que começava a tornar-se popular, outra lésbica comentava: “a gente não pode descobrir um lugar que logo ‘eles’ tomam conta”. Uma terceira situação ocorreu dentro de um ônibus, a caminho de uma festa, onde estavam duas turmas de homossexuais. Por conta de um pequeno e discreto mal entendido com o cobrador, um dos rapazes, ao descer, referia-se ao outro grupo como “bichas feias, pobres e suburbanas”, acrescentando ainda que dava vontade de “ressuscitar Hitler” em momentos como aquele.

Observações como essas, realizadas em locais de frequência homossexual na cidade de Salvador – Bahia, tornaram possível afirmar que alguns elementos atuantes na configuração de subgrupos homossexuais e no estabelecimento de fronteiras entre esses, como, por exemplo, aquele representado por um certo sentido de “moderno” , estão estreitamente relacionados ao consumo. Indivíduos e subgrupos pertencentes ao universo homossexual vêm sendo classificados de acordo com a relação que mantém com os tópicos citados.

No âmbito mais geral, minorias como os homossexuais vêm, atualmente, cada vez mais sendo concebidas como nichos de mercado e no desenrolar deste processo o consumo acaba se tornando tanto um elemento constitutor de grupos quanto um argumento no sentido de reverter estereótipos negativos, revelando-se, desta forma, um elemento extremamente significativo no âmbito da constituição da identidade dos indivíduos situados na sociedade contemporânea.

Com base nessas constatações, o objeto da pesquisa se definiu: desvendar a relação das práticas de consumo com a configuração da identidade na contemporaneidade, se detendo mais especificamente na identidade homossexual, visto que a observação empírica desde o início indicava, fortemente, que tais práticas adquiriram extrema relevância neste meio, que se revelava, desta forma, bastante frutífero para pensar a questão.

Aprofundando as investigações, tornou-se possível afirmar a existência de um interesse de uma parte da comunidade homossexual urbana, tomando como referência observações efetuadas nas cidades de Salvador e, eventualmente, São Paulo, em assumir um comportamento remetido aos tópicos mencionados anteriormente. Inicialmente, se poderia pensar que a finalidade de referenciar o comportamento nos elementos que compõem o conceito de “moderno” e procurar a associação com o consumo diferenciado seria o encobrimento da homossexualidade. Porém, a questão não parecia ter a ver com a negação da identificação como homossexual – visto que as situações observadas aconteceram todas em contextos de interação homossexual – mas com o afastamento da imagem tradicional e corriqueiramente associada aos homossexuais: a do rapaz efeminado e da lésbica masculinizada: a “bichinha quá quá” e o “sapatão”.

O que a situação observada sinalizava é que elementos relacionados ao consumo e que vêm atuando no âmbito da construção da identidade do homossexual de camada média urbana estão sendo acionados no sentido de afastar desses indivíduos (sem, contudo, negar sua orientação sexual) estereótipos como os do homossexual afetado, da lésbica masculinizada ou do (a) marginal que leva uma vida sórdida no submundo. Por outro lado, a associação com esse tipo de elemento tem promovido não apenas a afirmação de uma identidade mais positiva dos homossexuais perante a sociedade em geral, mas também uma procura pela diferenciação entre os subgrupos homossexuais e uma hierarquização dos mesmos. Pelo que pôde ser observado, por vezes parece existir a consideração de que há homossexuais “melhores” do que outros, de acordo com o grau de identificação e adequação desses indivíduos aos elementos valorizados – e que são valorizados não somente no âmbito específico do grupo em questão, mas pela sociedade em geral.

Não se quer dizer com isso que a utilização de estratégias de distinção seja uma exclusividade do universo homossexual, visto perpassar as relações sociais em geral. Porém, a análise de tal mecanismo em um segmento estigmatizado, mas cujos membros vêm sendo qualificado como bons “consumidores”, permite perceber o uso da lógica da distinção no sentido de desconstruir um estigma. Tal situação está de acordo com algumas considerações de Pierre Bourdieu, para quem a identidade social é uma aposta na luta que todo sujeito, objeto potencial de categorização, enfrenta. No livro “La Distincion”, ao discorrer sobre a lógica do estigma, o autor utiliza o exemplo daqueles que são encerrados em uma de suas propriedades, e que tentam impor, para serem definidos socialmente, a sua melhor propriedade, ou então o sistema mais favorável às propriedades que possui, ou ainda para dar ao sistema de classificação um conteúdo mais adequado para a valorização da propriedade que possuem. Ou seja, lutam para impor sua melhor propriedade, apóiam valores que reforcem as propriedades que possuem ou para derrubar valores desfavoráveis às propriedades que possuem e que sejam avaliadas negativamente, o que torna evidente o caráter político que está em questão.

A propalada disposição para o consumo, no geral, parece provocar, é inegável, a visibilização e certa positivação da figura do homossexual, o que beneficia ao menos aqueles que têm condição de evocar os elementos que caracterizam esta imagem difundida via mídia. Por outro lado, o prestígio assim adquirido parece provocar uma depreciação, no âmbito intragrupal, daqueles que não têm condições de portar os atributos que promovem a valorização do segmento como um todo, tornando possível supor que, no âmbito intragrupal, elementos relacionados ao consumo vêm atuando no estabelecimento de fronteiras e na promoção de hierarquia.

Conforme situações relatadas, foi possível perceber que alguns indivíduos procuravam, no meio homossexual, construir e consagrar um modelo de orientação de conduta baseado em itens como o citado “moderno”, procurando evidenciar nem tanto a capacidade mas, principalmente, a qualidade do seu consumo. Como não seria possível contemplar todas as facetas do universo homossexual, a investigação da economia de prestígio neste meio foi restringida ao subgrupo cujos valores e comportamentos pareceram mais adequados à investigação do problema posto. Neste sentido, são aqueles que se referenciam em elementos relativos à esfera do consumo que se constituem no principal foco de interesse do trabalho desenvolvido, por serem portadores dos atributos que vêm se impondo, atualmente, no âmbito da sociedade em geral, como característico dos homossexuais, por um lado, e também porque, por outro lado, reforçam e reproduzem tal modelo, em sua vida cotidiana. O interesse recaiu sobre aqueles que estão, ou pelo menos procuram estar, adequados a uma visão da homossexualidade que vêm se difundindo na sociedade brasileira, especialmente através do tratamento que o tema vêm recebendo na mídia. Considerou-se também essencial a análise dos significados atribuídos ao termo “moderno”, visto que o mesmo, como será demonstrado mais à frente, possui qualidades de categorizador e hierarquizador, estando também estreitamente relacionado ao consumo, elemento de primordial interesse.

De modo geral, esta situação particular, vivenciada pelo contingente homossexual, parece sinalizar a emergência de critérios ainda pouco estudados pelas Ciências Sociais, para o estabelecimento da legitimação social de determinados segmentos. Além disso, evidencia que os indivíduos estão diante da presença, ou exacerbação, de novos fatores na mediação das relações sociais.

ALGUNS SINAIS DA MUDANÇA

A mídia tem, nos últimos tempos, explorado, cada vez mais, assuntos relacionados à homossexualidade, focalizando o personagem homossexual, sua realidade, estilo de vida, etc. E de uma forma que pode ser considerada positiva. Este aspecto pode ser compreendido como um indicador do prestígio ganho pelo que pode ser chamado de cultura homossexual ou gay, entendendo o termo como o conjunto de hábitos, costumes e soluções engendrado por tais indivíduos em sua vivência cotidiana, e também compreendidos como característico deste grupo pela formação social mais ampla.

Na sociedade contemporânea, os conteúdos midiáticos atuam, de forma generalizada, como mediadores e disseminadores de significados e, por este motivo, a mídia adquire um importante papel na configuração do imaginário social. Observando as crescentes abordagens de temas relacionados à homossexualidade (e o teor dessas) por parte das revistas semanais, por exemplo, ou em jornais como Folha de São Paulo e A Tarde, dirigidos à população em geral, é possível constatar a visibilização e o interesse crescente por um personagem relegado anteriormente à sombra, posição mais adequada à consideração negativa da sua existência. Alguns desses veículos incluem até mesmo colunas específicas, fixas, direcionadas ao público homossexual, como, por exemplo, a coluna GLS, publicada no suplemento de domingo da “Folha de São Paulo” e a “Coluna do Meio”, de autoria da jornalista Milly Lacombe, assumidamente lésbica, publicada na Revista TPM, direcionada ao público feminino, de modo geral.

Esses fatores indicam não somente que existe um interesse geral em conhecer melhor este personagem mas, também, que o segmento homossexual dos leitores passou a ser levado em conta, uma vez que o serviço de informação oferecido por essas publicações se estende explicitamente, desta forma, à esta parcela específica do seu público leitor. A frequência cada vez maior da presença do assunto em publicações como essas está sendo tomada, aqui, como um indicativo de mudança social, visto que esta situação não era comum há quinze anos atrás, por exemplo.

Constatando as mudanças ocorridas, através de um acompanhamento, ainda que informal, deste movimento, na mídia, em geral, e no âmbito jornalístico-editorial, em particular, é possível considerar o meado da década de 90 do século passado (Nunan, 2003) como o momento em que não somente tal personagem adquiriu maior visibilidade como também aconteceram mudanças na forma como este passou a ser retratado. Grosso modo, pode-se dizer que uma imagem diferente do homossexual começa a emergir, ao menos na mídia, a partir do período citado.

Algumas pistas permitem supor que um dos motivos para a ocorrência dessas mudanças pode ser a constatação de que “dinheiro não tem sexo”, frase que por sinal encabeça uma das citadas reportagens d’A Tarde. Na edição de 12 de dezembro de 2003 do jornal Correio da Bahia, uma chamada na capa anunciava a reportagem onde se podia ler o seguinte parágrafo: “diz a lenda que no fim do arco-íris há um pote cheio de ouro. Não é por acaso que o arco-íris, símbolo do movimento gay, está cada vez mais presente no pensamento de empresários baianos.” Afirmações como essas podem ser consideradas como uma evidência da ascensão de uma lógica na coordenação das relações sociais onde o consumo assume uma posição chave, se tornando até mesmo um instrumento de legitimação de identidades anteriormente marginalizadas.

Assim, foram se tornando cada vez mais comuns as menções a respeito do potencial de consumo do segmento homossexual, justificado geralmente pelo fato de não terem filhos e nem as consequentes despesas que esses trazem. Não é preciso pensar muito para perceber que este é um dado que sempre existiu mas que nem de longe era celebrado como vem sendo atualmente. E muito menos se constituía em argumento válido para pleitear aceitação para o segmento em questão. O acionamento de argumentos como este, algo atualmente muito comum, serve certamente como indicativo da emergência de novos critérios para o estabelecimento da legitimação social de determinados segmentos e da presença, ou exacerbação, de novos fatores atuando na dinâmica das relações sociais.

Não somente esta visibilidade na mídia, mas vários pontos podem ilustrar a mudança da perspectiva social em relação aos homossexuais. Um deles é o aparecimento (ou popularização / consagração) do “metrossexual”. O termo criado pelo escritor Mark Simpson funde as palavras “heterossexual” e “metropolitano” e é usado para definir homens residentes no meio urbano e exclusivamente heterossexuais mas que gostam – e sabem – de se vestir “bem”, usar bons perfumes, cuidar adequadamente da pele, do corpo e do cabelo, etc. O metrossexual, apesar de definir estritamente a condição do homem heterossexual, se espelha declaradamente em um padrão considerado como típico do estilo de vida homossexual. Segundo Sérgio D’ávila, em reportagem no jornal Folha de S.Paulo, o termo metrossexual vem sendo usado para definir um consumidor específico: homens de 25 a 45 anos, com hábitos de consumo que incluem roupas de grife, perfumes caros, cremes anti-rugas e tratamentos de beleza, ou seja, que “se preocupa com seu aspecto visual, se dedica a essa preocupação e gasta com ela, como fazem seus colegas gays do mesmo estrato social” (www.folha.uol.com.br. O grifo não existe no texto original). Interessante que o repórter astutamente evoca uma afinidade que ocorre entre indivíduos com diferentes comportamentos sexuais, porém possuidores de situação econômica similar, deixando sinalizado que atualmente há possibilidade da condição socioeconômica e do estilo de vida predominarem sobre a questão da homossexualidade – apesar do peso da consideração negativa que historicamente pesou, e ainda pesa, sobre esta.

Neste mesmo sentido, outro exemplo interessante é o reality show exibido pelo canal Sony de TV por assinatura, chamado “Queer eye for the straight guy”, expressão que pode ser traduzida como “Olhar gay para um cara hetero”. O programa seleciona heterossexuais desajeitados para serem instruídos por cinco homossexuais especializados nas áreas de moda, gastronomia, arte, decoração e aparência. A GNT também tem um programa nos mesmos moldes cujo título em português é “Lente Indiscreta: as fadas-madrinhas”.

Tanto o fenômeno do metrossexual quanto o mote do programa do canal Sony apóiam-se na premissa de um suposto “bom gosto” característico dos homossexuais. Com base em tal pressuposto, propõe-se até mesmo uma relativização da tradicional concepção de masculinidade, um afrouxamento das balizas que norteiam a conduta masculina tradicional. O homossexual, portanto, serve agora até mesmo como referência para orientar o comportamento masculino, algo impensável há até bem pouco tempo.

Outro episódio bastante significativo da mudança postulada ocorreu em Salvador no dia 13 de setembro de 2003, no Bar Quixabeira, muito frequentado por homossexuais, onde um casal de lésbicas foi reprimido por ter trocado um beijo. Ao ouvir do representante da direção que aquele não era um “bar gay”, suspenderam os pedidos que haviam feito e saíram, na companhia dos vários amigos que as acompanhavam. Incentivadas por uma amiga, armaram na semana seguinte um “beijaço”, tipo de manifestação que consiste em organizar casais do mesmo sexo para beijarem-se na boca, todos no mesmo momento, em uma hora previamente combinada. No dia mencionado, após o momento do beijo, uma das garotas explicou aos presentes o que tinha acontecido anteriormente e disse que estava defendendo o “direito ao beijo”, fosse de homem com homem, mulher com mulher ou “até mesmo de homem com mulher”. Pouco tempo depois, o bar fechou.

Esse tipo de retaliação não foi algo isolado. No segundo semestre de 2003, por exemplo, houve um grande beijaço no Shopping Frei Caneca, situado na região dos Jardins, em São Paulo, por conta da expulsão de um casal de rapazes. Isso acontece principalmente se o local onde se passou o episódio de discriminação for sustentado por uma clientela homossexual, como no caso do Quixabeira. Em seguida ao protesto, a comunidade homossexual é instada a não mais gastar seu dinheiro no local. Ou seja, os próprios homossexuais sentem-se no direito de reivindicar, mesmo em prosaicos momentos cotidianos, legitimidade para manifestar publicamente sua afetividade, o que, é certo, nunca foi uma atitude comum. Fatos como os expostos foram tomados como indicadores do deslocamento sofrido pela concepção tradicional da figura do homossexual, tanto no âmbito da sociedade em geral quanto no meio específico. Com base nessas constatações, perceber e analisar as significações que alguns homossexuais de camada média urbana estão pondo em prática para a construção da sua identidade foi um dos objetivos guiou a pesquisa que originou este livro. Mais especificamente, se procurou analisar a articulação de alguns elementos de diferenciação e identificação que atuam no âmbito da construção da identidade homossexual com o estabelecimento de fronteiras entre os subgrupos e a hierarquização desses; investigar o sentido que o termo “moderno” assume no discurso cotidiano dos homossexuais, a quais elementos o termo vem sendo associado e que papel este assume na configuração da identidade homossexual e verificar a relação de algumas práticas de consumo, compreendido de uma forma ampla, com a configuração da identidade homossexual.

Em relação à questão da constituição da identidade homossexual, priorizou-se a significação que assume o consumo neste processo, argumento que será desenvolvido ao longo do texto, tomando como exemplo, conforme afirmação feita anteriormente, uma determinada forma / expressão de identidade simbolizada pelo conceito de “moderno”, verificando, através desta problemática, a adesão dos indivíduos a práticas cujos significados podem trazer distinção. A intenção é refletir sobre a relação entre identidade e consumo, na contemporaneidade, a partir da constatação de que o estereótipo negativo que historicamente acompanha os homossexuais vem se atenuando no instante em que passa a ser levada em consideração a qualidade, atribuída a essa categoria, de bons consumidores. Toma-se esta situação como indicativo da ascensão de uma lógica, na coordenação das relações sociais, na qual o consumo assume uma posição chave e acaba até mesmo por promover a legitimação social de minorias desprestigiadas, ao transformá-las em nichos de mercado. Na era contemporânea, em que pilares tradicionais da identidade estão enfraquecidos, procura-se também explorar a relação entre estilo de vida, identidade e consumo, destacando a qualidade deste de produzir e comunicar o lugar social dos grupos e dos indivíduos que os compõem.

Deste modo, procurou-se acompanhar dois movimentos: a ascensão da identidade homossexual no panorama da sociedade mais ampla, a partir da sua associação com o consumo – compreendido não somente na sua dimensão econômica mas também cultural – assim como o estabelecimento de fronteiras intragrupais, a partir deste critério, através da investigação na dimensão cotidiana da existência dos individuos.

COMO FOI FEITA A PESQUISA

Para responder às questões lançadas, considerou-se essencial a compreensão do contexto sócio-cultural em que está inserida a categoria que é objeto da pesquisa, apreender os códigos da comunidade a ser estudada para favorecer a percepção da realidade da forma como esta se apresenta para quem a vivencia. Nesta perspectiva, a observação participante foi o meio que se revelou mais adequado para aproximar-se do universo cultural dos sujeitos da pesquisa: as roupas, a música tocada nos lugares, a forma de dançar, a paquera, o vocabulário utilizado, a disposição das pessoas no espaço, o tom das interações, etc. O trabalho de campo envolveu levantamento (e visita, sempre que possível) de pontos de concentração homossexual em Salvador : bares, restaurantes, boates, barracas de praia, festas itinerantes, além de eventos e locais diversos aos quais este público costuma comparecer, na cidade mencionada.

O circuito homossexual soteropolitano não se configura em torno de uma limitação geográfica formal. Entretanto, embora não exista uma zona propriamente delimitada, é notável a preferência dos empreendedores que direcionam seus negócios ao público homossexual pelo centro da cidade e pelo bairro da Barra, sendo que este último é até mesmo considerado por alguns informantes como o “bairro mais gay da cidade”. Os locais de freqüência homossexual, dentre os que foram possíveis de mapear, se distribuem principalmente entre Centro, Barra e Rio Vermelho – esses dois últimos se localizam na orla, porém mais perto do centro. Também nos bairros da Boca do Rio e Patamares, situados na orla que se estende na direção do Aeroporto, é possível encontrar estabelecimentos direcionados aos homossexuais. Esses últimos, onde a atração é sempre a música ao vivo, possuem a peculiaridade de, embora contando com razoável presença de homossexuais do sexo masculino, serem, de forma mais especial, direcionados ao público feminino.

A definição do circuito de locais de frequência homossexual como campo procurou driblar a dificuldade de acesso às pessoas do meio em questão, dado que muitos desses indivíduos, a despeito dos avanços sociais, ainda não se sentem seguros e / ou à vontade para revelar sua orientação sexual em qualquer local. Partiu-se também do pressuposto de que o homossexual que frequenta locais específicos revela, ao menos, alguma disposição em se inserir no circuito homossexual. E uma vez que a intenção é testemunhar a atualização dos valores mais cotidianos do grupo, deve-se levar em conta o fato de que, nesses locais é possível às pessoas exercerem mais livremente uma “sociabilidade homossexual”, bem como essa determinada faceta de sua identidade. Ou seja, é o local onde a maioria desses indivíduos comparece, antes que por qualquer outro motivo, devido à sua homossexualidade e para estar entre outros homossexuais.

Outro ponto que atesta a importância desses locais específicos reside na relação entre espaço e identidade, que é extremamente preponderante na vivência de grupos urbanos, especialmente aqueles cuja conduta é alternativa ao modelo hegemônico e que por isso são estigmatizados. No caso específico dos homossexuais, existe a consideração de que nos espaços em questão os indivíduos podem viver mais plenamente essa faceta da sua identidade. Por outro lado, é possível observar que a importância deste fato está além da proteção que o gueto representa, uma vez que a frequência a determinados lugares, assim como também a forma como se frequenta determinados lugares, ajuda na definição de que tipo de homossexual cada indivíduo é, ou seja, o lugar que se frequenta é um dos elementos presente na categorização e hierarquização dos indivíduos e subgrupos homossexuais. Conforme apontam as observações, trata-se aqui, como escreveu Bourdieu, não apenas de diferenciar-se, mas de diferenciar-se diferentemente.

Certamente seria possível encontrar homossexuais de outra forma, como por exemplo, através de organizações como o Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS (GAPA) ou o Grupo Gay da Bahia (GGB). Porém, é no tipo de espaço selecionado que se configura um campo mais interessante para a investigação dos significados vigentes na comunidade, da forma que é interessante para avaliar as questões da pesquisa, visto que em tais locais não há uma orientação explícita para nortear o comportamento e o comparecimento das pessoas, como seria o caso de uma agência de promoção da saúde ou de militância como as citadas. Outra possibilidade seria investigar as salas específicas de bate papo na internet. Entretanto, uma investigação dos encontros “on line” seria certamente uma demanda orientada por outros objetivos.

Dito isso em defesa da escolha do campo, é necessário ressalvar, entretanto, que não se pretende, e é certo que não seria possível, esgotar todas as nuances deste universo a partir do acesso aos locais de sociabilidade homossexual. É bastante provável que uma significativa quantidade de praticantes do homoerotismo não tenha o hábito de frequentar bares e boates específicos, mas, por outro lado, certamente a maior parte dos frequentadores desses lugares é homossexual e se identifica ou pelo menos tem afinidade com seus pares, ou não seria freqüentador do tipo de ambiente em questão.

Durante as visitas ao campo, procurou-se apreender a concepção “nativa” dos tipos homossexuais existentes, através de observação e de conversas informais, captando subsídios para o delineamento de algumas categorias, em lugar de fazer isso aprioristicamente. Com base nas informações coletadas, algumas tipificações foram ganhando contorno e, ao se definirem, auxiliaram na seleção do lócus principal da pesquisa, dos principais informantes e na construção do roteiro para as entrevistas que foram realizadas em fase posterior, com a finalidade de investigar as questões da pesquisa de forma mais aprofundada, através das falas dos indivíduos que compõem um dos subgrupos identificados, aquele composto por homossexuais provenientes das camadas médias, residentes no meio urbano, identificados com a sua orientação sexual e sintonizados com o estabelecimento da identidade homossexual em torno da capacidade e, principalmente, qualidade de consumo. Com base nas observações efetuadas, não surgiu a necessidade de separar o contingente masculino do feminino, uma vez que o sexo biológico dos indivíduos não se mostrou um critério relevante para o tipo de segmentação e hierarquização observado. A promoção de diferenciação, identificação e hierarquia, na perspectiva do trabalho empreendido, vincula-se a outros fatores.

Embora tenha sido considerado relevante estar em contato com as variadas dimensões do circuito homossexual de Salvador, conforme explicitado, alguns locais se mostraram mais interessantes para perceber elementos considerados significativos para elucidar as questões postas. Foi o caso de uma festa itinerante denominada “Bonequinha de Luxo”, que se revelou interessante para os objetivos da pesquisa porque seus organizadores, assim como seus freqüentadores, parecem afinados com um estilo de vida homossexual dentro um padrão cuja emergência é possível de ser constatada desde meados dos anos 90, no Brasil.

O Bonequinha de Luxo, como será visto mais adiante, reúne homossexuais que portam sinais que permitem reconhecer a sintonia com um padrão de consumo diferenciado – elemento que parece estar relacionado com a imposição de uma identidade homossexual positiva – possível de ser verificado através das roupas que os frequentadores usam, do modo de falar, das formas de interação, dos perfumes que usam, etc. O próprio fato de organizar e prestigiar um evento deste tipo, com pessoas selecionadas para compor um universo com um determinado tom, parece bastante significativo para os objetivos da pesquisa.

Foi também necessário levar em conta o contexto mais amplo onde esses indivíduos estão inseridos. Ressaltar que, neste sentido, Salvador, embora seja uma cidade razoavelmente grande, não conta com um circuito homossexual tão amplo quanto São Paulo, não existindo, praticamente, locais homossexuais de perfil, pode-se dizer, mais alternativo. Para alguns segmentos, como o que está sendo considerado neste trabalho, esta é uma deficiência que a cidade apresenta e, neste sentido, o “Bonequinha de Luxo” constitui um exemplo da tentativa de reproduzir, em Salvador, um contexto mais cosmopolita, de recriar um ambiente com as características de um lugar mais “moderno”, referenciado em determinados clubes e festas do sul do País.

No entanto, apesar da seleção do Bonequinha de Luxo como lócus principal de investigação, as visitas a outros eventos e ambientes continuaram, visto que permitiam o vislumbre de outros grupos, pessoas com outros modos de ser e de vivenciar a homossexualidade. Observar os contrastes e identificações entre os diversos grupos foram interessantes para compreender ao que relaciona-se a atribuição de valores que promovem hierarquização.

A pergunta que perpassou toda a pesquisa foi a seguinte: saber se há algo que unifica essas pessoas, homossexuais, e também o que as separa em subgrupos, atentando mais especificamente para clivagens estabelecidas a partir da dimensão do consumo. Critérios geracionais, de gênero ou de renda permitiriam que uma subdivisão fosse efetuada, porém, a partir de um olhar exterior, quando o que interessava a investigar eram os critérios de subdivisão adotados ou reforçados pelos indivíduos em sua vivência cotidiana.

OS ENTREVISTADOS

Após circular amplamente no circuito homossexual e conversar informalmente com dezenas de pessoas, foram selecionados oito indivíduos para a realização de entrevistas formais, que foram gravadas e transcritas. Dentre esses, quatro são organizadores do Bonequinha de Luxo, e os demais são freqüentadores habituais, com exceção de um, por conta de ter se inserido no meio homossexual após um período em que não mais ocorreu nenhuma edição da festa. Porém, a sua fala é interessante por trazer o relato das modificações dos seus hábitos e das estratégias para inserção neste círculo específico, especialmente através da apropriação de determinados produtos e sentidos para compor sua imagem pessoal. A seleção dos outros entrevistados obedeceu ao critério da facilidade de acesso e também ao fato de terem estado presentes na maioria das edições da festa, assim como em contextos similares/afins do circuito homossexual de Salvador, como as noites de House Music promovidas semanalmente em um nightclub localizado no Rio Vermelho e um projeto patrocinado por uma loja situada na Ladeira da Barra, por exemplo.

Os rapazes que organizam o Bonequinha de Luxo possuem idade média de 35 anos e são profissionais das seguintes áreas: psicólogo (1), arquiteto (1), designer gráfico (2) jornalista/ator (1). Ou seja, são todos possuidores de nível superior de escolaridade. A renda média dos que foram entrevistados ultrapassa os R$ 2.000,00 (valores de meados de 2004) e residem nos seguintes bairros de Salvador: Barra, Av. Centenário e Gamboa de Cima. Dois residem em imóvel próprio e dois – que compõem, na verdade, um casal de namorados – dividem o aluguel de um amplo apartamento. Em relação à origem, um dos rapazes é do estado Amazonas e uma das moças é paulista. Dois são do interior da Bahia. Dentre os frequentadores entrevistados, a faixa etária cai um pouco: na época da entrevista um dos entrevistados possuía 24 e outra, 26 anos. Duas das entrevistadas são mulheres, sendo que uma delas enquadra-se na categoria de “simpatizante”. Um dos rapazes é DJ e professor de academia (24 anos) e o outro farmacêutico (31), dentre as mulheres, uma é promoter (37) e a outra trabalha com representação (26). Dois são estudantes de Educação Física e um é formado em Farmácia. Essas pessoas são residentes em imóveis alugados nos bairros do Canela, Barra e Rio Vermelho. Uma das moças reside com a família, em Brotas. Todos possuem nível superior, sendo que duas pessoas ainda estão cursando Faculdade. Todos os entrevistados se reconhecem como homossexuais, exceto uma das mulheres, que, embora se defina como heterossexual, possui muitos amigos homossexuais e leva um estilo de vida relacionado. Em relação à família, somente dois dos entrevistados não deram conhecimento da sua homossexualidade aos pais, irmãos, etc. Um deles, por morar fora do estado de origem e distante da família, acha desnecessário correr o risco de enfrentar conflitos e, por esse motivo, preferiu omitir até hoje sua homossexualidade. O outro rapaz se reconheceu como homossexual há pouco tempo e ainda está avaliando essa possibilidade. Os demais são, pode-se dizer, assumidos, sem relato de maiores problemas no âmbito da família, por conta disso.

As entrevistas foram realizadas na residência dos entrevistados, excetuando-se uma das oportunidades, em que a entrevistada preferiu vir à casa da entrevistadora, provavelmente por conta do fato de morar com a família. As entrevistas foram gravadas e transcritas na íntegra e a todos os entrevistados foram atribuídos nomes fictícios.

NOTAS ETNOGRÁFICAS

Mesmo que se busque a objetividade, a própria seleção das informações obtidas para compor um texto é inevitavelmente influenciada pelo olhar pessoal do pesquisador. Por este motivo, é preciso deixar claro para o leitor, como dizem os antropólogos, “o lugar de onde se fala”, evidenciando a condição de ente datado de quem escreve.

Segundo Peirano (1995), os dados etnográficos são fruto do cruzamento do trabalho de campo com a biografia do pesquisador, e ainda do contexto histórico em que este está inserido. A autora chama também a atenção para o fato de que o observador é parte do processo de conhecimento e que por isso já foi dito que não há fatos sociais mas fatos etnográficos (já que há seleção e interpretação do observado). Portanto, assim como explicitar a bibliografia consultada é essencial para evidenciar os limites da construção do quadro teórico, deixar claro para o leitor os parâmetros da compreensão do pesquisador é também uma medida essencial, visto que os dados obtidos resultam da sua percepção individual, por mais que esta esteja orientada para atuar cientificamente. Deste modo, evidenciar os limites do olhar do pesquisador acaba por se converter em uma medida necessária para equilibrar o peso da subjetividade na configuração do trabalho. Por este motivo esclareço que, em Salvador, lócus de observação, sempre frequentei bastante, tanto por afinidade quanto por razões de trabalho, locais de concentração homossexual. Deste modo, a minha vida social não se modificou por conta da pesquisa, apenas se converteu em um constante observar.

Se essas breves considerações não foram suficientes para esclarecer a minha posição, gostaria de deixar claro que falo “de dentro”. Acredito que este fato tenha me trazido vantagens, visto que o acesso aos códigos, aos locais de observação e aos informantes foram tremendamente facilitados. Porém, problemas também existiram por conta disso, sendo o maior deles a dificuldade de “estranhar”, de tornar “exótico” o “familiar”.

Esta dificuldade foi desde o início, entretanto, só foi devidamente dimensionada após assistir ao filme Madame Satã, que conta a história de um homossexual. Antes de ir ao cinema, havia lido algumas críticas mencionando o forte conteúdo das cenas de sexo homossexual. Comentando depois o filme, falei sobre a discrepância entre o que havia lido quanto ao sexo e o que havia visto no cinema. Uma pessoa então me disse que sim, as cenas eram realmente fortes, esmiuçando os detalhes que poderiam ser considerados mais chocantes para quem não estava acostumado a compartilhar do cotidiano de homens que se relacionam afetiva/sexualmente com outros, descrevendo, entre outras coisas, os beijos realistas, enfim, tudo que eu não havia conseguido “ver”. Foi neste momento que percebi o quanto a realidade homossexual era “natural” para mim e tive consciência da necessidade de desenvolver algumas estratégias para facilitar meu trabalho, que foram desde a observação do comportamento das pessoas em boates e bares de frequência heterossexual até a peregrinação por locais de concentração homossexual em outros estados, passando também, por vezes, pela simulação da condição de neófita. Minha procura por uma percepção exótica do mundo homossexual me levou, encapotada para esconder os seios, até mesmo a um cinema de “pegação” no centro de São Paulo, cheio de homens à procura de sexo com outros homens, numa noite de abril. Tudo para tentar perceber com maior nitidez as peculiaridades do comportamento homossexual e do “mundinho”.

O “mundinho” embora por vezes pareça exclusivamente masculino, é também composto por mulheres. Também estive entre lésbicas, em lugares mais específicos que, no entanto, não se mostraram os mais interessantes no sentido de fornecer subsídios para analisar os elementos de maior interesse da pesquisa. Por falar em mulheres, é preciso fazer algumas considerações sobre as homossexuais do sexo feminino. É verdade que as realidades homossexuais masculina e feminina são bem diferentes e que cada categoria têm vivências e problemas específicos. É preciso, inclusive, atentar para o fato de que a ascensão da identidade homossexual na mídia, da forma como foi identificada no presente trabalho, embora, é bom frisar, não exclua necessária ou explicitamente o contingente feminino, parece estar relacionada de forma mais estreita aos homossexuais do sexo masculino vez que, ao contrário do que continuamente se afirma sobre os homens homossexuais, o “mau gosto” sempre foi um dos componentes do estereótipo da homossexual feminina, da forma como é concebida pelo senso comum, inclusive por parte de homossexuais dos dois sexos. Neste sentido, considera-se que as lésbicas são mal-humoradas, desleixadas com a aparência, se “vestem mal”, usam cortes de cabelo ultrapassados, gostam de beber demais, etc. Inúmeras vezes já ouvi que as lésbicas copiam o que há de pior nos homens. Segundo uma entrevistada:

Sofia: “ … por exemplo as mulheres, muitas delas ainda, acho que mais do que os homens, elas são mais estereotipadas, elas ainda tem aquela coisa de, de … dura, né ? de se vestir, de ouvir música brasileira, de amar Maria Bethânia, de ficar em grupos grandes, assim, e … feias, elas são feias, então acho que esse é um tipo, né ? e elas gostam daquilo, eu sei porque eu fiz uma noite lá no… Absolutas e aí a gente tinha a maior dificuldade… a gente sendo gay, era uma noite para mulher que a gente fez, né, e a gente tinha dificuldade em entender o que elas queriam, porque era completamente diferente do mundo que eu frequento para , né, era uma coisa que … que antigamente eu ouvia falar e que é, existe até hoje, elas existem, elas são muitas, né, e elas são radicais, elas são preconceituosas, elas não gostam de homem, sabe, é estranho, eu acho …”

Porém, a despeito deste tipo de afirmação ainda ser muito comum, esse estereótipo também começou a apresentar fissuras, a partir da onda “Lesbian Chic” do inicio dos anos 90, num movimento que prossegue até hoje com a presença cada vez mais constante, na mídia, de mulheres perfeitamente adequadas ao padrão de beleza vigente e com maneiras condizentes com o que se convencionou como femininas, fazendo par com outras, vide as novelas da Rede Globo Torre de Babel e Senhora do Destino, por exemplo.

Entretanto, uma vez que o trabalho não é, em última instância, especificamente sobre homossexualidade, mas sim sobre estratégias de distinção, estabelecimento de identidades e hierarquia a partir do consumo, não foi considerado necessário separar os indivíduos usando como critério o sexo biológico ou o gênero. É preciso ficar claro que a escolha da categoria homossexual como objeto, além da facilidade do trânsito neste universo, deve-se ao fato de que uma problemática relativa a este grupo se revelou frutífera para pensar problemas da sociedade em geral. Certamente existem, em relação aos homossexuais de sexo masculino e feminino, preconceitos e generalizações grosseiras, inclusive de parte a parte, assim como atribuição de valores aos modos como cada categoria vive e expressa a sua homossexualidade. Entretanto, o modo como o problema foi construído, os informantes selecionados e o campo específico delineado, parece suficiente para autorizar, neste trabalho, o tratamento de homossexuais de ambos os sexos como componentes de um mesmo grupo. Isso porque a categoria, pode-se dizer, nativa, “moderno”, selecionada pela sua utilidade na apreensão de um determinado modo de construção e expressão de identidade que evoca uma capacidade e qualidade de consumo diferenciado, não pressupõe que se fale de homens ou mulheres.

Do mesmo modo, apesar de, como dito, ter visitado os mais diversos locais de concentração homossexual, pareceu mais acertado concentrar as observações no ambiente que se revelou mais propício para investigar as questões da pesquisa – o “Bonequinha de Luxo”, festa itinerante de caráter mais ou menos privado, um contexto homossexual criado voluntariamente e sem intenção lucrativa. Em relação ao que estava sendo discutido anteriormente, no Bonequinha de Luxo, como na maioria dos locais de concentração homossexual, são encontrados homens em maior quantidade. Apesar disso, ao contrário da maioria desses locais, a festa conta sempre com boa quantidade de mulheres. Segundo os informantes isso acontece porque:

Fábio: “eu gosto das lésbicas, por exemplo, na questão da Bonequinha de Luxo prá gente é (frisando) fundamental que tenha lésbica, que tenha energia feminina lá dentro (…)”

Outro entrevistado, falando também sobre o Bonequinha de Luxo, afirmou:

Márcio: “eu gosto muito quando vai mulher, gosto muito…”

Ao ser perguntado sobre o motivo deste gostar, ele explicou assim:

Márcio: “eu gosto de mulher (risos) talvez não sexualmente mas eu gosto de mulher, eu, eu, eu, sempre tive muitas amigas, né, tenho muitas amigas hetero, tenho amigas sapas. Todos nós, aliás, e… que freqüentam e tal. E que terminam chamando as amigas ou, ou é alguém que trabalha em loja, que tem as colegas que não são gays mas são meio bichas, que gostam um pouco dos ambientes, não sei. Mas sempre tem muita mulher !”

Vinícius: “ah, sim, a gente fazia questão de ter muita mulher que a gente acha que mulher dá uma… acho que gay só homem dá um clima pesado de paquera, acaba rolando a paquera, entendeu, como acontece na boate normal (…) tinha pessoas que a gente achava pessoas chave para chamar mulheres (…) dá uma amenizada o ambiente, quebra esse clima. (…) o único Bonequinha que não teve mulher, acho que tinha umas três só, que foi a que (diz o nome do Dj) tocou (…) acho que foi a menos animada (…) foi a que talvez tenha funcionado menos.”

Pelo que pode ser apreendido a partir das entrevistas, parece também que a presença de mulheres ajuda a dessexualizar o ambiente e a estabelecer um clima mais ameno, com as pessoas voltando mais sua atenção para elementos como a música, a diversão e para outras possibilidades de satisfação que as outras pessoas podem oferecer, além da sexual. Os locais onde a presença masculina é massiva podem apresentar, segundo vários informantes, um clima “pesado”, já que as atenções podem se voltar exclusivamente para a paquera e a pegação.

Foram os ambientes gays de Salvador que propiciaram as primeiras intrigas, que mais tarde se transformariam em questões de pesquisa. Entretanto, somente conhecendo melhor a segmentada cena homossexual de São Paulo, tais questionamentos, ainda embrionários, começaram a adquirir contorno. Em Salvador, certamente por causa da escassez, os lugares de freqüência homossexual são muito misturados . A mistura, entretanto, parece fazer com que as pessoas desenvolvessem interessantes formas de diferenciação (vide a divisão do trecho da rua em frente à “Caixa”, no carnaval de 1999). Neste sentido, muitas vezes ouvi comentários pejorativos, por parte de homossexuais, acerca de determinados lugares e seus frequentadores. Paradoxalmente, entretanto, essas pessoas continuavam a freqüentar os locais que criticavam. Hoje é possível vislumbrar a lógica que permitia conciliar essas atitudes aparentemente antagônicas e perceber que a contradição era apenas aparente: ao que parece, esses homossexuais queriam estar entre homossexuais, o que só era possível nos lugares em questão – já que as opções eram escassas – porém, não queriam, mesmo que para outros homossexuais, assumir o ônus de serem identificados com aqueles que consideravam como seus típicos freqüentadores. Lembro de muitas vezes ter ouvido pessoas falando que iam ao extinto Red Blue – bar de lésbicas localizado em Patamares, que abria no final das tardes de domingo e onde se dançava axé e pagode – para “dar risada”.

Tempos depois, em São Paulo, tive a oportunidade de conhecer dois diferentes circuitos da cena homossexual. Como me disse um homossexual paulista: “em São Paulo existe o lado de lá da Paulista e o lado de cá”, referindo-se à uma oposição entre os Jardins e o Centro da cidade. A diferença entre os dois circuitos me pareceu, na época, quase total: a decoração dos lugares, o modo de se vestir das pessoas, a música, a estética dos flyers e até mesmo o estilo dos transgêneros: mais travestis, em grande quantidade, no Centro e mais Drag Queens, em menor quantidade, nos Jardins. O mais interessante é que a diferenciação e o distanciamento não se revelou uma prática restrita aos contextos, pode-se dizer, misturados. No circuito dos Jardins, o qual freqüentei mais, a diferenciação e o distanciamento também se faziam. Através do carão, por exemplo, que é uma atitude esnobe que alguns homossexuais costumam ostentar. A jornalista Érika Palomino, em seu site, definiu carão como: “pose, cara de nojo e de tédio, antipatia e ausência de sorrisos verdadeiros. (…)” (em http://www.erikapalomino.com.br / resposta à pergunta de um internauta na seção Érika na Pista ). Um entrevistado explicou como é o carão:

Vinícius: “… porque geralmente, a gente fala assim, quando tem muito carão tem uma coisa que… pro exemplo, a gente vai no Off na sexta feira, ou no sábado, principalmente no sábado que é o dia mais cheio, então você vê milhões de caras, de pessoas que são bonitas, algumas bem bonitas, assim, mas que de alguma maneira são bem inacessíveis, elas se fazem assim, entendeu? Então são pessoas que às vezes não dançam ou não, ou então ficam em grupos, e sempre com um ar de… eu não mereço estar aqui, este lugar, este lugar não me merece, as pessoas que estão aqui não merecem a minha atenção. Eu acho que o conceito de carão é meio relativo, assim, às vezes eu me paro, me pego pensando assim, que por exemplo, nós, não acho que nós fazemos carão, entendeu, assim, porque às vezes a gente fica excluso mesmo, a gente não participa daqueles… principalmente numa boate como o Off, assim, que a gente não gosta muito da música então a gente acaba ficando num canto, conversando, bebendo, falando besteira e o resto da boate é meio que inexistente. Então às vezes eu penso também que de repente pode ser que a gente seja tachado de pessoas que fazem carão, né…”

O CAMPO DA PESQUISA: SALVADOR

Localizada no Nordeste do Brasil, o Relatório 2004 da SEI informa que, de acordo com padrões internacionais, Salvador é uma megacidade. Segundo dados de 2003 do IBGE, Salvador possui quase três milhões de habitantes, sendo a terceira cidade mais populosa do país, primeira do Nordeste e sétima região metropolitana mais populosa do país (cf. p. 47). O referido relatório situa Salvador e sua região metropolitana como um dos principais pólos econômicos do Brasil (Ibid., p. 48). O PIB da Região Metropolitana de Salvador equivale a 2 % do PIB brasileiro, sendo o maior PIB metropolitano da região onde a cidade se localiza, constituindo-se, assim, como a maior economia metropolitana do Nordeste (Ibid. p. 48).

A metrópole, grosso modo, se revela um ambiente propício para a vivência da homossexualidade, por conta de fatores como o anonimato, por exemplo, que traz a possibilidade de encobrimento da sexualidade considerada desviante, por causa da multiplicidade dos estilos de vida, que acaba por favorecer o acomodamento cotidiano das diferenças, etc. De maneira geral, na metrópole também se ampliam oportunidades de emprego, por conta da concentração demográfica e da necessidade de atendimento aos diferentes desejos e necessidades da grande quantidade de pessoas que congrega. Segundo Almeida (2004)

“grandes cidades constituem grandes mercados em primeiro lugar porque concentram população e criam assim condições para o desenvolvimento da chamada economia de urbanização: pequenas indústrias de alimento, vestuário ou mobiliário residencial, comércio varejista, prestação de serviços pessoais, serviços de alimentação, etc (Almeida, Ibid., p. 48)”

Referindo-se ao local da pesquisa, Paulo Henrique de Almeida fala que a região metropolitana de Salvador parece estar se terciarizando, fenômeno que o autor procura comprovar através do exame comparativo dos dados da PED (Pesquisa Emprego e Desemprego) dos períodos de 1987/1988 e 2000/2002.

Ressaltando que em 1998, 82% do PIB de Salvador era proveniente de atividades terciárias, Almeida afirma considerar o setor de serviços como o único segmento dinâmico na economia de Salvador. O termo “segmento dinâmico” designa “aquele que aumenta sua participação na ocupação total, porque cresce mais rapidamente – em termos de postos de trabalho – do que o conjunto da economia de Salvador” (Almeida, Ibid., p. 54). Embora não haja uma base numérica para esta afirmação, fornecida por um estudo formal, o setor terciário provavelmente é o que mais contribui para a inserção dos homossexuais no mercado de trabalho, pelo motivo óbvio de ser aquele em que, de modo geral, se criam mais vagas. Seria muito interessante, neste sentido, descobrir as atividades em que os homossexuais mais se engajam, na perspectiva da ocupação.

Saindo um pouco do rol de preocupações formais do trabalho para pensar no que o desenvolvimento do setor terciário pode significar para a categoria homossexual, se o Caderno de Turismo da edição de 05/11/2003 do jornal A Tarde, por exemplo, está correto ao apontar que os homossexuais gastam mais com cultura, estética, lazer e turismo, mostrando, através de dados estatísticos, que a categoria apresenta uma média de graduados e pós-graduados superior à da população em geral, pode-se afirmar que esses também são grandes consumidores de serviços. Neste sentido, muito elementos que vêm sendo relacionados aos homossexuais são provenientes do setor terciário, como o gosto por viagens e o consumo de bens culturais, por exemplo. Assim, o crescente incremento do setor de serviços pode significar um vetor de atração para essa categoria, em sua alardeada procura constante por lazer ou por aumento de qualificação educacional, por exemplo, ao mesmo tempo que representa um incremento das possibilidades de inserção no mercado de trabalho, representando também um fator de atração populacional.

De acordo com o documento produzido pela SEI, 70% ou mais do valor do PIB dos países mais desenvolvidos é proveniente do setor de serviços, cujas atividades tendem a se concentrar em zonas metropolitanas , o que permite concluir que a ampliação do setor terciário é indício de adequação e crescimento econômico. É significativo, portanto, o fato de que a área mais dinâmica na criação de postos de trabalho, em Salvador, se localize justamente neste setor, e que o estado da Bahia ocupe a quarta posição no ranking brasileiro de serviços. Entretanto, a despeito das classificações numéricas grandiosas, e do grande potencial econômico apontado pela efervescência do setor terciário, Salvador é caracterizada por uma extrema desigualdade socioeconômica , apresentando também um baixo nível de renda média per capita. Neste sentido, a Região Metropolitana de Salvador apresentou, em 2001, o segundo pior índice de desigualdade entre as dez mais importantes Regiões Metropolitanas do Brasil.

Analisando a questão por outro lado, embora ainda permanecendo na seara das contradições, a despeito do fato de ser uma megacidade, em termos de índices sócio-econômicos, nacionalmente conhecida pelas suas raízes negras e manifestações culturais, como a capoeira, o candomblé e o carnaval – o maior do mundo, com direito à presença no Livro do Recordes Mundiais – alguns habitantes, situados em determinada perspectiva existencial, se ressentem da limitação local em termos de diversidade de atrações culturais disponíveis e da escassez de opções de lazer, seja em relação à música, vida noturna, teatro e até mesmo cinema, já que, neste quesito, Salvador possui menos que a metade de salas de exibição de filmes que o Rio de Janeiro ou São Paulo, por exemplo, além de não contar com inclusão regular no roteiro dos festivais que acontecem no sul do país. Aparentemente, já que não se realizou nenhuma investigação neste sentido, Salvador, embora seja a terceira maior cidade do Brasil, em termos populacionais e de índices econômicos, conserva um grande apego aos elementos regionais compreendidos como tradicionais da terra, especialmente aqueles que lhe dão feição nacional. Parece que, a despeito do fluxo turístico, ou talvez por conta disso, Salvador não se cosmopolitizou, em comparação a outras capitais do país, que funcionam como referência para algumas categorias de individuo.

Embora tenha um bom porte, Salvador também não conta com um circuito homossexual amplo, ao contrário de Recife, por exemplo, cidade que também está situada no Nordeste e que foi citada por alguns informantes. Para constatar este fato basta consultar na internet um dos variados sites que reúnem informações acerca da vida noturna homossexual no Brasil e comparar as listas dos estabelecimentos por estado (para isso ver, por exemplo, http://www.mixbrasil.com.br). Em enquete realizada pelo site baiano Farofa Digital sobre o que falta na noite homossexual de Salvador, a maioria dos internautas optou pela resposta “mais boates” (www.farofadigital.com.br). Logicamente este é um ponto de vista de indivíduos situados em uma determinada perspectiva existencial (alfabetizados, com acesso à internet, que gostam de sair à noite, de dançar ao som de música mecânica e estrangeira, etc) mas compõe um indicativo e não deve, por isso, ser desprezado.

Durante o trabalho de campo, assim como nas entrevistas, tornou-se perceptível uma mágoa relacionada à compreensão dessa peculiaridade como estagnação cultural. Neste sentido, todos os entrevistados reclamaram da falta generalizada de opções culturais e de lazer, assim como da impermeabilidade das mentalidades em relação à aceitação de novidades, etc. Os entrevistados consideram que, especificamente para o universo homossexual, as opções são ainda mais restritas, uma vez que existem poucos locais que consideram interessante. Os bares, por exemplo, além de poucos, não se destacam por nenhum serviço ou comida especial. Em relação a atrações culturais diversas, a cidade também não conta com variedade na oferta de espetáculos teatrais, de dança, de festivais artísticos, etc. Todos os entrevistados, assim como muitas pessoas com quem conversei durante o trabalho de campo, se mostraram insatisfeitos por isso, conforme trechos abaixo:

Fábio: “Porque eu, aqui em Salvador, eu ir num final de semana pra uma boate e ver que lá tá tocando a mesma música de dois anos atrás, isso me deixa deprimido enquanto … uma pessoa que mora numa cidade que não tem perspectiva de … avançar !

Maurício: “… estava um pouco entediado com esta realidade de Salvador, que nada acontece, que a gente não tem um lugar, um clubinho, uma coisinha que a gente pode se encontrar, e tenha pessoas legais, e ouvir uma música interessante, nada disso”

Fábio: “… na realidade baiana, onde a gente não tem um lugar com música…. música interessante pra se dançar, onde você sabe, conhece até a sequência das músicas dos Djs das casas então, pra quem gosta de dançar, por exemplo, é um suplício”

Essa citada escassez de opções do circuito cultural e de lazer foi o elemento motivador da criação do Bonequinha de Luxo, conforme entrevistados:

Fábio: “o Bonequinha de Luxo surgiu, de … um grupo de amigos que reclamava muito sobre as opções de diversão que tinha na noite de Salvador então a gente começou a se reunir na casa de um do grupo, e o dono da casa convidaria os amigos, ofereceria alguma comida e a gente levaria a bebida. E isso foi crescendo, a gente notou que tinha aí uma semente de uma coisa muito interessante, que a gente podia ampliar e abrir para outras pessoas, seria uma forma de até conhecer pessoas diferentes. ”

Fábio: “ a gente começou a reclamar com uma certa regularidade das opções de diversão, em Salvador, do tipo de música que tocava nos lugares de dança, enfim… e começamos a fazer umas brincadeiras de cada semana, em vez da gente sair a gente se reunir na casa de amigos …”

Vinicius: “a gente não gostava dos lugares que tinham aqui, se é que tinham, né”.

Fábio: “por exemplo a gente frequenta, eu e meu grupo de amigos, muitos lugares gays, GLS, ou gay friendly, e, a gente sentia que o … tipo de música que tocava e o tipo de postura das pessoas que frequentam esses lugares, são muito repetitivas, são muito repetitivos, muito, muito, repetitivos. E a gente tava numa fase assim, saturação total com este tipo de postura”

Para avaliar a reclamação quanto aos “lugares de dança”, é necessário esclarecer que, em Salvador, existem quatro boates direcionadas ao público homossexual: Queens Club, Yes, Caverna e Off Club. A primeira é um clube de sexo, a segunda fica situada no centro de cidade e tem frequência popular, a terceira também está localizada no Centro e sua frequência é, pode-se dizer, um pouco mais popular que a da Yes, a quarta é uma boate com boa estrutura física e boa qualidade de reprodução de som, direcionada a um público de camada média ou aspirante. Excetuando a sexualmente orientada Queens, todas têm propostas parecidas de entretenimento, diferindo basicamente apenas quanto aos recursos financeiros para executá-las e ao perfil do público.

ESTUDO DE CAMPO: O BONEQUINHA DE LUXO E ENTREVISTAS

A justificativa para a escolha da festa itinerante denominada Bonequinha de Luxo como principal ponto de observação deve-se ao fato deste representar um contexto favorável em relação à percepção do objeto da pesquisa, uma vez que seus organizadores / freqüentadores parecem estar dentro de um padrão cuja emergência é possível de ser constatada há cerca de dez anos, no Brasil, além de afinados com um estilo de vida que vem sendo constantemente relacionado à homossexualidade. O Bonequinha de Luxo reúne homossexuais que portam os sinais que permitem reconhecer sua sintonia com um padrão de consumo diferenciado, algo possível de ser constatado através das roupas que essas pessoas usam, do teor das conversas, do modo de falar, dos perfumes, das formas de interação, dos elementos cotidianos considerados importantes, da valorização do consumo cultural, apreensível a partir do interesse demonstrado por viagens, cinema, teatro, música, etc.

A inspiração para o nome do evento vem do título em português do filme “Breakfast at Tiffany’s”, de 1961. baseado em romance de Truman Capote e dirigido por Blake Edwards, Bonequinha de Luxo trazia a atriz Audrey Hepburn no papel principal. O filme, que ganhou os Oscars de trilha sonora e melhor canção, ficou famoso, entre outras coisas, devido ao figurino desenhado pelo estilista Givenchy. O filme trata com leveza da história de uma moça do interior que, na verdade, é uma prostituta – embora isso não seja nunca diretamente mencionado no filme – e que sonha ascender socialmente. Holly Golightly, nome da personagem de Audrey Hepburn, não é alguém que deseja ganhar o suficiente para sua sobrevivência mas viver de forma sofisticada, o que é evidenciado logo no início do filme, quando a protagonista, bem cedo pela manhã e aparentemente chegando de uma noitada, toma café enquanto admira as vitrines da Tiffany´s, loja de comércio de bens de luxo mundialmente famosa.

Sobre a recepção ao filme, algo interessante a ressaltar é que parece impossível mencioná-lo sem falar da presença da atriz. Em alguma medida, isso ocorre com qualquer filme, vez que esses são sempre identificados pelos atores que dão vida aos papéis principais. Por exemplo, Humphrey Bogart, é um ator/personalidade cuja atuação forjou a representação perfeita do sujeito duro, másculo, que filmes como “O Falcão Maltês” precisava evocar. No caso específico de Bonequinha de Luxo, Audrey Hepburn impregna o filme de uma aura que parece ter ficado gravada na mente dos espectadores. Não a sua atuação, mas sua presença. Do mesmo modo, Bonequinha de Luxo transformou Audrey Hepburn em eterna referência de elegância e sofisticação. Uma rápida busca na internet para saber detalhes sobre o filme e logo sobressaíram, nos textos encontrados, termos como estilo, charme, elegância, inesquecível, encanto, glamour e refinamento, utilizados para discorrer sobre o filme e sobre essa presença de Audrey Hepburn. Mais uma busca na internet para conhecer melhor a Tiffany´s e outra constatação: nos três primeiros links indicados pelo site de busca o filme e a atriz Audrey Hepburn eram mencionados. Achei que era suficiente para concluir que a figura de Audrey Hepburn é considerada perfeita também para simbolizar o universo dessa loja de produtos de extremo luxo.

Quanto ao evento denominado “Bonequinha de Luxo”, este pode ser descrito como uma festa itinerante de dimensão modesta, que ocorria sem regularidade instituída, sempre aos sábados. Realizado por um grupo de amigos, começou como uma reunião íntima na casa de um deles, organizada para preceder a ida a uma grande festa e está atualmente em sua nona edição. Após as primeiras edições o “Bonequinha de Luxo” passou a ocorrer em locais maiores, de preferência inusitados, com a consequente ampliação do círculo de convidados, embora esta obedeça ao princípio da participação somente de gente conhecida ou indicada por conhecidos. A preocupação em criar um ambiente diferenciado é uma característica da organização da festa, na qual o som é feito por Djs que tocam música eletrônica do estilo denominado House, em suas vertentes mais alternativas. As três primeiras edições ocorreram em residências particulares, as outras seis foram realizadas respectivamente em uma borracharia no Rio Vermelho, em uma cobertura desocupada na Rua Carlos Gomes, em uma Serraria na Avenida Djalma Dutra, em um antigo salão de festas na Av. Joana Angélica, em um salão no segundo andar de uma casa situada na Praça da Sé e no segundo andar de uma antiga residência transformada em centro comercial, na Barra. Nessas últimas foi pedido aos convidados a contribuição de cinco reais para custear o aluguel do som, dos espaços e a presença de segurança, visto que a proposta do evento não é obter lucro mas divertir-se em companhia de pessoas consideradas interessantes e ouvir o que o grupo considera boa música.

Nos primeiros encontros as pessoas eram orientadas a levar o que fossem beber durante a noite. As bebidas eram depositadas conjuntamente em um refrigerador ou isopor e consumidas coletivamente ao longo da noite. Somente a partir da sétima edição a bebida passou a ser vendida, mesmo assim a pedido dos convidados. O bar foi terceirizado em dois desses eventos, sendo que na nona edição do Bonequinha de Luxo os próprios organizadores se encarregaram de organizar o bar e até mesmo de servir aos “convidados”.

Um dos organizadores contou que o primeiro evento do que depois se tornaria o Bonequinha de Luxo tinha caráter de chill in e que foi “muito legal, com alto astral, gente conhecida bacana e som maravilhoso”. Muitos dos que estiveram presentes nem foram mais à festa principal, ficando por lá mesmo. Ele contou que um amigo tirou fotos nos primeiros eventos e que essas fotos foram temáticas, sendo que uma das edições teve pés como tema fotográfico e todos tiveram, portanto, seus pés fotografados. Salvo engano, na segunda reunião um dos participantes falou que aquilo estava um luxo e encontrou alguma ligação com a festa que acontece no filme Bonequinha de Luxo e daí batizou-se o evento. Nas reuniões subsequentes, tornou-se um costume as alusões ao filme em questão, desde a distribuição de jóias de plástico em referências aos objetos cobiçados por Holly Golighty, nome da personagem interpretada por Audrey Hepburn, à exibição do filme em si, no vídeo. Na sétima edição, por exemplo, os organizadores, alguns convidados e até o Dj usaram colares de pérolas falsas em alusão a um adereço usado no filme pela atriz.

A divulgação do Bonequinha de Luxo é feita na quinta feira que antecede ao evento, principalmente pela internet. Iniciada por conta da dificuldade de encontrar os locais ideais, esta prática acabou virando um dos charmes da festa. São enviados flyers virtuais, sempre trazendo a estampa da Audrey Hepburn, onde constam data, horário e local do evento. Uma pequena quantidade deste material é impressa. A periodicidade pretendida inicialmente consistia em um intervalo de um mês entre uma festa e outra. De julho de 2003 a março de 2004, entretanto, ocorreram apenas nove edições, visto que a dificuldade em encontrar locais considerados suficientemente interessantes inviabilizou a manutenção do ritmo desejado de realização da reunião. Além do mais os organizadores têm um acordo de somente realizar o evento quando todos possam participar, assim, se alguém viaja não há possibilidade de fazer a festa, por exemplo. Um dos rapazes perdeu um parente próximo e enfrentou alguns meses de depressão, então, neste período não se realizou a festa.

Não há em Salvador, segundo alguns informantes, clubes homossexuais alternativos onde a música esteja antenada com a produção musical européia e americana de caráter underground ou mesmo bares direcionados a este público que contem, por exemplo, com uma programação visual caprichada ou um bom barman. Neste sentido, o “Bonequinha de Luxo” é um exemplo de tentativa de criar, na cidade, um ambiente diferenciado, reunindo elementos considerados importantes pelo grupo em questão e que faltam nos locais existentes na cidade, assunto que será desdobrado um pouco mais à frente.

Por último, é interessante a ressalva feita por alguns entrevistados que possuem amigos residentes em cidades grandes, diversificadas, mas que também se ressentem das opções das suas cidades. Essa última afirmação pode indicar que procurar continuamente algo além do que se tem pode constituir-se também em valor, para membros de determinados grupos.

—-

Soube da existência do “Bonequinha de Luxo” através da coluna semanal Contracapa, de autoria do jornalista Jamil Moreira Castro, publicada pelo jornal Correio da Bahia. A nota falando do evento, constante na edição de 15 de agosto de 2003, dizia o seguinte:

“Um luxo. Para fugir do MARASMO, um grupo de amigos está se reunindo num doméstico chill-in itinerante, o BONEQUINHA DE LUXO, que já rolou na casa de (cita os nomes). O sucesso é tanto que a FESTA está se transformando num CHILL-OUT (sic), ou seja, rolando até as DUAS da matina”. (em http://www.correiodabahia.com.br)

Pouco tempo depois, uma pessoa comentou que tinha ido ao Bonequinha de Luxo, acompanhando um convidado. Perguntei então como era a festa e soube que tinha ocorrido numa cobertura, onde havia uma grande concentração de “bichas muito bem arrumadas e perfumadas”, que passaram a noite conversando enquanto o filme “Bonequinha de Luxo” passava no vídeo e um DJ fazia um som Lounge. Cada um levou o que iria beber e foram distribuídas aos convidados anéis de plástico em alusão às jóias da Tiffany´s, cobiçadas por Audrey Hepburn no filme. Essa havia sido a terceira edição da festa. Ao final da descrição sabia haver encontrado o ambiente apropriado para concentrar as observações e refletir sobre as questões da pesquisa.

O primeiro Bonequinha de Luxo no qual pude estar presente ocorreu no dia 11 de setembro de 2003. Recebi pela internet o aviso sobre a realização da 4ª edição da festa, encaminhado conjuntamente para um grupo de amigos, conforme e-mails reproduzidos abaixo.

—– Original Message —–
> From:
> To:.
> Sent: Thursday, September 11, 2003 2:05 AM
> Subject: Bonequina de Luxo 4
>

> Olá!
>
> Segue em anexo o flyer para o Bonequina de Luxo de sábado.
> Tivemos um pequeno probleminha na locação. Houve um curto circuito na
>instalação elétrica do local onde iríamos produzir a festa e tivemos que
>alugar um lugar (incrível!) para o Bonequinha 4.
> Estamos, portanto, pedindo uma colaboração de R$5,00 para pagarmos
>custos com o aluguel e com seguranças (sim, teremos segurança na porta, já
>que só entra quem tiver convite)
> Os convites estão na minha mão. Como o lugar (uma borracharia com pista
>de dança e tudo!) é maior, podem falar com mais pessoas. Temos 150
>convites.
> Ah! A música é de (nome do DJ)!!!
>
> Beijos e aguardo confirmações, ok?
>
> assinatura

O e-mail anterior foi encaminhado juntamente com o comentário da pessoa que o repassou para seu grupo de amigos, conforme segue abaixo:

>From:.
>To:
>Cc:
>Sent: Thursday, September 11, 2003 9:41 AM
>Subject: Fw: Bonequina de Luxo 4

> queridos, essa eh uma festa clandestina, chic, gay, basicamente, e com
>gente bacana e louca. eh a quarta versao e sempre acontece em casa de
>amigos, em segredo. desta vez eh mais aberta e rola numa pequena
>borracharia. sim. entre pneus. e esta sendo divulgada para poucos (pois
>essa eh a proposta). nenhum cache, so farra. meus equipamentos, (nome) na
>producao desta vez para dar uma forca com o som (que tera q ser maior). eh
>um projeto de um nucleo de rapazes, que, no fundo, tem interesse de abrir
>um futuro bar chill in. espero q role. podem convidar, mas só gente bacana.
>tem entrada sim, 5 reais. e tem q pegar os convites e sao so 150
>convidados (normalmente eram 40)
> so toca um dj a noite toda, long set de 4 horas.
>(nome), vem? (perguntando a um dos amigos ao qual o e-mail havia também sido encaminhado e que estava em Londres)

Comentário enviado pelo amigo que estava em Londres, à pergunta que encerrou o e-mail anterior:

“Queridos, Esse é o esquema!!!!!!!!!!!!!!
um lugar off circuit, so gente conhecida e interessante e atmosfera
sexualmente liberada!!!!
Pronto esse é o barato do verao. Era exatamente o que estava pensando em
fazer quando chegasse ai, ao inves de ficar insistindo nos mesmos velhos
lugares, e esquemas.
BOMBEM!!!!
BEIJOS
Assinatura.”

Reservei meus convites e no dia 13 de setembro, por volta da uma da manhã eu cheguei à festa. O flyer virtual que me havia sido enviado trazia uma ilustração da atriz Audrey Hepburn segurando uma longa piteira encostada em uma roda de carro e dava o endereço de uma borracharia no bairro do Rio Vermelho. Após entrar por um portão de ferro, via-se que o local estava às escuras. Por este motivo não dava para notar detalhes da decoração, mas, pelo que foi possível observar, esta se limitava mesmo aos objetos que pertenciam ao local, e que surpreendentemente acabavam por compor um ambiente harmonioso. Parece que a única providência dos organizadores foi pendurar vários pôsteres de homens nus, compondo assim o cenário típico de borracharia – só que, no caso, uma borracharia gay. Havia muitos objetos velhos, que pareciam pertencer originalmente ao próprio ambiente, como uma garrafa de vidro antiga e bem suja, de leite da marca Alimba, numa prateleira dentro do bar. Quando comentei com o rapaz que estava ao meu lado sobre aquela reunião de tantos objetos inusitados, expressando dúvidas quanto à procedência dos mesmos, ele respondeu que achava ser tudo do próprio local, ao mesmo tempo em que apontava para um lustre antigo, dizendo “olha aquele lustre, que bárbaro”.

O mais interessante é que o local, apesar de inusitado, parecia totalmente apropriado, pois foi possível improvisar perfeitamente uma pista de dança e um bar. Os organizadores conseguiram compor um ambiente exótico, mesmo que não tenham acrescentado ou tirado quase nada para conseguir isso. A pista era bem escura. Havia uma luz negra e uma sequência de quatro luzes que acendiam alternadamente. Tudo muito simples, porém eficiente e adequado para sediar uma festa. O Dj tocava House Music.

A maioria dos presentes era certamente homossexual, o que dava para saber não somente por conhecer a proposta da festa e boa parte das pessoas. Mesmo que estivesse em terreno desconhecido, as pistas estavam lá: nos cortes de cabelo, no aroma dos perfumes, no formato dos corpos, na modelagem das roupas, etc. Os homens estavam em maior número, mas havia mulheres em quantidade razoável, além de dois casais aparentemente heterossexuais.

Esse foi o primeiro Bonequinha de Luxo que tive a oportunidade de participar e não houve dificuldade para freqüentar as demais edições, me aproximar dos rapazes e conseguir entrevistá-los, também por já ser conhecida por alguns deles. O mesmo posso relatar em relação aos “convidados” da festa, dos quais conhecia parcela razoável. Tive a oportunidade de estar com os principais informantes – os organizadores da festa – em diversos outros momentos e contextos como, por exemplo, em um almoço com banho de piscina, na casa de praia de um deles, no início de 2004. Outra oportunidade de encontrar todos reunidos foi no período compreendido entre junho e julho de 2004, quando foram convidados, sob a efígie “Bonequinha de Luxo”, para assinar o bar de uma série de eventos promovidos por uma loja de roupas, onde Djs tocavam ao pôr-do-sol, no deck da loja localizada na Ladeira da Barra, voltado para a Baía de Todos os Santos, nas quintas, sextas, sábados e domingos do período citado. Além dessas oportunidades mais específicas, pude estar com eles em festas e eventos diversos, como, por exemplo, em uma noite de desfiles da edição 2004 do Iguatemi Collection e em várias noites da Opsom, projeto de música eletrônica que ocorria às sextas-feiras, no período de janeiro de 2005 a abril de 2006, em um nightclub do Rio Vermelho, e do qual a maioria desses rapazes era freqüentador habitual. Nos eventos e locais citados pude também encontrar boa parte dos freqüentadores do Bonequinha de Luxo, ou homossexuais portadores do mesmo perfil. Nessas oportunidades, em geral conversávamos pouco, visto que o som alto não favorece o desenvolvimento de conversas muito elaboradas. Somente uma vez a conversa se estendeu em um ambiente deste tipo, quando encontrei um deles na Off Club, por volta das 4:00 da manhã, poucos dias após tê-lo entrevistado. Disse a ele que estava, naquele momento, refletindo sobre as coisas que ele havia me dito na entrevista, mais especificamente, tentado perceber o “carão”. Ele então me esclareceu que àquela hora esse tipo de clima já estava disperso, a maioria dos casais já tinha se formado e que quem estava ali até àquela hora, em geral, eram pessoas que haviam bebido e que estavam mais do que inclinadas a ficar com alguém, vez que a noite já se findava.

A quarta edição do Bonequinha de Luxo foi a primeira que tive possibilidade de conferir pessoalmente. Mas, a partir daí, porém, tive acesso a todos os outros, que ocorreram nos seguintes locais:

Bonequinha de Luxo 05: terraço de um edifício na Rua Carlos Gomes. Som: eletro / eletrohouse
Bonequinha de Luxo 06: ex-serraria, na Av. Djalma Dutra. Som: House
Bonequinha de Luxo 07: antigo salão de dança na Av. Joana Angélica. Som: House
Bonequinha de Luxo 08: andar superior de um salão na Praça da Sé. Som: House
Bonequinha de Luxo 09: casarão antigo na Barra. Som: House

Com base nessas edições, é possível evidenciar o que todos tiveram em comum, ou seja, as principais características da festa, que são: a itinerância, a ocorrência em locais inusitados, som feito por Djs de tendência alternativa, no âmbito da música eletrônica, preocupação com a ambientação, frequência controlada, divulgação a poucos dias do evento. Com esses cuidados, o que os realizadores do Bonequinha de Luxo afirmam procurar é um contraponto ao que existe em termos de diversão noturna em Salvador. Pensando nisso, estabeleceram quatro pontos básicos, que constituíram a sua fonte de preocupação: o local, a decoração, o som e as convidados. Como disse um dos organizadores:

Fábio: “E assim, pra gente é: música, local e pessoas convidadas. É fundamental. A partir daí a gente estabelece os, os critérios do que vai acontecer na decoração, eh, o local, tudo a partir dessas três coisas.”

A itinerância é, junto à procura por lugares diferentes e inusitados, também um princípio valorizado, mesmo que acabe dificultando – bastante – a viabilização da festa. O Bonequinha de Luxo poderia ter acontecido mais vezes, se não fosse por este critério. Conforme depoimento:

Fábio: “é divertido você, participar de uma festa que cada vez é num lugar diferente, e tem sido lugares … interessantes, assim, e… mas é muito complicado porque… agora a gente já começa a ser mais criterioso, em relação a alguns lugares, porque a gente já viu que as pessoas não, não, não gostam de lugar muito longe, lugares onde a segurança não seja cem por cento, pra deixar o carro, então isso começa a restringir ainda mais os lugares …”

A música é outro foco de atenção, pois é consenso entre os rapazes que a música ajuda a compor “o clima”. No Bonequinha de Luxo, o som na maioria das vezes foi feito por Djs que tocam um subestilo de música eletrônica denominado “House”. Apenas nas primeiras edições, antes de virar festa mesmo, o Dj fez um som Lounge. Na quinta edição o Dj tocou “Eletro”, gênero de música eletrônica surgido no início da década de 80 e que foi revigorado no início do século XXI, a partir do hype do festival Eletroclash, em New York e da Festa Nag, Nag, Nag, em Londres.

Sobre a música que toca no Bonequinha de Luxo, alguns dos entrevistados afirmaram:

Vinícius: “acho que é uma música que dá a cara do evento, acho que, eu acho que música tem esse fator assim, de dar realmente a cara, a qualquer coisa assim”

Fábio: “é fundamental, é fundamental a música. A gente, todos nós desse grupo que organiza o Bonequinha gostamos muito de música eletrônica (…)”

Márcio: “eu acho a música… não sei se é metade, se é sessenta ou se é setenta por cento, né, porque eu acho que tem essa demanda de música boa, as pessoas todas reclamam de tá indo prá boate e não ter uma música legal, né, como a gente falou assim, ir ver Marky (famoso Dj de um estilo de música eletrônica chamado Drum’n Bass ) na Fashion (Fashion Club, Boate “careta” da orla), não vou. Eu gosto de Drum and Bass, mas eu não vou na Fashion mesmo que seja o Dj que eu acho que quero ver eu não vou. Porque assim… vou pro Off (Off Club, boate da Barra direcionada ao público homossexual), não gosto da música, posso dançar essa música mas em determinado lugar também não vou, porque eu não vou prá um lugar que eu em sinta constrangido ou que eu me sinta, né, policiado. Assim, poder fazer essa junção: pôr a música que a gente tá a fim de ouvir, né, com pessoas que a gente tá a fim de ver, num lugar que a gente tá a fim de estar, é meio que a combinação prá uma festa ser legal”

Sobre o fato da organização do evento sempre optar pela House Music um dos organizadores falou:

Vinícius: Eu acho que House tem a mais a ver com a estética … gay, essa coisa que nego vincula, até”

E completou, referindo-se à clássica associação da House Music com os homossexuais

Vinícius: eu acho talvez até inconscientemente, talvez nem tem essa noção (…) todo mundo pensa que House é a música que toca no Off … mas assim, mas assim inconscientemente eles se identificam muito com a House”

Vinícius: isso foi porque a gente nunca quis repetir o som que a gente ouvia na boate que a gente passou a vida inteira reclamando, daquele som, a gente não queria esse som. E não é porque seja – é porque é melhor, claro. Mas porque é gosto pessoal mesmo, assim, sabe, eu acho que tenha identificação, realmente, mas não foi… É que eu tava pensando uma coisa aqui mas depois eu penso que acho que tem a ver, entendeu? foi natural isso mas eu acho que isso já tava, sei lá, já ta colocado no inconsciente da gente que, a gente sabe que a house é… acho que tem esse clima de… de gay (grifo meu)

Para tentar esclarecer esse ponto – que é muito controverso – em relação à associação dos homossexuais com a música eletrônica em geral, é preciso ressalvar que esta é uma denominação que engloba os estilos mais alternativos dentro da Dance Music. O que define a música eletrônica, ao lado de algumas características estéticas específicas e do modo de composição, é sua associação com o underground. Assim, mesmo que sejam construídas de forma binária , as faixas de caráter mais pop não se encaixam na definição de música eletrônica exposta acima. Dentro desta perspectiva, tampouco a música tocada nos clubes homossexuais – da qual os organizadores do Bonequinha de Luxo reclamam bastante, como pode ser conferido em algumas falas – pode ser considerada, a rigor, como música eletrônica, visto que nesses locais são executadas as vertentes de caráter mais comercial, baseadas em fórmulas, da House Music. Este é, inclusive, o ponto ao qual se apegam alguns adeptos da cultura da música eletrônica, que se ressentem com esta vinculação da musica eletrônica aos homossexuais, visto que o som predominante na maioria das boates e festas direcionadas a este público possui, realmente, um caráter eminentemente comercial.

Entretanto, embora a cultura homossexual não seja, no sentido musical, necessariamente underground, por outro lado ela pode perfeitamente ser considerada clubber, visto que sair para dançar se constitui em uma instituição da noite homossexual ao redor do mundo. E, neste sentido, já ouvi várias vezes, da parte de quem fez alguma viagem internacional, o comentário de que “boate gay é igual em qualquer lugar do mundo”. André Fischer diz, em seu blog, que “a diferença entre a Queen de Paris, a Le Boy no Rio ou a Heaven em Londres é apenas o endereço” (em http://www.mixbrasil.com.br, no Blog do André).

A boate tornou-se ponto clássico de encontro onde homossexuais vão para paquerar, namorar, “fechar”, ver os amigos e também para dançar. O som conhecido estabelece um terreno comum, reconhecido e reconhecível, que plasma modos de dançar, de comunicar pertencimentos através da dança e até de seduzir. A identificação do homossexual com a vida noturna é clássica, e, neste sentido, é sintomática a pergunta enviada por um internauta à jornalista Érika Palomino: “É possível ser homossexual sem ter esta obrigação de ser notívago ? ”

Sobre questão da frequência à boate, um dos entrevistados, após afirmar que a finalidade que move a maioria dos frequentadores da boate Off Club seria a possibilidade de arranjar alguém para namorar ou fazer sexo, foi questionado sobre o porquê da preferência musical irredutível dos frequentadores deste tipo de ambiente por House Tribal ou remixes das músicas de cantoras como Whitney Houston, Madonna, Cher, Britney Spears e Christina Aguilera, entre outras. Ao responder, acabou fornecendo algumas pistas acerca do papel da música para a sociabilidade, evidenciando o fato de que esta ajuda a criar o contexto, demarca territórios e até formata diferenças a partir do jeito que o corpo se movimenta na dança, conforme os trechos a seguir evidenciam:

Vinícius: “Por exemplo, eu tenho a idéia de ter um bar. E assim (…) as pessoas falavam pra tomar cuidado com o lugar que ia ser escolhido, porque, pra não ser uma freqüência… pra pegar a freqüência que você quisesse pegar. Eu sempre achei que não teria essa preocupação, eu acho que a música dá essa cara, eu acho que ela afasta pessoas que você não quer ou aproxima pessoas que você quer. Eu acho que tem um perfil que se adapta, que gosta daquele tipo de música e acho que a música é fundamental pra isso”

Márcio: “… as pessoas vão pro Off com uma idéia clara, isso ninguém me tira da cabeça, as pessoas vão pro Off prá paquerar, as pessoas vão pro Off que querem arranjar alguém, pode ser um namorado, pode ser uma transa, mas as pessoas querem, vão com intenção de dar uma, uma… beijar na boca …”

Entrevistadora: (…) se as pessoas sempre vão pra Off pensando nisso, porque é que, se um Dj chegar lá e coloca uma música diferente, as bichas dão pra ruim, protestam, não aceitam ? você tem alguma hipótese sobre isso ?

Márcio: “uma porque não gostam, mesmo (…) e porque dançar é uma forma de paquerar,
né ?”

Entrevistadora: é ?

Márcio: “ééé !!! total. (…) você tá lá de olho num carinha, o carinha tá até paradinho, aí você olha, aí… pô, o cara tá desanimado, (…) aquela dança do acasalamento, né, aí ele tá lá,… tem que dar uma, tem que mostrar que ele é bonito, que ele sabe dançar, tem que mostrar que a roupinha é interessante. Então, assim, de repente vai tocar um DB (Drum’n Bass / estilo de eletrônica bastante rápido e quebrado) que o cara não sabe nem pra que lado, o que é que faz com aquilo… entendeu ? Eu acho que há a identificação com a música. Também (frisa).”

Entrevistadora: com aquele tipo de música ?

Márcio: “com aquele tipo de música que as bichas idolatram, Cher, né ?”

Entrevistadora: que inclusive você vai em São Paulo, vai no Rio em boates assim e é o mesmo som, né, com… aqui tem um certo delay, né, chega depois os hits, mas…

Márcio: “vai na SoGo (boate gay de São Paulo) tem a mesma música do Off. Quase não tem diferença, né, talvez não toque Margareth Menezes, né, mas toca a mesma coisa. São aquelas mesmas divas aquela mesma história, né. Na Level, parecido, com algumas diferenças, mas é a mesma coisa. E as pessoas gostam daquele … tem as músicas que as barbies gostam, tem as músicas que as bichinhas quá-quás gostam”

Entrevistadora: o que é bichinha quá-quá ?

Márcio: “são as bichinhas da Yes, as bichinhas que evoluem (…) que evoluem, tem que ter espaço prá dançar, não pode dançar no Off, porque no Off é aquela … tem que dar passo de dança, tem que… tem uma coreografia, tem uma coisa mais elaborada. Que aquilo é divertido, e é lá também a dança do acasalamento. (grifo meu)”

Entrevistadora: é outro jeito de corpo ? lá na Yes ?

Márcio: “é dança do acasalamento pra quem acha aquilo bonito. Que assim, eu posso achar que a pessoa tá se divertindo, posso achar engraçado mas não me seduz por exemplo.”

Entrevistadora: ah entendi, mas pra alguém que tá lá…

Márcio: “pra alguém … vai achar que aquilo é bonito. Como eu já vi ‘olha como ele dança bonitinho’. Eu disse, não cê tá brincando que ele não dança bonitinho (…)”

Ainda sobre o som das boates direcionadas ao público homossexual, lembro do que me disse uma menina, em Brasília. Estávamos conversando em um bar com espaço para dançar. A pista estava começando a funcionar e o House Tribal começava a soar, bem alto. Lembro que comentei, com intenção mesmo de provocar alguma resposta, como era incrível o fato de em todo lugar homossexual tocar sempre esse mesmo tipo de som. Ela então me disse: “é a nossa cara”.

Entretanto, o som tido como característico da preferência dos homossexuais, e que predomina nesse tipo de boate – tribal e remixes de faixas pop – é, muitas vezes, rejeitado por homossexuais que procuram uma referência mais “moderna” para expressar sua homossexualidade. E para aqueles homossexuais que execram o ambiente das boates, sejam essas clubes alternativos ou boates dentro dos moldes mais tradicionais, é tudo indiferenciadamente reunido, tanto a vertentes mais alternativas da House quanto a House Tribal, sob o rótulo pejorativo de “bate-estaca”. Sobre este assunto, lembro de comentários de dois estudantes da área de Ciências Humanas, homossexuais, enquanto um dizia que não suportava “bichas brancas de boate”, outro deixou bem claro que jamais iria a um evento como o Bonequinha de Luxo.

Sobre a recorrente, e absolutamente comprovável, associação dos homossexuais com a música House, embora tenha pesquisado a respeito, não encontrei nenhuma explicação baseada em um levantamento sistemático de informações, nem sequer alguma hipótese aventureira. Por este motivo me arrisco a fazer uma interpretação, vez que não é possível acreditar na existência de vínculos metafísicos. Assim, á possível supor que os nightclubs, pelas suas características, acabaram se constituindo em espaço privilegiado, por serem fechados, resguardados de olhares exteriores e, por isso, ideais para que indivíduos homossexuais pudessem se encontrar, relativamente protegidos da homofobia. Foi nos EUA, justamente em locais desse tipo que os Djs Larry Levan e Frankie Knuckles começaram a fazer experimentações sonoras, a partir da extensão e colagem de faixas constantes em vinis de música “disco”, dando origem à House Music, primeiro estilo do que viria a ser, na década de 90, denominado música eletrônica. Os clubes, hoje mitológicos, onde a House Music surgiu através das mãos dos Djs citados – respectivamente, o “Paradise Garage”, em New York e o “Warehouse”, em Chicago – eram também locais onde a frequência homossexual era significativa . Reunidos inicialmente por conta desta coincidência, a associação entre boate de frequência homossexual e música House compôs um modelo que se perpetuou até os dias de hoje. A relação certamente não é de necessidade, talvez seja de tradição.

Voltando à caracterização do Bonequinha de Luxo, a preocupação em ter convidados interessantes é outro ponto de cuidado:

Fábio: “porque a gente acha que o espírito da festa é dado pela música e pelas pessoas. A música a gente se sente muito seguro (…) a nossa outra preocupação é de convidar pessoas interessantes para irem pra lá.”

Márcio: “a gente quer que seja uma festa gay, né, porque a idéia é o quê ? se você, é gay ou não, você vai … vai porque você tá a fim. Agora, assim, é uma festa gay onde você pode beijar na boca, onde você pode namorar, onde você pode paquerar, que você não precisa fazer muito a linha, né, porque aí também… tem muito lugar prá isso. Apesar de que tem gente que se incomoda um pouco, eu acho, do fato de não ser 100% gay, assim, no sentido de freqüência, né (…)”

Heterossexuais, portanto, são bem vindos, desde que entendam que a festa é gay e consigam interagir neste contexto. Quanto ao controle da portaria, embora não seja muito rígido, e, segundo os organizadores, tenha como finalidade apenas de barrar curiosos e evitar o desconforto da superlotação, a sua existência dá margem para acusações de elitismo:

Vinícius: “a gente já foi acusado muitas vezes de elitistas, de que excluía as pessoas…”

Vinícius: “Pelo fato da Bonequinha sempre ter tido o número de pessoas limitado, então sempre tinha aquelas pessoas que não conseguiam entrar, sempre acabavam criando uma certa rede de fofoca dizendo que a gente era metido, que a gente era boçal, que a gente, sei lá, fazia tipo uma linha, assim”

Os entrevistados negam que barram as pessoas, e que para entrar basta haver convite ainda à venda:

Márcio: “se chegar na porta, não tem convite vendido, entra na boa”

Entretanto, embora não haja uma extrema rigidez, é inegável que existem alguns critérios para a aceitação e qualquer critério de participação, por mínimo que seja, constitui um método de exclusão. Tanto que:

Fábio: “(…) a gente nem vende, a gente procura ao máximo não vender ingresso na porta, pra não ter aquela pessoa que não tem nada o que fazer, passa na rua e vem …”

A preocupação com composição do ambiente é outra das características centrais do evento e compõe também uma das preocupações dos organizadores

Márcio: “é uma preocupação. é uma preocupação que a pessoa chegue, olhe pro lugar e… Pôôô !!!!” (tom de admiração)

Entrevistadora: mas porquê ?

Márcio: “uma porque a gente gosta de ir em um lugar e ver que, assim, teve um cuidado com a nossa presença. Eu acho que receber bem é… chave prá o sucesso de uma festa. Você vai prum lugar que o garçom tá te olhando com uma cara assim – Ah, não existe, que o porteiro faz uma cara feia prá você, que tá um muquifo, que não tem conforto…”
Fábio: “é uma preocupação mas na verdade não é de deixar o lugar decorado, é de deixar o lugar com um clima. Um clima que deixe as pessoas confortáveis e ao mesmo tempo um lugar diferente que não é a casa dela nem é a boate que ela frequenta sempre. É, é quase uma cenografia mais do que uma decoração de uma festa mesmo.”
Maurício: “não é uma festa produzida, não tem nada disso. Mas a gente sempre cuida um pouco pra tentar transformar o espaço, criar alguma referência, alguma brincadeira (…) comprou bolinha de sabão, pequenas coisinhas assim pra criar um climinha, pra divertir as pessoas, pra produzir justamente isso que a gente sempre sentiu falta…”

Vinícius: “E tem uma coisa também, de luxo, né, que a gente sempre quis dar um aspecto, mesmo sendo lugares que… buscava lugares inusitados que não tinham… mas tinha um certo… acho que tinha um glamour, que veio naturalmente, não sei, por causa das pessoas, talvez. Muita gente que acha pretensioso, acha meio… mas nunca foi premeditado …”

Assim, os organizadores acabaram definindo, um tripé básico para a composição de um ambiente interessante para uma festa: música, pessoas e local. No momento em que esses estão perfeitamente ajustados, o clima certo é obtido. Neste sentido, segundo um dos organizadores, a edição que mais se aproximou da expectativa que tinham sobre a festa ideal foi a nona, realizada num casarão antigo da Barra. Um dos rapazes explica porquê:

Vinícius: “…não sei, acho que a casa tinha um clima… sei lá, de luxo (ri). A gente se esmerou mais na decoração, como era um lugar pequeno a gente se esmerou mais, assim, botou cortina, tal, a iluminação tava bacana. Eu acho que tinha uma coisa que não foi 100 por cento que foi a pista que não… que tinha uma mesa, no centro, que a gente tinha medo de cair o piso da pista. E teve aquela coisa que eu acho que atrapalhou um pouco mas assim o clima da festa eu acho que foi aquele (…) o clima da festa eu achei perfeito (…)”

Na festa citada os rapazes realmente capricharam na produção. O ambiente foi produzido desde a entrada, no térreo do casarão, até a pista de dança. Um bar foi improvisado e alguns dos organizadores se dedicavam a atender pessoalmente aos convidados. Várias salas do casarão foram ambientadas com móveis, luzes e cortinas. Os rapazes também estavam produzidos e ofereceram espumante para alguns convidados.

Segundo Douglas e Isherwood (2004), “o objetivo mais geral do consumidor só pode ser construir um universo inteligível com os bens que escolhe” (Douglas & Isherwood, Ibid., p. 113). Assim, pode-se dizer que a decoração, a música, o local e as pessoas, elementos considerados fundamentais para o sucesso da festa, são reunidos com a finalidade de compor um determinado tipo de ambiente, favorecer um determinado contexto de encontros. A decoração, na verdade, tem a ver com a composição de um cenário, como chegou a dizer um dos entrevistados. Todo o cuidado é para criar para um ambiente diferenciado, bem cuidado, diferente, “com clima”, que os organizadores dizem querer que seja divertido e até mesmo sofisticado. Tudo, entretanto, conseguido com poucos recursos materiais, uma vez que a festa não se orienta pela perspectiva de obter lucro. A realização de uma festa nesses moldes, então, somente é viabilizada pela posse de um considerável volume de informação, para saber: qual é a tendência musical mais atual, qual o Dj que tem esse som interessante – e que não vai cobrar cachê porque também é amigo , qual é a tendência em termos de design, qual é a referência bacana para ajudar a compor um flyer bacana. Tem que ter discernimento para enviar esse flyer para as pessoas certas, que tenham a capacidade de fruir e enriquecer o ambiente – e amplificar ainda mais a posse desses recursos através dos comentários que serão feitos e que podem até mesmo levar a festa para a coluna social, como já foi o caso, discernimento para saber o que usar na decoração, no sentido de compor um ambiente que seja considerado interessante, aproveitando os recursos que o local possui ou até mesmo trabalhando bastante para aprimorar o local, como ocorreu na nona edição – a festa considerada por um dos entrevistados como mais bonita. Outro a considerou perfeita.

É preciso informação e referência para fazer a pesquisa dos locais – pensando em surpreender e no inusitado. A alusão a Audrey Hepburn, protagonista de uma comédia charmosa, antiga, ela própria um ícone de elegância com sua beleza gamine que inspirou estilistas, também pressupõe informação. Todas essas operações exigem posse de razoável capital simbólico, de referências, de recursos afins, enfim, posse de discernimento.

O investimento nesses quatro elementos tem a ver, conforme afirmação anterior, com a composição de um cenário considerado ideal para a realização de uma festa diferente, moderna. Mas o que dá o tom do cotidiano, o que compõe, pode-se dizer, o cenário da vida dessas pessoas não é movido por ambição diferente, só que desta vez em relação à própria personalidade, que deve ser traduzida pelo perfume, pela roupa, pelo interesse em moda, pelo estar atualizado em música, pelo ter viajado – e pelo querer viajar mais e sempre – pelo saber utilizar a moda a seu favor e não ser dela um escravo, ou pior: uma vítima. Assim como para compor a festa, todas essas coisas também pressupõem o domínio de informação especializada, posse de capital cultural, para guiar as escolhas de consumo em uma direção considerada interessante. Quem dá essa pista é um dos organizadores, ao falar sobre a efêmera moda:

Maurício: “… você não precisa ter 10 pares de tênis, você pode ter um tênis. E também você entende que a moda também é muito perversa porque ao mesmo tempo que ela diz uma coisa ela diz outra. Ela diz que aquele tênis é importantíssimo mas ela diz que aquele outro (com ênfase) também é importantíssimo, então você vê num momento que você tem que fazer escolhas, que você tem que saber o que é que você pode, o que é que você quer. No caso eu acho que no caso a moda é muito mais interior, porque se você tem a consciência do que é tendência, do que é bonito, do que é design, do que é combinação, do que é a essência da moda mesmo, você faz isso de varias formas, eu acho que dá pra fazer isso de várias formas, não necessariamente consumindo a moda, consumindo eu digo, eh, comprando as roupas da ultima coleção, sabe. É engraçadíssimo você ver (…) nesses encontros de moda, Barrafashion, Iguatemi Collection, bla, bla, bla. Aí você vê aquele público todo na área de convivência assim, e você diz, gente, esse povo tá aqui porque são os lojistas, ou ganharam convites ou… mas essas pessoas não consomem moda, não consomem, não é … (porque) não tem dinheiro ou não compram a roupa da estação, não é isso. Não consomem porque eles não tão nem conseguindo combinar uma coisa com outra, a calca com a camisa, sabe, não tem… não colocaram um acessório bacana que mostrasse tendência, ou nada disso. Sabe, então você vê, meninas assim, com aquela bolsa Louis Vuitton, caríssima, grafitada… que coisa mais… sabe ? se a tendência é grafite, faça seu grafite, na sua camisa, sabe, ou… não sei…. eu acho que a moda é mais isso aí, assim. Então hoje eu acho que eu tenho mais consciência disso. Agora eu acho a moda importantíssima, pelo menos pra mim, porque tá absolutamente ligada com cultura, com tendência, com design, então tá absolutamente dentro do meu trabalho, né, das coisas que eu gosto, do que eu faço…”(grifo meu)

Fábio: “eu gosto dessa salada, por exemplo, de…comprar uma coisa muito barata e que eu consiga dar um jeito daquilo funcionar de uma maneira … bacana, interessante, que chegue a chamar a atenção das pessoas, da, da maneira que eu quero, que eu … entendeu ?”

Os frequentadores do Bonequinha de Luxo entendem a linguagem. Um dos entrevistados explica porque foi a todas as edições:

Gérson: “… primeiro, por ter sido uma coisa que eles não estavam com o intuito de comercializar esse nome, tal, de ser uma coisa assim caseirinha mesmo e que acabou pegando… eu acho isso ótimo. (…) Sem intuito nenhum você acaba … isso porque, claro, eles são pessoas superbacanas, superantenadas e tal, e sabem fazer, né, eles sabem fazer, tipo, eles se preocupam com decoração, com luz, com música, até com o style deles, assim, eu fico bem passado com eles assim, porque você chega na festa deles até eles, que se envolvem na produção, sempre tem uma marquinha registrada, eles, cada um com um colarzinho diferente, que tá todo mundo com o mesmo colar, ou tipo uma camiseta que ta com um silk da Bonequinha. Acho ótimo, isso, cara, isso que é importante, você se preocupar com os mínimos detalhes porque o grosso todo mundo faz (…) os mínimos detalhes são na verdade o que contam bem mais” (grifos meus)

O que o entrevistado parece dizer é que é quase natural que o Bonequinha de Luxo reúna tantas qualidades, quase como uma decorrência da excelência pessoal dos organizadores. Sobre a importância dos detalhes, mencionada por Gérson, um dos entrevistados diz:

Márcio: “(…) saber que aquela camiseta teve um corte, aí um amigo meu faz assim ‘que diferença dessa camiseta prá esta’ tem muita diferença: é o comprimento da manga que é perfeito que dá exatamente no braço, o caimento que é mais quadrada ou que tem uma liga com uma coisa sintética que faz com que tenha outro tipo de caimento no corpo, que valorize isso, valorize aquilo, né. Eu vejo muito isso.”

Essas considerações dos informantes remetem à problemática analisada em “La distinción”, onde Bourdieu (1988) chama a atenção para o fato de que a relação mantida pelos mais pobres com os objetos é básica, funcional, por conta do atendimento à necessidade imediata. Os mais bem posicionados procuram justamente o inusitado para sinalizar sua posição, rejeitando o básico. Segundo o autor, este é o princípio que orienta a categorização e hierarquização das práticas, no campo da distinção. Neste sentido, é interessante recuperar algumas alusões, relatadas anteriormente, de um dos entrevistados, que foi denominado Márcio, primeiro ao modelo de casais de lésbicas comumente encontrados nas boates do centro da cidade, onde uma segue um padrão de vestuário e comportamento identificado como masculino, enquanto a outra assume o comportamento e aparência qualificados como feminino, e depois ao fato de que, nas boates do Centro, as “bichas quá quás” dançam fazendo coreografia. Márcio menciona esse aspecto em sua entrevista, ao falar sobre as “bichinhas da Yes”, em trecho reproduzido anterioriormente. Gérson também fala sobre a recorrência à coreografia, ao comentar sobre o modo como se comporta quem vai pela primeira vez a uma festa de música eletrônica:

Gérson: “Então quando chegam numa boate, pra dançar um estilo eletrônico, aí ficam meio assim, sem saber como dança, aí já querem fazer uma coreografia, né, né ? mas não é, a intenção não é essa, a intenção é se entregar à música sem… sem interessar com que passo você tá fazendo”

Essas afirmações podem servir como exemplo da importância que assume, para alguns grupos, a manifestação da individualidade, e a compreensão de que esta se expressa na rejeição a modelos preestabelecidos, seja na procura pela expressão do eu através do modo de dançar ou no modo de vivenciar uma relação amorosa. Sem recorrer a modelos (ou passos de dança) estabelecidos. A customização também pode ser acrescentada aí. Relembrando a frase de um dos entrevistados: “se a tendência é grafite, faça seu grafite, na sua camisa”

Sobre o que pode representar o consumo, falando mais especificamente da compreensão do uso de determinados produtos como tradução de personalidade, um dos entrevistados fala sobre o uso de perfume:

Entrevistadora: você gosta de usar perfume ?
Maurício: “adoro perfume !”
Entrevistadora: é ? Você gosta de usar qual ?
Maurício: “a marca ?”
Entrevistadora: sim, o tipo, o estilo …
Maurício: “já tem muitos anos, muiiitos anos, que eu uso Envy, da Gucci
(…)”
Entrevistadora: você acha importante usar perfume (…) usa sempre ?
Maurício: “uso sempre, acho fundamental, é fundamental… é ridículo, né, porque é fútil, é bobagem, eu não preciso de perfume pra viver nem pra nada mais, mas gosto, gosto de perfume, acho que tem a ver com… um pouco com tudo isso o que a gente tava falando… que é conceitual , que tem a ver com você, uso um perfume durante um longo período também, não fico trocando. Tem alguns perfumes assim que às vezes nuns momentos, em algumas ocasiões especiais uso mas eu mantenho o mesmo perfume, assim, quase como se fosse um cheiro, seu. Claro emprestado, comprado, de uma marca aí mas … acho que fecha um conceito seu, de comportamento, de tudo… de moda, de cheiro, de tudo. Personalidade, eu acho que é isso que eu quero falar.” (Grifo meu)

A qualidade de linguagem, de código, que a posse ou uso de determinados bens de consumo, em alguns momentos torna-se bastante evidente. Lembro que, ao final de uma entrevista, quando o gravador já estava desligado, um dos entrevistados disse que achava que usar certas roupas e andar em certos lugares ajudava a dar pistas para identificar pessoas com interesses semelhantes que isso era uma forma de se comunicar, então era “muito importante”. Especialmente em São Paulo, ele disse. Então perguntei se isso era válido “só para os gays”, tentando expressar que isso ocorria em todos os meios sociais. A resposta que ele deu mostra que ele sabia o que eu queria dizer, mas que, em sua opinião, no meio homossexual essa questão era realmente mais importante, visto que me respondeu enfaticamente: “mais para os gays”. Isso certamente se deve, ao menos em parte, à necessidade de encobrimento da homossexualidade, e que torna necessário desenvolver métodos de reconhecimento: fornecer pistas para possibilitar, porém somente aos conhecedores, a leitura de códigos restritos. São situações que deixam explícita a dimensão do uso dos bens como comunicadores. Como disse um dos entrevistados:

Fábio: “(…) acho que com a roupa você também tá se expressando, tá se comunicando, tá… tá mostrando pra quem sabe ler, eh, esse tipo de signo, talvez um caminho por onde você quer seguir ou uma busca que você esteja tendo num período de sua vida, eu acho muito interessante, e é, e é interessante você perceber que quem, quem, quem sabe ler isso se identifica com você de uma forma mais rápida do que quem não sabe (…)”

CONTEXTUALIZANDO O PROBLEMA DA PESQUISA: A CONTEMPORANEIDADE

O surgimento de um determinado contexto e a modificação de valores consequente podem ser considerados como favorecedores da emergência de uma imagem dos homossexuais, conforme foi procurado demonstrar na introdução deste trabalho, mais positiva. Uma conjunção de fatores, conforme se verá mais à frente, contribuiu para delinear o quadro da sociedade atual.

Um dos argumentos mais acionados para pleitear uma atitude social mais favorável em relação aos homossexuais tem sido o apelo ao potencial de consumo do segmento em questão. Após breve reflexão, torna-se notável que os fatores mais evocados para sustentar o argumento citado e postular uma maior aceitação para o segmento homossexual estão, pode-se dizer, presentes há muito. Tome-se como exemplo a ausência de filhos e, conseqüentemente, das despesas relativas ao sustento dos mesmos tais como alimentação, vestuário, mensalidades escolares e de planos de saúde. Esta condição, constantemente atribuída aos homossexuais, é utilizada para ilustrar o possível incremento que isto representa para as possibilidades de consumo do segmento. Uma vez que este é um fator que certamente não variou, ou seja, que sempre fez parte da realidade desses indivíduos, o que o acionamento deste argumento sinaliza é que, na verdade, foram os valores que se alteraram, por conta da conjunção de fatores históricos, políticos, culturais e econômicos que configuraram um tipo particular de sociedade, sensível a este tipo de argumentação.

Deste modo, para ambientar adequadamente a problemática do trabalho, é necessário delinear o contexto histórico, no sentido de evidenciar que a reunião de vários fatores em um determinado momento produziu as condições ideais para o desenvolvimento de uma situação particular, cobrindo as mudanças que provocaram um deslocamento dos parâmetros que norteiam a apreensão e interpretação da realidade, por parte dos sujeitos, assim como a sua atuação no mundo. Posto isso, resta explicitar o conjunto de processos que constituem a especificidade da sociedade urbana, no período compreendido entre as quatro décadas finais do segundo milênio e o início do terceiro. É preciso, na verdade, responder à seguinte pergunta: o que há de diferente nesta época em relação às anteriores que favoreceu a problemática delineada no presente trabalho ?

Aproximadamente a partir da segunda metade do século XX, após a II Guerra Mundial, começa a gestação dos fatores que modificaram significativamente as condições de vida dos indivíduos situados em sociedades urbanas, que vieram a dar origem à sociedade atual, bem como a uma forma típica de concebê-la: a sociedade contemporânea.

Chamada também de modernidade tardia, supermodernidade, alta modernidade, modernidade líquida, modernidade reflexiva, hiper modernidade e pós-modernidade, a contemporaneidade têm mobilizado o pensamento de vários intelectuais, que procuram dar conta das condições sociais, culturais e econômicas que caracterizam a era e a sociedade atual, bem como os fatores que as originaram. A própria existência de tantas e diferentes nomenclaturas mostra a amplitude das tentativas de compreender e sintetizar as mudanças de caráter sócio-cultural ocorridas especialmente no mundo ocidental, nas últimas décadas.

A expressão “pós-modernidade” é o mais famoso e controverso termo para classificar a contemporaneidade. Utilizá-la pode implicar em admitir que a humanidade se encontra em um momento posterior à modernidade. Entretanto, a pós-modernidade não pode ser vista como uma etapa, pois a idéia de continuidade que o termo encerra é repelida pelo próprio pensamento pós-modernista.

Terry Eagleton (1998), define a pós-modernidade como “o período em que estamos vivendo” (Eagleton, Ibid., p. 29), mas acaba por desafiar claramente uma compreensão histórica da pós-modernidade ao indagar se se trata, na verdade, de uma época ou de um marco teórico. O autor acaba optando por utilizar duas nomenclaturas, pós-modernidade e pós-modernismo, para fazer a diferenciação, respectivamente, entre a consideração de um período histórico específico e uma forma de cultura.

Para David Harvey (1989), o pós-modernismo representa uma reação ao modernismo ou de afastamento deste. Também para Eagleton (1998), significa uma crítica aos valores compreendidos como próprios da modernidade e do Iluminismo, como “verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos da explicação” (Ibid., p. 07). Em relação à história e às metanarrativas, Vattimo (1996) esclarece que “a idéia de uma história como processo unitário se dissolve” (Ibid., Introdução, p. XI) e esta passa a ser vista como um relato entre outros possíveis, com uma unidade dada pelos “vencedores”, procurando evidenciar que a visão unitária é sempre o resultado de uma orientação política, imposta pelos mais fortes.

Como se pode ver através desses breves exemplos, não há um consenso acerca do significado da contemporaneidade. Esta pressupõe o questionamento da “idéia de história, com seus corolários, a noção de progresso e a de superação” (Vattimo, Ibid., introdução, p. IX) e dos ideais iluministas que orientaram o projeto da modernidade. Vê-se, assim, que não se trata somente de uma época, mas, também, de um novo parâmetro de interpretação da realidade, ele mesmo datado, próprio de uma época determinada e até mesmo possibilitado por ela. Sob esta perspectiva, a pós-modernidade acaba assumindo a característica de um paradigma teórico. Por conta dessas questões, talvez caiba perguntar, como Eagleton se: “enfim, o pós é histórico ou teórico ?” (Eagleton, Ibid., p. 38). Trata-se de uma época ou de uma forma de pensamento ?

Embora seja uma possibilidade interessante, por ora não será possível deter-se na discussão das formas de compreensão da contemporaneidade. Tendo em mente os objetivos do trabalho, e visto que a contemporaneidade (ou pós-modernidade, modernidade tardia, modernidade líquida, alta modernidade, hiper modernidade, etc ) não constitui o objeto específico do presente trabalho, fez-se a opção de deixar de lado essas questões e deter-se em pontos mais cruciais para a contextualização do problema de pesquisa.

Em vista de tais constatações, optou-se então pelo uso do termo “contemporaneidade” e pela sua compreensão encerrada na definição do Dicionário Universal da Língua Portuguesa (versão online), ou seja: contemporaneidade como qualidade de contemporâneo; palavra originada do latim contemporaneu, cujo significado é “que ou aquele que é do mesmo tempo, da mesma época, especialmente da época em que vivemos”. (o grifo não existe no texto original). Assim, é necessário abordar as transformações sócio-culturais ocorridas em um período histórico determinado, mais especificamente as últimas quatro décadas, e que deram origem a uma sociedade com características particulares, o que, por sua vez, favoreceu a emergência da problemática que se pretende investigar.

AS ESPECIFICIDADES DO CONTEXTO URBANO

A esta altura, já deve ter se delineado a compreensão de que a maioria dessas modificações vieram no rastro da industrialização e da urbanização.

Ao falar em sociedade ocidental ou contemporânea, claramente se evoca uma realidade de caráter urbano-industrial. Tentar compreender em função de quê se dá a interação em tal contexto, quais os grupos que o compõem, como se relacionam, como se dividem direitos e deveres ou como se dá o uso dos espaços públicos, são questões úteis para apreender esse modo de vida, que se estendeu a uma boa parte do globo terrestre desde meados do século passado. Embora em outras partes do texto constem abordagens acerca das modificações sofridas pela sociedade a partir do período mencionado, cabe, em alguma medida, discorrer mais especificamente sobre o modo de vida urbano, para evidenciar algumas particularidades do cenário onde o objeto do presente trabalho está inserido, no sentido de melhor situar o problema da pesquisa na perspectiva do quadro da sociedade mais abrangente. Os movimentos pró-direitos das minorias, por exemplo, a fragmentação, a segmentação e o descentramento da identidade, por exemplo, somente seriam possíveis no contexto diversificado de uma realidade urbano-industrial. E é certo que o modo de vida urbano, atomizado, diverso e culturalmente heterogêneo tem influência na configuração do que pode ser chamado de cultura homossexual.

O mundo urbano é o lócus onde emergiu o indivíduo e a diversidade: de atividades econômicas, de estilos de vida e de grupos, com suas diferentes ambições e reivindicações, que dialogam de alguma forma. Embora os laços comunitários não tenham se extinguido, uma das características da vida na cidade é a impessoalidade ou anonimato, por conta da inviabilidade de relacionar-se de forma personalizada diante da multiplicidade de motivações, objetivos e necessidades de diferentes grupos, que interagem em um contexto onde predominam “vastas aglomerações, extensas e complexas organizações” (Amaral em http://www.aguaforte.co/antropologia). Na cidade o homem é anônimo e o individualismo emerge. Alguns falam em solidão. O habitante da cidade também se torna mais receptivo à mudanças, já que a novidade e a transformação são contínuos: sempre há novos edifícios e empreendimentos em andamento, reformas, asfaltamento de ruas, demolições, etc. A multiplicidade, característica da vida urbana, traz para os indivíduos o problema da escolha, com suas implicações existenciais: quem sabe escolher, quem consegue transformar suas escolhas em efetivas vantagens, em prestígio, etc.

Na cidade, a mistura de grupos distintos envolvidos em atividades diversas proporciona o contato cotidiano com as diferenças e, neste sentido, múltiplos universos e estilos de vida acabam por se acomodar – não sem conflitos. A automatização dos atendimentos e o método de resolução de problemas por vias jurídicas favorecem a impessoalidade, assim como a grande quantidade de pessoas circulando favorece o anonimato. A metrópole, por suas características, compõe, em geral, um cenário mais favorável à vivência do que se chama de homossexualidade do que contextos mais tradicionais .

Elementos como os citados acima – a impessoalidade e o anonimato – por exemplo, relacionados à vida urbana, certamente favoreceram o desenvolvimento de contextos de encontro e sociabilidade homossexual, propiciando a constituição da categoria como grupo. Isso porque, uma vez que a homossexualidade historicamente constituiu-se em objeto de julgamentos morais negativos, quando não foi puramente associada à marginalidade, a presença de fatores como esses possibilita aos indivíduos vivenciar uma sexualidade / afetividade qualificada de desviante, sem despertar a atenção de familiares e demais instâncias repressivas, conseguindo evitar, muitas vezes, a atribuição do estigma e assim preservar intactas as outras instâncias da sua vida. Da mesma forma, tais pessoas podiam se encontrar, formar grupos e assim desenvolver formas de sociabilidade e códigos peculiares, a despeito de eventuais retaliações. É possível citar, neste sentido, o trabalho de Carmem Dora Guimarães (2004). Para confeccionar a obra pioneira “O homossexual visto por entendidos”, a autora empreendeu seu trabalho de campo entre homossexuais que, em sua maioria, haviam se mudado de Minas Gerais para o Rio de Janeiro em busca, justamente, do anonimato e das opções de lazer e sociabilidade homossexual possibilitadas por uma realidade urbana e diversificada.

Nas cidades também é possível contar com a ampliação das oportunidades de emprego, uma vez que essas são:

“centros de comércio nacional e internacional e de atividades de produção imaterial diferenciadas, tanto daquelas destinadas ao consumo pessoal, quanto daquelas que fornecem insumos intangíveis para as empresas. São também pólos de educação superior e de produção de arte, cultura e entretenimento. Dessa forma são ainda centros turísticos e, particularmente, de turismo de eventos ou negócios. Mas não vendem apenas serviços de turismo. Ao comércio de mercadorias se soma um novo comércio de ‘invisíveis’. As metrópoles contemporâneas importam e exportam software, moda e pesquisa; exportam e importam música, saúde e engenharia.” (Boletim da SEI, Apresentação).

As cidades também são, como visto, grandes mercados e, além de centros difusores de tendências culturais, “concentram população e criam assim condições para o desenvolvimento da chamada economia de urbanização: pequenas indústrias de alimento, vestuário ou mobiliário residencial, comércio varejista, prestação de serviços pessoais, serviços de alimentação, etc (Op. Cit., p. 48)”.

Tais afirmações deixam evidente que o desenvolvimento dos conglomerados urbanos favorece tanto a multiplicação das atividades industriais quanto o desenvolvimento acentuado de um setor de serviços, ampliando oportunidades de emprego e de lazer, demandando especialização da mão de obra – o que abre outras oportunidades de mercado e emprego na área educacional, por exemplo. Ou seja, os serviços criam demanda para outros serviços.

Em contextos tradicionais é mais difícil, especialmente no caso daqueles homossexuais “públicos”, conseguir colocações profissionais e, neste sentido, para esta categoria, o mundo urbano também é mais favorável. A expansão do mercado e a diversificação de atividades características da metrópole faz aumentar, de modo geral, as oportunidades em termos de ocupação e renda, representando, conseqüentemente, a ampliação das possibilidades de emprego também para os homossexuais e outros grupos minoritários.

Além de todos esses aspectos, a importância de abordar a vida na cidade, para o presente trabalho, deve-se também ao fato de que o consumo, em todas as suas dimensões, ampliou-se na sociedade de massa, tendo sido estimulado pela efemeridade, pela diversificação, pela multiplicação dos estilos de vida, pela procura pela inserção em grupos através do uso de determinados produtos, etc. Foi no contexto urbano que o consumo passou a realizar, de forma extensa, seu potencial comunicativo, por conta de fatores como a massificação e a propaganda, por exemplo, relacionados ao desenvolvimento do modo de produção capitalista. Por motivos como esses se pode afirmar que foi também no contexto urbano que o apelo ao consumo se desenvolveu significativamente.

CONTEMPORANEIDADE: IDENTIDADES

A época atual se encontra marcada por mudanças trazidas por fatores como a intensificação da globalização e da velocidade das trocas de informação, compressão espaço-temporal, avanço tecnológico sem precedente, surgimento da cultura de massa e da indústria cultural, movimentos das minorias, das mulheres e dos jovens, revolução sexual, queda do muro de Berlim, crise do socialismo, crise do capitalismo, eclosão do capitalismo flexível e da sociedade de consumo, que deram origem a novos paradigmas de orientação das relações sociais.

Eagleton (1998) conceitua pós-modernismo como uma forma de cultura contemporânea, e pós-modernidade como um momento histórico específico, embora admita que há uma “evidente e estreita relação entre elas” (Eagleton, Ibid., p. 07). Ou seja, fatores visto como objetivos, a exemplo do desenvolvimento de novas tecnologias, modos de produção e a reorganização de regimes econômicos e políticos favorecem também a formação de novos valores. Afirma o autor, que tal período / forma cultural “ajudou a colocar questões de sexualidade, gênero e etnicidade com firmeza na pauta política” (Eagleton, Ibid., p. 31). São esses, portanto, os “tópicos políticos privilegiados do pós-modernismo” (Eagleton, Ibid., p. 31) substituindo as formas clássicas de atuação política “que trabalhavam com noções como classe, estado, ideologia, revolução e modos materiais de produção” (Eagleton, Ibid., p. 31), evidenciando a dimensão política presente no âmbito pessoal, doméstico e cotidiano.

Este é um ponto importante, visto que a visibilidade e participação de categorias como mulheres, negros, homossexuais e jovens em movimentos de afirmação e reivindicação de direitos contribuíram para inserir temas e grupos inéditos nos debates políticos, lançando na arena institucional tópicos que em épocas anteriores sequer seriam cogitados. Segmentos como os mencionados, ao entenderem que tinham direitos e lutarem para afirmá-los, inclusive e especialmente no cotidiano, se fizeram vistos, assim como às suas demandas, acabando por conseguir seu quinhão de espaço e ajudando, neste processo, a mudar a face da sociedade.

Tome-se como exemplo a situação das mulheres, que hoje é muito diferente do que era há cinquenta anos atrás. E não somente por conta de conquistas institucionais como direito ao voto ou à licença-maternidade. Aqui também podem ser incluídas liberdades que hoje parecem banais, como o fato de que uma mulher poder, hoje em dia, entrar em um bar e tomar uma bebida sem provocar uma comoção geral. Isso tem a ver com a flexibilização dos conteúdos que informam a construção do gênero, um processo característico da contemporaneidade e do modo de vida urbano.

A discussão de gênero procura evidenciar o modo de compreender e organizar as diferenças sexuais, ou seja, a dimensão social da masculinidade e feminilidade, os fundamentos da associação de qualidades e aptidões diferentes, geralmente opostas, aos dois sexos, algo que que informa os parâmetros orientadores das relações entre os sexos e também no contexto geral. Em torno dessa classificação, as tarefas cotidianas são distribuídas e cristalizam-se papéis que orientam a socialização dos indivíduos, desde cedo incentivados a organizar seu comportamento em torno da expectativa social do desempenho adequado à sua condição biológica de macho ou fêmea. Tais oposições são geralmente compreendidas pelo senso comum como algo essencial, natural e atemporal.

Na sociedade ocidental, à mulher geralmente associam-se fatores como delicadeza, fragilidade e um lado sentimental mais desenvolvido, por exemplo, enquanto que o homem seria essencialmente racional, corajoso, realizador, etc. Parametrada pela consideração da existência de dois sexos biológicos, a divisão de gênero é alvo de incessantes debates e as discussões mais recentes incluem críticas à concepção dual, apresentando formas de compreensão que procuram levar em conta a orientação sexual. É importante ressaltar que o gênero não pode ser considerado isoladamente, visto ser modulado por fatores étnicos e socioeconômicos, por exemplo.

As mudanças no imaginário social a respeito da masculinidade / feminilidade, ao longo do tempo, assim como as variações que esses conceitos sofrem em diferentes sociedades, permitem perceber a relatividade e o caráter ideológico de tal forma de conceituação, denotando a relação das concepções acerca do gênero com os padrões culturais vigentes, resultados de um processo de cunho histórico e social em lugar de um campo onde predominam aspectos biológicos. É sempre bom lembrar, inclusive, que a própria idéia de natureza é uma construção cultural, como afirma Stolcke no texto “Sexo está para gênero assim como raça está para etnicidade ?”.

Na contemporaneidade, certas balizas vêm perdendo rigidez. O fenômeno do metrossexual serve como exemplo de um novo modelo de comportamento masculino, alternativo à concepção tradicional. Em relação às mulheres, fatores como sua entrada massiva no mercado de trabalho, durante e após a Segunda Guerra Mundial; o desenvolvimento científico que deu ao mundo a pílula anticoncepcional, possibilitando que a maternidade pudesse ser uma escolha; ou os protestos feministas, com o objetivo de evidenciar o viés político da construção do gênero e as estratégias para manter a subordinação das mulheres, são exemplos de elementos que ajudaram a promover a relativização do papel social feminino.

Na seara do gênero, é interessante observar que não predominam somente as considerações sobre o comportamento social adequado para homens e mulheres, mas, também, concepções acerca da sexualidade. Ou seja, com base no sexo biológico são também geradas expectativas em relação à orientação sexual: o esperado é que a sexualidade dos indivíduos seja orientada para o sexo oposto. O homossexual quebra tal expectativa e por conta do temor das sanções, muitos desses indivíduos optam por esconder esta condição ou simplesmente abrem mão de vivenciar o seu desejo, em uma tentativa de escapar do preconceito e das desvantagens trazidas pela atribuição de uma identidade desviante. Por conta deste fator, relacionado ao estigma atribuído ao desviante e às estratégias para driblar as adversidades que o rótulo pode trazer, torna-se extremamente importante, para discutir a relação entre identidade e gênero, mais especificamente no caso dos homossexuais, diferenciar comportamento sexual de identidade sexual.

Segundo Adriana Nunan (2003), o comportamento sexual homossexual é relativo ao desejo ou prática erótica /afetiva entre indivíduos do mesmo sexo, enquanto que a identidade sexual tem a ver com definir-se como homossexual, sendo que portar a primeira condição não implica necessariamente portar a segunda. Baseada em pesquisas americanas, a autora afirma que é a identidade sexual, ou seja, o reconhecimento pelo indivíduo da homossexualidade que influencia, por exemplo, o comportamento de consumo, estando ambos “intimamente relacionados” (Nunan, 2003, Ibid.). Além do mais, ao definir-se como homossexual, o indivíduo assume fazer parte de um grupo específico e reconhecível, ou seja, insere-se em um universo particular. Com base nessas considerações, pode-se afirmar que a identidade sexual tem alcance além das paredes do quarto, refletindo-se na vida do indivíduo de uma forma mais ampla, atuando em suas escolhas cotidianas.

Assim como os heterossexuais, os homossexuais não escapam de verem-se definidos como portadores de atributos específicos de uma condição que lhes é atribuída. Neste caso, são imputadas características geralmente opostas àquelas consideradas como típicas do seu sexo biológico. Os homens perdem a aura de masculinidade e passam a ser considerados fúteis, por exemplo, interessados em elementos pertinentes ao mundo feminino, como moda ou beleza pessoal, enquanto que as mulheres passam a ser vistas como masculinizadas, sendo associadas a características – as mais negativas, inclusive – atribuídas aos homens, como grosseria, comportamento violento, etc. A partir da trajetória individual, esta dimensão da atribuição, junto com a do reconhecimento, vai colaborar para configurar um posicionamento identitário. Neste ponto, é preciso ressalvar que a dimensão da sexualidade, embora muito significativa, não é o único vetor atuante na constituição da identidade. O realce deste aspecto, neste trabalho, tem a ver com o tema do estudo.

É notável, entretanto, que mesmo dentro da referência que é usada para classificar indivíduos que se relacionam com outros de mesmo sexo, denominados homossexuais, as práticas sexuais e as identidades relacionadas variam abundantemente, existindo homossexuais do sexo feminino e masculino, bissexuais, travestis, transformistas e drag queens, todos exemplos de subcategorizações que procuram cristalizar as diferentes formas de viver e expressar a homossexualidade.

Embora seja preciso destacar que o universo homossexual comporta tanta variedade, é inegável que o termo homossexual, que goza de amplo reconhecimento – dentro e fora do meio específico – é utilizado cotidianamente no sentido de circunscrever tal diversidade, estabelecendo um terreno comum para a compreensão: homossexual é a definição corrente dada à pessoas que inclinam-se sexual / afetivamente para indivíduos do mesmo sexo. É importante também levar em consideração o fato de que existe uma crença generalizada de que esta inclinação de caráter sexual/afetivo influencia algumas características de personalidade.

Voltando à questão do estereótipo, presente em toda definição de gênero, no caso específico dos homossexuais, seu alcance vai além da atribuição de características peculiares de personalidade, pois, uma vez que as preferências sexuais de tais indivíduos quebram o padrão vigente, elementos fortemente negativos são associados à sua personalidade e caráter, trazendo dificuldades inegáveis para suas vidas, por conta da estigmatização. Por exemplo, um homossexual notório, assumido, pode ser preterido numa seleção para um emprego, sofrer violência na rua, pode ser rejeitado pelos familiares e até mesmo expulso de casa, ocorrências extremamente comuns.

Entretanto, no processo de desenvolvimento da sociedade urbana contemporânea, conforme exemplificado, mudanças de mentalidade ocorreram, proporcionando aos homossexuais, em alguma medida, a possibilidade de vivenciar sua sexualidade / afetividade de uma forma menos tensa. Assim como as mudanças sociais trouxeram diferentes concepções para as identidades feminina e masculina, a visão social em relação aos homossexuais vêm também se relativizando, conforme o exposto na introdução do trabalho, favorecendo uma nova forma de percepção social desses indivíduos. A sociedade vêm abrindo certo espaço para suas manifestações, inclusive para aquelas que os apresentam como um conjunto definido de indivíduos com aspirações semelhantes (um exemplo disto é o apoio das autoridades municipais à realização das paradas gays), surgindo, aos poucos, a possibilidade de pleitear legitimação social para tal segmento no curso da vida diária. Neste ponto, merece destaque a atuação da militância homossexual, aspecto que será abordado mais à frente.

As considerações de Maria Celeste Mira (2001) são interessantes para contextualizar, de maneira geral, as afirmações anteriores. A autora acompanha um fenômeno ocorrido no mercado editorial brasileiro, que aponta para um movimento mais abrangente, além de uma questão particular: através do exame de um problema específico, a autora consegue acompanhar significativas transformações ocorridas na sociedade contemporânea, relacionadas à evolução do capitalismo e suas implicações em relação à identidade. A explicação da autora acerca da diversificação do público feminino e da resposta editorial a este novo estado das coisas serve para ilustrar um fenômeno ocorrido em nível muito mais amplo, que atingiu os mais diversos segmentos da sociedade. Ao acompanhar e refletir sobre a segmentação do mercado editorial brasileiro, Mira mostra como mudanças de caráter histórico-social, como a entrada da mulheres no mercado de trabalho, por exemplo, promoveram a relativização do papel social feminino. A autora consegue demonstrar como modificações sociais foram acompanhadas por mudanças no regime capitalista, culminando em ampliação e diferenciação da oferta. A autora procura também tornar evidente o fato de que a identidade, antes portadora de um caráter mais estável, passa a diversificar-se até mesmo no interior de uma única categoria.

A respeito disto, é exemplar a explanação da autora sobre Cláudia, a “Revista da mulher brasileira”. Segundo Mira (2001), a partir de um certo momento já não se falava mais, “como em Cláudia, na mulher brasileira, mas em mulheres que se distinguem pelo seu estilo de vida.”. A Revista Cláudia era a revista de um personagem “a mulher brasileira”, que se multifacetou em mulheres distintas, com diferentes vivências, obrigações e atividades. Hoje, Cláudia é a revista que “muda com você”, da “mulher que faz a diferença”, conforme anúncios atuais (do ano de 2005) da revista alardeiam.

Segundo a autora, as edições especiais da revista, inicialmente publicadas de forma ocasional, a partir de um determinado período passaram a ser editadas de forma independente, com a finalidade de cobrir “áreas mais específicas”, porém já possuidoras de um campo distinto, como jardinagem, decoração, moda, etc, atendendo a um público não só de aficcionados, mas até mesmo profissional.

O que a autora procurou mostrar com isto é que, com a diversificação das atividades, por conta de uma configuração histórica particular, os interesses femininos também se diversificaram e “a mulher brasileira” deixa de existir para existirem várias mulheres, vivendo realidades diversas e tendo, portanto, diferentes necessidades e interesses, relacionados ao seu estilo de vida, elemento que, a partir de um determinado momento, assume um papel importante na orientação da escolhas de vida não só das mulheres mas da maioria dos indivíduos situados na sociedade urbana contemporânea. Atenta, a empresa capitalista se desdobra para também diversificar sua oferta e oferecer produtos procuram atender às diferentes necessidades das diversas categorias e subcategorias de consumidores.

Essas considerações remetem também ao fato de que a identidade, em épocas históricas anteriores, cristalizava-se a partir de fatores como o sexo biológico ou o parentesco, por exemplo, o que muitas vezes selava desde cedo o destino dos indivíduos. A explanação de Mira (2001), em relação à segmentação do mercado editorial destinado ao público feminino, mostra que, a partir de um determinado momento histórico, a configuração da identidade feminina passa a ser relacionada a fatores relativos ao estilo de vida e não apenas às atribuições encerradas no papel tradicionalmente reservado à mulher. Note-se que este é um processo que não se restringe ao universo feminino, usado aqui a título de ilustração de um movimento mais abrangente, que envolve a questão da identidade na sociedade urbana contemporânea como um todo.

Segundo Anthony Giddens (1991), a situação que se delineia na sociedade pós-tradicional é que a identidade não mais se configura em função de padrões rígidos, como ocorria nas sociedades pré-industriais e de tecnologia simples, onde a vida é organizada em função da continuidade dos padrões sociais. O indivíduo situado na sociedade industrial onde, ao menos teoricamente, pode chegar a qualquer lugar, é levado a negociar “opções de estilo de vida”. De acordo com Stuart Hall (2000), atualmente “somos confrontados por uma gama de diferentes identidades, dentre as quais parece possível fazer uma escolha”. Segundo o autor, “foi a difusão do consumismo, seja como realidade, seja como sonho, que contribuiu para este efeito de supermercado cultural” (Hall, Ibid., p.75). Com base nas considerações do autor em sua obra “A identidade cultural na pós-modernidade”, pode-se afirmar também que, mesmo dentro de uma categoria circunscrita, a identidade não se fixa em um único padrão, o que é confirmado pelas considerações de Mira (2001).

A identidade possui caráter processual. Alguns autores, a exemplo do próprio Giddens (1991), conceituam identidade como uma categoria discursiva. Discurso é um “modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto as nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos” (Hall, 2000, p.50). A homossexualidade e a identidade homossexual, dentro desta concepção, logicamente constituem discursos. Influenciado pela atuação da militância, da mídia e da ascensão do consumo como elemento central na definição dos grupos, este discurso vem englobando novos significados e sendo reconfigurado.

Ao falar da influência desses fatores na questão da identidade, pode parecer que os indivíduos estão sendo tomados como reprodutores de padrões preexistentes e exteriores. Para superar esta aparente dicotomização, e evidenciar o caráter reciprocamente construtivo da relação do indivíduo com a sociedade, pode-se evocar a conceituação de self de G. H. Mead (1972). Esta perspectiva permite considerar a natureza dinâmica da identidade, ao relacioná-la com o self, que compreende a propriedade do ser humano de tomar-se como objeto para si mesmo, numa espécie de diálogo interior que é alimentado pela interação, e que é baseado em concepções construídas coletivamente.

A identidade, nesta perspectiva, está de acordo com a definição processual postulada por Giddens (1991), uma vez que está sujeita à interpretação, negociação, modificação e reconstrução, de acordo com os elementos que alimentam o diálogo interior do qual fala Mead (1972). Não é preciso, portanto, recorrer à dicotomização, uma vez que a noção de self permite considerar o indivíduo como um produto da sociedade, porém na qual atua através das suas ações, contribuindo para atualizar e manter os valores das mesmas. Ou seja, o indivíduo faz escolhas, parametradas, por sua vez, pelo contexto social no qual está inserido. Essas escolhas por sua vez, refletidas nas ações individuais, colaboram para dar ao mundo a sua configuração.

Mira (2001) diz que acompanhar o movimento editorial brasileiro permite também acompanhar o desenrolar de momentos históricos diferenciados e mostra também a resposta empresarial às novas determinações do capitalismo. No Brasil, na época em que a autora denomina das grandes revistas, a preocupação era unificar o país e desenhar a face nacional. Os títulos editoriais procuravam abranger grandes segmentos, havendo a pretensão de englobar todas as dimensões de interesse dos leitores. Durante a década de setenta se caracterizou um novo período. A preocupação em construir uma identidade nacional, predominante no período anterior, enfraquece, acompanhado o enfraquecimento do modelo do Estado-nação, que vai perdendo a propriedade de principal referência para a constituição da identidade de indivíduos e grupos. A intenção passa a ser procurar o que havia de comum entre o leitor brasileiro e indivíduos com interesses semelhantes em outras partes do mundo. É quando chegam ao Brasil revistas como Nova, Playboy, Elle e Marie Claire, filiais nacionais de produtos editoriais internacionais bem sucedidos. Ao fim da era das grandes revistas, começa também o que Mira (2001) chama de era do marketing, onde o consumidor passa a ser objeto de intensa observação e monitoração, por parte das empresas, com vistas a oferecer produtos que vão de encontro às suas necessidades, especialmente com o aumento da competição empresarial. Nichos de mercado passam a ser explorados, na procura por espaço para ampliar a oferta produtos e obter mais lucro. Neste sentido, a segmentação do mercado vai ser a estratégia capitalista mais adequada para, mais certeiramente, neste novo contexto, atingir os consumidores.

O processo de segmentação se dá não somente para seguir as exigências de uma nova configuração social, mas também por uma questão de adaptação empresarial às novas regras do capitalismo, que sofre modificações a partir da década de 70, com o declínio do modo fordista de produção e a consequente reorganização do modo e das relações de trabalho. É o início da era do capitalismo flexível.

Segundo Mira (2001):

“ao contrário da grande, pesada e lenta estrutura de produção fordista, baseada na produção em larga escala e no consumo de massa, as empresas flexibilizadas produzindo em menor escala seriam capazes de atender mais rapidamente às demandas específicas, produzindo respostas especializadas” (Mira, Ibid., p. 148).

Nesta fase, o mercado passa a demandar empresas mais ágeis, muitas vezes até mesmo menores, porém capazes de responder mais prontamente às demandas de um mercado instável devido às crises econômicas cujo alcance passa a ser mundial, como ocorreu, por exemplo, com a crise do petróleo de 1973. Com o incremento da globalização, a disseminação da comunicação, o tempo parece acelerar e as coisas mudam cada vez mais rápido. Essa condição prevê uma rápida capacidade de adaptação das empresas, que, para sobreviver, precisam ser capazes de atender às urgências que aparecerem, situadas que estão em um universo altamente competitivo.

As empresas especializam-se cada vez mais, vez que precisam conhecer o mercado em que atuam, para serem capazes de perceber as nuances do comportamento de seu público alvo e também detectar o mais rápido possível tendências emergentes, com a finalidade de oferecer produtos competitivos ou até mesmo desenvolver rapidamente projetos novos, mais adequados às preferências e necessidades, cada vez mais mutantes, de seu público. Tudo isso tem ainda a ver com o desenvolvimento de técnicas de administração e vendas, com o uso de técnicas de marketing, a exemplo das pesquisas de mercado. Definitivamente, uma conjugação de variados fatores, que se são separados, para fins analíticos, não podem ser assim compreendidos, vez que fazem parte de um mesmo processo.

O mercado está sempre atento ao seu entorno, vez que de maneira notavelmente dinâmica, adapta-se rapidamente a novas exigências e demandas, sempre em busca da maximização do lucro O mercado é configurado a partir dos processos de trocas econômicas vigentes em uma sociedade e esta sua configuração depende, como visto, de diversos fatores de caráter social, histórico e cultural. Tendo cada vez menos critérios e exigências, até mesmo atitudes rebeldes, “anti-sistema” são convertidas em mercadorias ou em artifícios para vendê-las, e isto é algo cada vez mais notável e recorrente, especialmente após a presença do marketing haver se tornado hegemônica nas atividades administrativas. A lógica que rege o mercado é a do lucro e não há barreiras ou preconceito que o impeçam de atingir esta sua meta. O mercado é configurado pelo mundo mas, também, por sua vez, interfere nesta configuração, em um processo circular cujo alcance e consequências cada indivíduo situado na sociedade urbana contemporânea certamente sofre, e participa do processo, mesmo quando disto não se dá conta de forma clara.

Dentro de uma nova lógica do mercado e em conjunto com a visibilidade adquirida pelas minorias através das lutas sociais, as alteridades passam também a compor nichos mercadológicos e sua conquista se torna um dos objetivos das empresas. Com a percepção de que comunidades se formam não somente a partir de laços territoriais ou definições tradicionais, mas, também, pelo compartilhamento do estilo de vida, um pouco depois chegam ao Brasil, no início dos anos 90, os primeiros produtos / empreendimentos comerciais direcionados à comunidade homossexual. Inicialmente por iniciativa de membros do próprio segmento, antenados com o que já acontecia nos EUA, começa a se formar um incipiente mercado que viria a ser, após alguns anos, cobiçado por empresas de diversos tipos.

SOBRE A CONSTRUÇAO SOCIAL DA HOMOSSEXUALIDADE E A IDENTIDADE HOMOSSEXUAL

Convém, primeiramente, uma pergunta: a homossexualidade constitui identidade ?

Para um pensador como Foucault (1985), por exemplo, a resposta possivelmente seria sim. Para este autor, é a partir do século XIX que determinadas características, mais especificamente de teor negativo, passam a ser atribuídas aos praticantes do homoerotismo e uma percepção social acerca desses indivíduos começa a tomar forma no imaginário ocidental. Em “História da sexualidade I: a vontade de saber”, Foucault (1985) identifica a construção de valores acerca de um determinado comportamento sexual e a formação de uma idéia coletiva, de um significado social, sobre o homoerotismo e seus praticantes. Mais tarde apropriada pelos discursos jurídico e médico-científico, a homossexualidade passa à condição de objeto de pesquisas para fins de higiene e controle social.

1976 foi o ano de publicação da “História da Sexualidade”, de Michel Foucault (idem), obra que se tornou referência na área das Ciências Humanas. A abordagem teórica do autor privilegia a instância discursiva para compreender a sexualidade, vista como uma produção do poder.

A sexualidade é concebida pelo autor como um dispositivo histórico originário de uma técnica de poder (dispositivo de poder), formado a partir da carne, dentro da concepção cristã e desenvolvido a partir de quatro grandes estratégias: sexualização da criança, histerização da mulher, especificação dos perversos e regulação das populações (idem, 1985, p. 107)

Segundo Foucault (1985), foi a partir do século XIX que a adoção de práticas homoeróticas passa a ser vinculada a uma identidade. É a partir deste período que a prática sexual passa a especificar o indivíduo, conforme explica Ana Maria Brandão (2002), no artigo “Sexualidades e identidades – reflexões em torno de algumas questões de carácter epistemológico”:

“a idéia comum segundo a qual a identidade do indivíduo está intimamente ligada às formas assumidas pela sexualidade, a idéia de que os seres humanos se distinguem intrínseca e ontologicamente pela sua preferência em termos de objecto sexual seria uma idéia nova, uma preocupação com data de nascimento, ausente em períodos anteriores da nossa história” (Brandão, 2002, em ).

Foucault (1985), ao menos na obra em questão, não procurou explicar o comportamento homossexual mas desvendar o surgimento de uma determinada percepção social acerca do mesmo, assim como a formação de um imaginário relativo, procurando situar historicamente tal processo. Segundo o autor, até o século XVIII existiam três importantes códigos de conduta que fixavam os limites entre o lícito e o ilícito, em relação às práticas sexuais: o direito canônico, a pastoral cristã e a lei civil, cujo foco eram as relações conjugais, sobre as quais concentravam suas prescrições e interdições. De acordo com Foucault, “o resto permanecia muito mais confuso”(Ibid.,p. 38)

Tal afirmação é corroborada pelo historiador Jacques Solé, ao afirmar que desde a antiguidade até a Idade Média, sodomia era o termo que englobava não somente a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo, mas também o sexo anal e oral, dentro ou fora do casamento. A sodomia era pecado / crime, por se contrapor à reprodução, finalidade maior das relações sexuais, as quais, por sua vez, deveriam ser praticadas dentro do casamento (Trevisan, 2002, p.110).

Pode-se depreender, portanto, que sodomia era um termo até certo ponto inespecífico, que designava as variações sexuais que se desviavam do objetivo da concepção, inclusive as práticas homoeróticas. Entretanto, quer a sodomia tenha sido vista como pecado ou como delito, “era um ato interdito e o autor não passava de seu sujeito jurídico” (Foucault, 1985, p. 43).

Será a partir do século XIX que o homossexual, segundo Foucault,

“torna-se uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida; também é morfologia, com uma anatomia indiscreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. Nada daquilo que ele é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas, já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas; inscrita sem pudor na sua face e no seu corpo já que é um segredo que se trai sempre. É-lhe consubstancial, não tanto como pecado habitual porém como natureza singular” (Foucault, 1985, p. 43) (o grifo não existe no original)

“a homossexualidade apareceu como uma das figuras da sexualidade quando foi transferida, da prática da sodomia, para uma espécie de androginia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era um reincidente, agora o homossexual é uma espécie” (Foucault, Ibidem., p. 43-44)

Teorizações como a de Foucault, questionam o caráter natural atribuído à sexualidade, ao explicá-la como uma construção social, e enfatiza que a prática homossexual, a partir de um determinado momento histórico, passa a ser vista como tendo a propriedade de definir o caráter dos indivíduos, ou seja, de conferir identidade. Como consequência, a identidade relacionada a esta prática tende a ser vista como adquirida, uma produção social e cultural e não como originária de impulsos de caráter a-históricos e universais.

Irão surgir também, aos poucos, opositores à consideração social negativa da homossexualidade, esforço empreendido por estudiosos e militantes, influenciados, entretanto, não por explicações de cunho construtivista, como a de Foucault (1985), mas por perspectivas que procuravam explicar a homossexualidade como uma condição, ou seja, uma predisposição biológica, de caráter atemporal e inato e, portanto, inevitável. Interessante é que considerações com tal caráter ainda hoje costumam pautar a atuação da militância, já que a imposição da idéia da homossexualidade como predisposição biológica constitui um argumento de maior apelo, na busca pela legitimidade social deste segmento.

Terto Jr. (Em tese de doutorado recebida pela internet) indica como pioneiros da militância homossexual o advogado Karl Ulrichs e o médico Magnus Hirschfeld, partidários da chamada “teoria do terceiro sexo”, que, segundo o autor, foi “uma tentativa de legitimar através dos argumentos científicos da época, as relações entre as pessoas do mesmo sexo” (Terto Jr. Ibid.). Nesta perspectiva os homossexuais poderiam ser considerados, no máximo, como vítimas da natureza. Deste ponto de vista, a intolerância para com essas pessoas seria uma postura inadequada, já que esses argumentos procuravam comprovar que, no máximo, essas pessoas podiam ser consideradas “doentes” e, portanto, merecedoras de alguma aceitação. Mais à frente, algumas considerações sobre a atuação da militância serão retomadas.

Entretanto, apesar do esforço das agências de militância, a negatividade não se findou pois mesmo que a suposta origem biológica favorecesse a desculpabilização do portador desta, assim categorizada, “condição”, a sociedade deveria ser protegida, através da intervenção de especialistas.

Essas breves considerações sobre o processo da construção social da homossexualidade objetivam ilustrar como se formou uma idéia social acerca da homossexualidade, no sentido de favorecer a compreensão do contexto no qual os indivíduos estão inseridos e com o qual dialogam no processo de constituição de sua identidade e de reprodução da sociedade, procurando também evidenciar que a homossexualidade constitui uma identidade estigmatizada. Devido a esses fatores, é impossível falar de homossexualidade ou da identidade à qual é vinculada sem considerar questões como estigmatização, preconceito e discriminação.

Grosso modo, é possível traçar cinco grandes movimentos / momentos, logicamente não estanques, cujos impactos necessitam ser considerados para contextualizar de modo mais específico o problema da pesquisa: o surgimento da identidade homossexual no Ocidente, a produção de conhecimento científico acerca do tema, a eclosão de movimentos de libertação homossexual, a emergência da AIDS e o “boom” dos homossexuais como mercado de consumo.

Assim, é preciso reconhecer que discorrer sobre a contemporaneidade, embora seja fundamental para a compreensão do objeto da pesquisa, não é suficiente para contemplar o surgimento da categoria homossexual na arena social. É preciso relevar o processo da imposição de valores acerca de um comportamento sexual, destacando os fatores que atuaram na formação de uma idéia coletiva, de um significado social, acerca da homossexualidade, a fim de compreender melhor o contexto no qual os indivíduos estão inseridos. O preconceito é um elemento que merece destaque na composição do contexto em questão.

Segundo Gaines e Reed, segregação, preconceito e discriminação “refletem a emergência histórica de comportamentos e sistemas de crença específicos que equacionam diferenças físicas e culturais com bondade ou maldade dentro da espécie humana” (Gaines e Reed apud Nunan, 2003, p. 59). Ou seja, de acordo com esses os autores, os elementos citados são também construídos histórica e socialmente. O preconceito, por sua vez, está relacionado ao estereótipo, um tipo específico de generalização.

Segundo Goffman (1975), “a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias” (Goffman, Ibid., p. 11). Essas categorizações, por definição generalizantes, são, segundo Goffman transformadas “em expectativas normativas, ou seja, exigências apresentadas de modo rigoroso” (Goffman, Ibid, p.12). A partir dessas considerações, Goffman passa a falar em estereótipo e, mais especialmente, em estigma, quando o estereótipo encerra atributos desvalorizados e que podem levar ao descrédito individual. Vale ressaltar que, neste sentido, Goffman (1975) chama a atenção de para o fato de que o estigma tem a ver com uma linguagem de relações e não de atributos. Ou seja, que em si qualquer atributo não é honroso ou desonroso. Por exemplo, é possível ostentar com tranquilidade uma identidade homossexual, apesar da existência do estigma, a depender de fatores como renda, emprego, escolaridade, residência, aceitação familiar, etc. Essa consideração só faz comprovar o caráter relacional do estigma e o fato de que ele não existe de forma independente e isolada.

Goffman (19750 define estigma como “um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo” (Goffman, Ibid., p. 13), identificando três tipos principais: os que chama de abominações do corpo (as várias deformidades físicas), os “estigmas tribais de raça, nação e religião” (Goffman, Ibid., p.14) e finalmente, “as culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidades” (Goffman, Ibid., p.14), dentre as quais classifica a homossexualidade, ao lado de distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, desemprego, tentativas de suicídio, e comportamento político radical.

Segundo Goffman (1975), qualquer estigma possui a mesma característica sociológica:

“um indivíduo que poderia ser facilmente recebido na relação social quotidiana possui um traço que pode impor-se à atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para com outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma característica diferente da que havíamos previsto” (Goffman, Ibid., p. 14).

Categorizando negativamente um determinado indivíduo, segundo Goffman “tendemos a inferir uma série de imperfeições, a partir da imperfeição original”. (Goffman, Ibid., p.15).

Essa questão tem a ver com a relação entre a identidade social virtual, que é uma caracterização antecipada, uma imputação, e a identidade social real, que diz respeito aos atributos que o indivíduo possui. Esse ponto é bem interessante, pois, se nos encontros sociais em geral uma “normalidade” é presumida, o mesmo acontece com a heterossexualidade, que funciona como norma para orientar a conduta sexual dos indivíduos. Uma característica da heterossexualidade é que ela é tomada como evidente: a priori não se costuma pensar que nenhum indivíduo seja homossexual, a menos que hajam pistas neste sentido. Outro ponto a considerar é que indivíduos cuja preferência sexual está dentro do padrão, em geral, não costumam problematizar sua identidade sexual, visto estar em consonância com o esperado. O indivíduo heterossexual dificilmente terá alguma crise de identidade por conta deste fato ou vai tentar ou querer ser homossexual, por exemplo, visto que a heterossexualidade é aceita, cotidianamente, como “natural”.

Em geral, indivíduos estigmatizados/estigmatizáveis temem enfrentar o fato de que podem passar a ser definidos em “termos de seu estigma”, ou seja, que o seu todo seja tomado pela parte que é carregada de negatividade, o que pode comprometer a sua identidade em geral. Neste sentido, Goffman cita exemplos sobre erros ou enganos ocasionais que passam a ser interpretados como uma “expressão direta do seu atributo diferencial estigmatizado” (Goffman, 1975, p. 24). O autor afirma que, entre indivíduos estigmatizados há uma discrepância entre a identidade social virtual e real dos indivíduos, e que quando essa discrepância é “conhecida ou manifesta”, caso do desacreditado, “estraga sua identidade social” (Goffman, Ibid., p. 28). Entretanto, quando a diferença não é previamente conhecida ou imediatamente aparente, está falando no desacreditável, o que traz outras nuances ao problema da manipulação da identidade.

Assim, o termo estigma tem dupla perspectiva: a do desacreditado e a do desacreditável. O desacreditado é aquele estigmatizado cujo “defeito”, é evidente, ou seja, pode ser percebido a partir do contato sensível direto (é visível ou notório). No caso do desacreditável o estigma não é tão evidente. Essa é a categoria de estigmatizados em que se pode, de forma geral, enquadrar o homossexual. Para Goffman, a questão social do estigma, no caso do estigmatizado desacreditável, não é tanto

“a manipulação da tensão gerada durante os contatos sociais e sim, da manipulação da informação sobre o seu defeito. Exibi-lo ou ocultá-lo, contá-lo ou não contá-lo, revelá-lo ou escondê-lo, mentir ou não mentir; e, em todo caso, para quem, quando como e onde”. (Goffman, 1975, p. 51)

Ao falar em desacreditável, portanto, Goffman (1975) levanta a possibilidade de encobrimento, ou seja, da opção de não externalizar o pertencimento a uma categoria desprestigiada. A manipulação da informação referente ao estigma, segundo Goffman, é “uma ramificação de algo básico em nossa sociedade, ou seja, a estereotipia, ou o “perfil” de nossas expectativas normativas em relação à conduta e o caráter” (Goffman, 1975, 61), compreendidas como relacionadas a determinadas categorias e não a outras. Sobre essa questão da manipulação do estigma, embora a estereotipia seja mais comumente relacionada aos relacionamentos impessoais, certas categorias de desacreditáveis, como os homossexuais, por exemplo, muitas vezes preocupam-se mais agudamente em esconder esta característica de entes próximos, como os pais.

Goffman (1975) então sugere que:

“ao invés, então, de pensar num continuum de relações, com o tratamento categórico e encobridor num extremo da escala e o tratamento particularístico e aberto no outro, talvez seja melhor pensar em várias estruturas nas quais os contatos se produzem e se estabilizam – rua com pessoas estranhas, as relações de serviço superficiais, o lugar de trabalho, a vizinhança o cenário doméstico – e ver que, em cada caso, é provável que ocorram discrepâncias características entre a identidade social real e, e que se realizem esforços, também característicos, para manipular a informação ” (Goffman, Ibid., p. 65)

Como visto, se o estigma do homossexual não é visível, a desvantagem social que este pode trazer pode ser driblada ao se esconder esta característica. Neste sentido, a questão do espaço torna-se extremamente importante, vez que a expressão do que Goffman (1975) chama de identidade deteriorada guarda relação com esses. Esse ponto remete não somente à questão dos guetos mas também à questão acerca do lugar que a homossexualidade ocupa na vida dos indivíduos. Neste ponto, a problemática da identidade sexual cruza-se com a relacionada ao estigma. Cabe, portanto, algum esclarecimento acerca do que representa a identidade sexual para o indivíduo situado no contexto da sociedade ocidental.

Segundo Brandão (2002, em ), a identidade sexual “é entendida no sentido de uma predisposição em termos de preferência exclusiva por determinado objeto sexual, que se constituiria como elemento fundamental da construção da identidade para o próprio sujeito.” (Brandão, 2002, Ibid.). A importância da identidade sexual advém, como explica Brandão, do fato desta ser compreendida como elemento essencial da identidade dos sujeitos. Entretanto, está antes relacionada com o fato da divisão binária dos sexos ser um dos pilares da configuração da sociedade, visto que é a partir dela que a socialização dos indivíduos é definida, assim como os papéis considerados adequados para homens e mulheres.

A identidade sexual é uma construção social referenciada numa diferença específica – entre o macho e a fêmea – a qual é apropriada, entre tantas diferenças existentes entre os seres humanos, para separar os indivíduos em duas grandes categorias sociais. A diferença corporal que distingue homens e mulheres é compreendida como um fato natural básico que origina, entre outras coisas, diferentes e complementares temperamentos, aptidões e aspirações, além da orientação sexual.

Assim, a identidade sexual está relacionada ao gênero, que é justamente a categorização social engendrada em torno dessa diferença fisiológica específica e, como visto, se funda numa diferença corporal, no corpo que possui um sexo e congrega um conjunto de características que supostamente derivam deste fato. Estudiosos do tema procuram evidenciar que esta forma de diferenciação, antes que no corpo, tem fundamento político, estando entrelaçada com estratégias de poder. Ou seja, que embora a masculinidade e a feminilidade sejam, no âmbito mais geral, compreendidas como uma essência ou como atributos de caráter atemporal e inato, na verdade são valores sociais que estruturam o gênero e não o corpo ou predisposições biológicas, afinal, a própria noção de natureza é uma construção cultural.

A classificação de gênero deixa evidente uma expectativa social, de caráter normativo, e encerra também considerações em relação ao desejo sexual e à sua expressão. Neste sentido, pressupõe-se e prescreve-se que o objeto do desejo sexual / afetividade do macho seja a fêmea e vice-versa. Sob esta ótica, o homossexual é considerado desviante, visto que quebra com um padrão compreendido como essencial. É neste ponto que torna-se possível conjugar as considerações de gênero com as explicações de Goffman (1975) sobre a estereotipia, que ele define como um perfil das expectativas normativas em relação à conduta e ao caráter dos indivíduos. Assim, o gênero pode ser compreendido como um modelo para orientar condutas individuais também em relação à orientação sexual, algo que, como visto, é um importante componente da identidade social dos indivíduos.

A compreensão do gênero como estereótipo, entretanto, vem perdendo espaço mediante as consideração de que as mudanças históricas trouxeram a relativização dos modelos tradicionais de masculinidade e feminilidade. Quanto a isso, é certamente inegável que houve uma ampliação dos papéis de gênero, mas é também inegável que ainda persistem certas normas e que talvez seja mais adequado falar em modelos, no plural, antes que em modelo, no singular. Por conta de questões como essas e para destacar a dimensão da atuação dos indivíduos, alguns estudiosos propõem a consideração do caráter performativo do gênero, uma abordagem que vêm ganhando contínua relevância por evidenciar a descontinuidade que permeia a relação entre corpo, sexo e gênero . Compreender o gênero como performance implica considerá-lo ação, como atualização contínua, o que evidencia tanto a sua incompletude quanto o seu caráter estilizado. Entretanto, esta forma de compreensão tampouco desautoriza a consideração de que o componente de estereotipia ainda persiste, afinal, as generalizações são elementos presentes, de forma ampla, nas relações sociais, sendo uma forma de agilizar os relacionamentos e a tomada de decisões no curso da vida cotidiana, portanto não poderiam estar ausentes na esfera do gênero.

NÓS, HOMOSSEXUAIS ? (OU: NOS VEMOS NA PARADA)

A partir do que foi exposto torna-se possível constatar que, da perspectiva da atribuição existe, sim, um “eles”. E certamente, a forma como esse “eles” vem sendo historicamente definido faz parte do contexto de constituição da identidade de indivíduos homoeroticamente inclinados, visto que a concepção sociológica de identidade vê esta como produto da interação do indivíduo com o contexto que o rodeia, o que inclui, logicamente, as idéias coletivas predominantes acerca de determinados comportamentos, hábitos, etc. neste sentido, a idéia coletiva construída acerca da homossexualidade, como visto, têm tido conteúdo predominantemente negativo.

O estudo do tema identidade trata, antes que de qualquer outra coisa, da relação entre objetividade e subjetividade. Retornando a George H. Mead (1972), expoente da visão que concebe a formação da identidade a partir da interação do indivíduo com a sociedade, esta relação seria circular, pois para este autor o ser não é somente o que é comum a todos, embora não possa ser a si mesmo a menos que faça parte de uma comunidade. Desta forma, “a identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o interior e o exterior – entre o mundo pessoal e o mundo público” (Hall, 2000, p. 11).

Colocar a questão em termos de uma relação entre subjetividade e objetividade implica, por sua vez, em considerar o contexto, para compreender a questão da identidade: “O fato de que projetamos a nós próprios nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-os parte de nós, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural” (Hall, Ibid., p. 12). O termo troca seria o mais acertado para definir esta relação, uma vez que Hall conclui que as identidades estabilizam a sociedade mas, também, são estabilizadas por essas. Hall também fala em identidade como um sentido de si, a partir do qual o indivíduo atua no mundo que o rodeia, de acordo com as regras e valores que apreendeu a partir do processo de socialização.

Segundo Brandão (2002, em ), “a identidade é social e culturalmente construída através de socializações sucessivas. Neste sentido, ela não é um atributo dado definitivamente na nascença mas resulta antes de processos de interação em que o eu e os outros que o rodeiam intervém dialeticamente” (Brandão, Ibid.), além do que “A construção das identidades não é, ela própria, alheia ao conjunto das representações existentes em cada sociedade ou às lutas que entre elas se estabelecem” (Brandão, Ibid.).

A partir das considerações efetuadas por Brandão (2002), torna-se possível concluir que a identidade além de não ser estática, possui também um sentido político, podendo-se concebê-la como um processo contínuo de diálogos entre o indivíduo e o ambiente onde está inserido, cujos limites, em ultima instância, seriam fornecidos pela sua experiência e pela compreensão que tem desta.

Voltando à questão específica da identidade homossexual, é preciso ressalvar que a dimensão da atribuição – a do “eles” – também começa a apresentar nuances, a partir das modificações ocorridas na sociedade contemporânea que culminaram na diversificação dos estilos de vida.

De qualquer forma, a pergunta que iniciou este tópico permanece, porém necessita ser modificada: é possível concluir que há uma identidade atribuída aos homossexuais, um “eles”, mas, e quanto à dimensão do reconhecimento, do indivíduo tanto se reconhecer como homossexual quanto como parte constitutiva de um grupo específico: será que existe também um “nós, homossexuais” ?

Conforme afirmação afetuada em momento anterior, as práticas homoeróticas, assim como as identificações relacionadas variam abundantemente: homossexuais e bissexuais do sexo feminino ou masculino – que podem ser assumidos ou não assumidos, identificados ou não com o que se concebe como cultura gay; bofes e transgêneros – categoria que subdivide-se em travestis, transformistas, drag queens e drag kings – são exemplos de categorizações e subcategorizações relacionadas à homossexualidade, e que procuram cristalizar diferentes formas de relacionar-se, viver e expressar essa qualidade.

Em relação ao assunto, por exemplo, os entrevistados dizem:

Gérson: “(…) tanto é que não existe um tipo só de gay”
Entrevistadora: você poderia… ?
Gérson: “te dou trezentas opções (…) vou dizer de uma forma, de tudo, tanto a nível sexual quanto a nível de comportamento… tem o gay que só gosta de… a nível sexual, né: tem o gay que é só passivo, tem o gay que é só ativo, tem o gay que curte os dois, tem o gay que curte homem e mulher, tem o gay que só curte homem, tem o gay que de vez em quando curte mulher mas curte mais homem, tem o que só curte mulher mas de vez em quando curte homem …”

Fábio: “(…) existem vários estilos gays (E: ah) como existem vários estilos hetero.”

Sofia: “ (…) tem gay porra louca da Vila Madalena, tem gay moderno, tem o gay dos Jardins”

Vinícius: “… é igual à variação que tem no mundo hetero, assim, entendeu. Tem o grupo dos mauricinhos também tem os gays mauricinhos. Acho que tem o grupo dos malhados, dos pitboys, como tem as barbies. Tem as bichas intelectuais, que não freqüentam muito a noite gay…”

Este ponto é bem interessante pois se existe, como afirmam os entrevistados e comprova a observação, tanta variedade na forma de vivenciar (e expressar) a homossexualidade, é possível afirmar que os indivíduos que se reconhecem homossexuais, ao mesmo tempo em que procuram socializar-se com outros homossexuais, até mesmo para proteger-se de retaliações possíveis de acontecer no âmbito geral, irão se referenciar, além da homossexualidade, em outros elementos para a identificação com outros homossexuais, dando origem, assim, a subgrupos.

É interessante notar que, atualmente, a tentativa de constituir uma comunidade a partir da homossexualidade procura contemplar a diversidade de comportamentos e identificações existentes, tanto que é simbolizada pelo arco íris. A Parada do Orgulho Gay, cuja denominação passou a ser Parada GLBT – sigla formada pelas iniciais das palavras Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros – é interessante, neste sentido, por representar uma compreensão de que, apesar das tantas diferenças entre os indivíduos homoeroticamente inclinados, todos, em alguma instância, dialogam com um mesmo contexto, de opressão histórica e preconceito. Em maio de 2005, quase dois milhões de pessoas participaram da Parada GLBT de São Paulo, entre bissexuais, gays, lésbicas, transgêneros, simpatizantes e curiosos. E é certo que muitos praticantes do homoerotismo não estiveram presentes por impossibilidade, medo, não-identificação ou até mesmo por discordância dos objetivos da Parada ou do seu caráter festivo.

Abordando a questão por outro ângulo, seria possível categorizar os indivíduos a partir de uma única dimensão da sua existência ? Stuart Hall (2000), por exemplo, afirma que o sujeito situado na sociedade contemporânea, que ele categoriza como pós-moderno, não é portador de uma identidade estável ou fixa, o que estaria de acordo com as mudanças sociais trazidas pela contemporaneidade : globalização, compressão espaço-temporal, etc. Mas, a despeito das considerações teóricas acerca do sujeito fragmentado, a militância, por exemplo, em geral opta por uma clara política de afirmação de identidade: prescreve assumir a homossexualidade, se engajar no combate ao preconceito e à desigualdade e batalhar por atendimento às necessidades específicas de uma comunidade constituída a partir da homossexualidade. E essa não é uma opção de atuação política exclusiva da militância homossexual mas dos movimentos de minorias, em geral: conclamar os indivíduos a visibilizar, afirmar e valorizar a diferença que é concebida negativamente, como modo de lutar contra a opressão da cultura dominante.

Mas, se para autores como Hall o sujeito, na contemporaneidade não é mais tido como unificado, caberia ainda, então, pensar em identidade homossexual ou pensar na homossexualidade como uma identidade ?

E se, por um lado, a dinâmica da sociedade pós-tradicional, onde a identidade não se configura em função da reprodução de padrões tradicionais rígidos, torna pertinente afirmar a qualidade, do sujeito contemporâneo, de não ser portador de uma identidade fixa, por outro lado a dinâmica da identidade deteriorada, conforme definida por Goffman (1975), aponta justamente para a possibilidade de redução da identidade do indivíduo à qualidade de portador de um atributo depreciativo. Como resolver tal impasse ?

Segundo Ortiz (1997), a discussão sobre identidade encontra-se “atravessada por uma certa obsessão ontológica. Seja na sua versão antropológica, seja na filosófica, ela é concebida como um ser, algo que verdadeiramente é, que possui um contorno preciso, podendo ser observada, delineada, ou determinada dessa ou daquela maneira” (Ortiz, Ibid., p. 77). O autor procura, então, lembrar que a identidade é uma categoria que não existe em si mesma, ou seja, não é algo concreto. Sobre esse aspecto, cita Levi Strauss: “a identidade é uma espécie de lugar virtual, o qual nos é indispensável para nos referirmos e explicarmos um certo número de coisas, mas que não possui, na verdade, existência real” (Levi Strauss Apud Ortiz, Ibid., p. 79).

Segundo Ortiz (1997), identidade é uma construção simbólica a partir de um referencial (Ortiz, Ibid., p. 79). Entretanto, “no seio da sociedade moderna, industrial ou pós-industrial, surge um leque de referentes que se atravessam, se chocam, se acomodam, organizando a vida dos homens” (Ortiz, Ibid., p. 89). Desta perspectiva, a homossexualidade pode ser concebida como um dentre os possíveis referentes que os indivíduos podem lançar mão. Entretanto, uma vez que a identidade sexual é compreendida na sociedade ocidental como ontologicamente estruturadora, é inegável que a sexualidade acaba se constituindo em uma questão relevante para o indivíduo que apresenta inclinações homoeróticas / homoafetivas, por conta do estigma. Deste modo, embora não seja possível negar o peso deste referente em particular, o fato é que este não é capaz de garantir uma “solda” existencial. Assim, o que essas questões deixam em cheque é a própria concepção de identidade, seus aspectos políticos e usos. Neste sentido, Stuart Hall (2000) indaga, no título de um artigo, “Quem precisa da identidade ?”

Assim, talvez seja mais adequado deixar essa questão do “nós” em aberto, visto que não faz parte dos objetivos do trabalho investigar a questão específica de como ou porquê algumas pessoas se identificam predominantemente como homossexuais, sustentam essa identidade e constituem grupos a partir desta identificação – enquanto outras não. Para os objetivos do trabalho basta, e é seguramente válido, como estratégia metodológica, caracterizar os indivíduos como homossexuais a partir do seu próprio reconhecimento e deste modo circunscrever / dar certo contorno a um grupo. Para além dessa estratégia de estudo, o que resta é sair um pouco da especificidade de uma determinada identidade e partir para discutir a questão da identidade em geral: sair do mundinho e ir “pro mundo” como disse ter feito um conhecido transformista. Vale a pena contar essa história.

Ela estava sentada na área de convivência, durante um intervalo entre os desfiles de um evento de moda promovido por um Shopping de Salvador, em setembro de 2003, quando resolvi abordá-la como uma fã. Comentei que havia assistido à peça em que havia atuado, elogiei seu trabalho, etc. Estávamos ambas apreciando a pista de dança quando lhe perguntei o que pensava sobre a vida homossexual na atualidade, se havia melhorado, etc. Ela, que já é uma senhora, me respondeu que sim, as coisas haviam mudado / melhorado bastante. Então perguntei se antes era muito diferente, pior ou mais difícil para as pessoas expressarem essa qualidade e também o que achava do universo homossexual. Foi quando ela me disse que sempre fora uma pessoa educada, apta a frequentar qualquer tipo de lugar, até que por fim concluiu que não saberia responder porque: “eu nunca quis ficar no mundinho. Eu saí e fui pro mundo”.

Assim, é importante ressaltar que, embora o trabalho tenha interesse em focalizar a homossexualidade como elemento constitutor de grupos, estilos de vida e identidade, talvez não seja possível, como visto, estabelecer uma conceitualização acabada e definitiva acerca da identidade homossexual. Para tentar responder às questões colocadas, parece mais frutífero concentrar a investigação nas peculiaridades de um agrupamento voluntário que tem como base de sua formação a sexualidade voltada para indivíduos do mesmo sexo. Neste sentido, um evento como o Bonequinha de Luxo, selecionado como principal lócus de pesquisa, revela-se perfeitamente adequado, por ser constituído a partir de uma iniciativa de indivíduos homossexuais que se reconhecem como tais, e que por conta deste fato, procuraram criar um contexto específico de encontros, onde podem expressar sua versão de pertencimento a este universo.

Sobre o contexto onde se dá a configuração da identidade homossexual, abordada até o momento sob a perspectiva da sociedade em geral, outra dimensão a ser levada em conta diz respeito à formação de uma cultura específica. Conforme exposto, a homossexualidade possui aspectos que vão além da preferência sexual, e pode ser vista também, neste sentido, como elemento configurador de uma cultura particular. Neste sentido, entende-se que não é possível esgotar a compreensão da homossexualidade na nomeação de práticas homoeróticas / homoafetivas, sendo preciso perceber também a compreensão de seu aspecto de “modus vivendi”. E mesmo que certos indivíduos homoeroticamente inclinados o desfrutem clandestinamente ou até mesmo manifestem por este alguma rejeição, uma forma de viver configurada a partir da sexualidade orientada para o mesmo sexo, um estilo de vida, definição que parece adequada para tratar um aglomerado de pessoas dos mais diferentes backgrounds, que não possuem laços como os consaguinidade ou vizinhança, mas que, no entanto, formam um grupo que se reconhece e que também é passível de ser reconhecido a partir do olhar externo, apesar da diversidade e das diferenças e contradições internas, que este trabalho, inclusive, busca evidenciar.

A cultura homossexual pode ser compreendida como um conjunto de códigos, práticas, locais e gostos, por exemplo, associados aos homossexuais e compartilhados por esses. Esse conjunto vem adquirindo, além de visibilidade, nítido contorno, passando a ter alguns de seus elementos adotados até mesmo por alguns heterossexuais – o fenômeno do metrossexual exemplifica muito bem este último aspecto, assim como a criação da categoria “Simpatizante”.

Por compartilhar uma característica compreendida como comum – no caso, a homossexualidade – algumas pessoas se aproximam, elegem determinados espaços para frequentar, passam a usar certas gírias, tipos e marcas de roupas, adotam modos específicos de dançar e se comunicar, consagrando assim práticas distintas. Ou seja, por conta do que se compreende como uma similaridade, as pessoas constróem ou adotam determinados costumes que passam a ser relacionados a um particular universo, criado / consagrado a partir de alguma afinidade. Esses costumes / soluções acabam se amalgamando, configurando-se como uma cultura, onde códigos de caráter mais restrito passam a expressar afinidade e pertencimento, através de, por exemplo, preferências estéticas compartilhadas que passam, por sua vez, também a remeter ao agrupamento específico de onde foram originadas, adquirindo a propriedade de indicar a adesão ao estilo de vida a esta associado. Na contemporaneidade, a mídia é também um elemento que ajuda a plasmar a profusão de itens dispersos em algo definido, formando um conceito fechado.

Falar em cultura homossexual implica aceitar que existem características e modos de vida relacionados aos homossexuais. Em torno da preferência afetiva / sexual pelo mesmo sexo, constituíram-se, como visto, estratégias, consagraram-se hábitos, códigos e soluções comuns, componentes associados em um todo identificado com a vivência e a expressão da homossexualidade. Ao que se está chamando de cultura homossexual, certamente os indivíduos homoeroticamente inclinados podem optar ou não por aderir. Neste sentido, assim como existem aqueles que se reconhecem como homossexuais, existem homossexuais que embora, por vezes, não rejeitem sua homossexualidade, por outro lado se recusam a rotular-se como homossexuais por considerarem o termo limitante, por exemplo. Outros podem recusar-se a compartilhar do que se consagrou como cultura homossexual, caso de um estudante da área de Ciências Humanas que certa vez fez questão de frisar que não gosta “dessas bichas brancas de boate”. Entretanto, por meio dessa rejeição, o que acaba se confirmando é que certas práticas – no caso específico do estudante seria o costume, refutado por ele, de frequentar boates – são recorrentes no meio homossexual, além de tidas, neste sentido, como características deste. Ou seja, são socialmente reconhecidas como relacionadas a este universo em particular.

Para finalizar, o que se pretendia evidenciar neste tópico é que da perspectiva da lógica social vigente em boa parte do Ocidente, gênero, sexualidade e identidade estão claramente relacionados, embora certamente não derivem de nenhuma essência comum. Assim, a diversidade de expressão da sexualidade antes de evidenciar a existência de anomalias ou desajustes, revela a limitação dos modelos de classificação social, assim como as estratégias de poder envolvidas nessas classificações. Para concluir esta parte, sobre a questão específica da identidade homossexual, o que se pode afirmar é que a prática do homoerotismo não implica necessariamente em reconhecimento. Outra afirmação possível refere-se à presença do estigma que acompanha a homossexualidade, um fato inegável que certamente se constitui em elemento relevante no processo de reconhecimento ou rejeição desta identificação. Este ponto tem a ver tanto com o fato da identidade sexual ser compreendida como ontologicamente estruturadora quanto com a dinâmica do estigma, pois, se a identidade sexual é concebida como fundamental, é certamente difícil que alguém que transita pelos meandros da homossexualidade consiga abandonar esta identificação com a mesma tranquilidade de quem tira um boné e uma camisa de algum time de basquete americano tamanho extra-largo após um show de Hip Hop, por exemplo. Entretanto, não se pode afirmar categoricamente que isso seria algo impossível de acontecer.

Por fim, mesmo que se compartilhe da compreensão de que a identidade sexual, assim como a de gênero, constitui apenas um dos aspectos da identidade geral dos indivíduos, por conta do objeto e dos objetivos do presente trabalho, tal dimensão acabou adquirindo, aqui, interesse central.

Antes de passar adiante, é necessário fazer aqui um aparte, para que o privilégio dado ao mercado, neste trabalho, não obscureça a importância daqueles que procuraram combater as injustiças contra os homossexuais, muitas vezes cometidas pelas próprias autoridades, sendo imprescindível destacar a luta da militância.

Se o homossexual surge como categoria na ciência ocidental no fim do século XIX – Foucault data situa este surgimento no ano de 1870 (Foucault, 1985, p. 43) – os, assim definidos, homossexuais acabarão por se apropriar de tal categorização na procura por reverter a negatividade inscrita na identidade relacionada a esta sexualidade. Segundo Fry e Mc Rae (1983), a estigmatização não foi suficiente para inibir uma minoria que lutou publicamente contra o preconceito. No livro “O que é homossexualidade”, dos citados autores, por exemplo, o capítulo “Nasce uma estrela ou o surgimento da consciência homossexual” é inteiramente dedicado à recuperação histórica da trajetória internacional da militância (Fry & Mc Rae, 1983).

No livro Devassos no Paraíso, João Silvério Trevisan (2002) procurou traçar uma história da homossexualidade no Brasil, onde destaca, como marcos da vida homossexual nacional, a edição do Jornal Lampião, em 1978 e a criação do grupo Somos, em São Paulo, no ano de 1979. Nesta obra, embora remeta-se a uma sucessão de acontecimentos desde a época colonial, é nos anos 70 que identifica o que chama de desbunde “guei”. Para fortalecer seu ponto de vista remete-se especialmente à esfera da arte e da mídia, poderosas fontes de referência na época contemporânea, destacando também a contracultura, além das mudanças sociais significativas, consequentes do processo de industrialização e urbanização que ganhou força a partir dos anos 50.

Terto Jr. (Em tese de doutorado recebida pela internet) também concorda que é a partir dos anos 70 que os homossexuais brasileiros começam efetivamente

“a falar desde um lugar social e politicamente constituído, dando lugar a outros significados que não dizem respeito apenas às práticas sexuais, ao desvio, à doença, aos submundos exóticos e à marginalidade e sim à cidadania, direitos humanos, liberação e afirmação da identidade homossexual” (Terto Jr., Ibid.).

Segundo o mesmo autor surge, nesta época, o gay, que concebe como aquele que

“se assume, se define socialmente como homossexual, é consciente de sua condição social, libera-se de preconceitos e rompe com modelos hierárquicos opressivos, principalmente aqueles machistas, que organizam a homossexualidade em termos de atividade/ passividade” (Kosofsky-Sedwick apud Terto Jr. Ibid.)

Pesquisadores como Richard Parker (1992) identificaram no contexto brasileiro a predominância de um modelo de relacionamento homossexual em tais bases, sendo que a homossexualidade seria a qualidade atribuída ao indivíduo que assume o papel de passivo na relação sexual. Segundo Terto Jr. (Em tese de doutorado recebida pela internet), em oposição a este modelo dicotômico identificado por Parker (1992), o homossexual que chama de “gay” seguiria uma tendência internacional, de valorização da homossexualidade como estilo de vida e da procura de relacionamentos em moldes igualitários. Segundo o autor, esta atitude teria sido adotada primeiramente pelas vanguardas urbanas e tendo sido logo depois propagada para o resto da sociedade pelas organizações de militância. Assim, outros estilos de homossexualidade começam a ganhar destaque e reconhecimento.

Seguindo uma tendência internacional, os “gays” irão procurar diferenciação “não mais através de interesse políticos específicos e valores comuns mas através da rejeição e não identificação com tudo que fosse negativo ou que pudesse comprometer essa nova identidade” (Terto Jr. Em tese de doutorado recebida pela internet). Com isso, segundo Terto Jr., “perde-se o espírito de solidariedade e convivência inicialmente articulada com outros grupos e populações marginalizadas e oprimidas, inclusive daqueles mais pobres” (Terto Jr, Ibid.). O objetivo passa a ser a visibilidade positiva e a imposição de “outras representações da homossexualidade” em contraposição à limitação representada pelo estigma.

Neste momento, a oferta de serviços e os estabelecimentos específicos começam a proliferar, e tornam-se, de acordo com Terto Jr. (Em tese de doutorado recebida pela internet), mais caros e afastados dos centros das cidades, dificultando o acesso por parte dos mais pobres. Este autor avalia que o consumo provocou, por um lado, uma aglutinação, por outro, acentuou “conflitos de classe historicamente enraizados na sociedade brasileira” (Terto Jr. Ibid.). Toda esta “movimentação política, cultural e econômica ampliou a visibilidade, a produção e circulação de informações sobre a homossexualidade e apontavam para novas e diferentes possibilidades de vivenciar desejos e estilos de vida homossexuais”. (Terto Jr. Ibid.). Interessante, neste sentido, é a afirmação de que “esta variabilidade nas formas de tornar-se homossexual terminava por contrapor a perspectiva essencialista de que a homossexualidade seria uma unidade trans-histórica estável, universal e determinada pela herança genética dos indivíduos”(Mac Rae, 1990, apud Terto Jr. Ibid)

Com base nas afirmações de Terto Jr. (em tese de doutorado recebida pela internet), parece possível afirmar que, nesta época, a militância e o consumo acenavam com duas diferentes formas de afirmação de identidade homossexual. Embora não possam ser vistas exatamente como incompatíveis, a proposta da militância seria pela igualdade, enquanto a proposição do consumo seria distinção.

No inicio da década de oitenta do século passado ocorreu o I Encontro Brasileiro de Grupos Homossexuais Organizados, em São Paulo, reunindo grupos de todo o país – que a esta altura somavam nove, no total, segundo Trevisan (2002). Para Terto Jr. (Em tese de doutorado recebida pela internet), tal fato representa a institucionalização do movimento homossexual nacional e sua inserção no cenário dos movimentos de minoria. Terto Jr. (Ibid.) diz que esta década é marcada também pelas primeiras candidaturas homossexuais a cargos eletivos.

A despeito desta oportunidade, entretanto, rusgas internas acabaram por enfraquecer a unidade de alguns grupos, na medida em que emergiam conflitos por conta de machismo, racismo e desigualdades de classes. Dissidências surgiam, organizando-se em torno de especificidades ainda mais específicas. Se por um lado isso trazia certa desmobilização e fragmentação, por outro, multiplicava os grupos.

É o advento da AIDS, também ocorrido nos anos oitenta, que viria a promover um novo e intenso impulso para a organização e mobilização homossexual. Este fator fomentou não somente a mobilização dos grupos já constituídos mas a própria constituição de novos grupos, organizados no sentido de deter a epidemia. E se alguns grupos começaram a entrar em conflito, por conta de diferenças internas que favoreceram cisões, a AIDS fez com que voltassem a unir-se em torno de um objetivo comum, sendo que “as ações e a mobilização de grupos organizados foram fundamentais para a constituição da resposta comunitária à epidemia” (Terto Jr. Em tese de doutorado recebida pela internet)

Neste sentido, sobre a atuação da militância homossexual em relação à AIDS, o ministro da saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso, cujo programa de saúde foi reconhecido como modelo em relação à doença, em entrevista, na qualidade de candidato a prefeito de São Paulo nas eleições 2004, afirmou:

“quero dizer a você que, se fizemos a campanha da AIDS que fizemos, isso se deve em grande medida às ONGs, em boa parte comandada pelos homossexuais. Isso eu sempre disse. As vezes você está no governo, chefiando, é o responsável e acaba levando os louros, mas a gente sabe perfeitamente quem é que fez de fato: foram eles” (José Serra em http://www.mixbrasil.com.br, seção Central de Notícias, acesso em 30-09-2004)

Segundo Terto Jr. (Em tese de doutorado recebida pela internet), inicialmente as atitudes das organizações foram ambíguas pois enquanto umas procuraram ignorar os fatos para evitar o reforço da associação da AIDS com a homossexualidade, outros setores do movimento procuraram dialogar com os agentes governamentais de saúde, para promover trabalhos de conscientização e prevenção. Por outro lado, ainda no sentido das consequências trazidas pela AIDS, Trevisan (2002) chama a atenção para a restrição da ótica e redução da perspectiva da atuação do movimento homossexual, ao se engajar na luta contra a doença. (Trevisan, Ibid., p 370). Outra questão que surge, a esta altura, diz respeito à competição que se instaura entre alguns grupos, por conta de disputa pelas verbas disponibilizadas para a prevenção da AIDS (Trevisan, 2002, p. 370).

Terto Jr. (Em tese de doutorado recebida pela internet) diz que apesar de iniciarem os movimentos de reação à epidemia, não são os grupos homossexuais já constituídos que dão continuidade ao processo, mas ONGs que passam a ser criadas com este propósito específico, muitas delas encabeçadas por homossexuais e pessoas ligadas ao movimento, embora sua política de prevenção, de maneira geral, procurasse incluir toda a sociedade e não apenas a comunidade homossexual.

O empréstimo do Banco Mundial para o programa da AIDS foi um importante fato ocorrido na década de 90, disponibilizando fundos para prevenção da doença entre homossexuais. Assim, o Ministério da Saúde passa a implantar, com a ajuda das ONGs/AIDS, projetos de prevenção especificamente destinados aos homossexuais. Esse fato, é muito importante pois sinaliza um raro movimento de reconhecimento da cidadania desses indivíduos, por parte do governo.

A partir dessas informações, pode-se vislumbrar outra dimensão de consequências da AIDS, como o favorecimento da mobilização homossexual e a atuação de grupos assim constituídos em conjunto com a esfera do poder oficial, fato que pode ser considerado como uma forma de reconhecimento. Outra conseqüência foi provocar “o rompimento de silêncios a exposição das práticas homossexuais” (Pollak apud Terto Jr. Em tese de doutorado recebida pela internet). Sobre isso, Terto Jr. diz que “a quantidade de pesquisas realizadas sobre as práticas e comportamentos homossexuais já desmistificaram a homossexualidade o suficiente para colocar à luz o que antes era domínio dos segredos” (Terto Jr. Ibid.). Continua o autor: “a AIDS trouxe a tona práticas sexuais geralmente condenadas por várias sociedades, entre elas as práticas sexuais entre homens e ampliou a visibilidade sobre comportamentos e estilos de vida homossexuais, que passaram a ser discutidos em mais e diferentes instâncias da vida social” (Terto Jr. Ibid.).

Segundo Terto Jr., “a história coletiva da homossexualidade nos últimos anos está fortemente marcada pela AIDS” (Terto Jr. Em tese de doutorado recebida pela internet.). Sobre este ponto, é interessante avaliar que a associação da AIDS, no começo chamada de peste gay, com a homossexualidade provocou, inicialmente, o reforço de preconceitos . Entretanto, conforme relatado, trouxe também a mobilização, a articulação e visibilização dos homossexuais, favorecendo imposição da idéia da existência de uma comunidade, com anseios e necessidades próprias, colocando a questão homossexual na pauta política geral. E este processo continua, segundo Terto Jr. (Ibid.), vez que “a mobilização em torno da AIDS e de suas conseqüências vem favorecendo o reforço e a emergência de comunidades homossexuais em diversos países” (Terto Jr. Ibid.)

Alguns autores vão ainda mais longe ao afirmar que a AIDS:

“por conta da insegurança em relação às recomendações de sexo seguro, como às contradições e imprecisões nos discursos científicos e a busca de recursos para poder administrar todas as questões que a epidemia impõe” foi um fator de aglutinação da população homossexual, “tanto ou mais do que questões relacionadas à busca ou afirmação de uma identidade gay” (Pollak e Carricaburu & Pierret APUD Terto Jr. Em tese de doutorado recebida pela internet.)

Todos esses fatos permitem concluir que a AIDS, a despeito de todas as polêmicas e da negatividade inicial que a acompanharam, constituiu-se em um dos fatores importantes na trajetória do estabelecimento de uma idéia social acerca da comunidade e da identidade homossexual.

A militância, por sua vez, continua ativa, seja procurando maneiras de lidar com a epidemia da AIDS ou batalhando pela legalização da união civil, combatendo a homofobia, etc. Infelizmente, os motivos para brigar não acabaram.

Avaliando a atuação do movimento homossexual organizado, Hocquenghem (1980) conclui que:

“após um século sobre os olhares do outro, as bichas inverteram brutalmente os dados do problema. É uma inversão que ocorre nas palavras: temos orgulho em ser homossexuais. Tomando ao pé da letra a etiqueta que um século psiquiátrico colou neles, como um segredo a ser mantido, os homossexuais movimentaram-se e desencadearam, juntamente com as feministas, uma notável perturbação silenciosa” (Hocquenghem, 1980, p. 09)

SOBRE SOCIEDADE / CULTURA DE CONSUMO

Na sociedade contemporânea cada vez mais se impõe a questão da proeminência de uma cultura de consumo. Mas o quê, exatamente, se quer dizer quando se empregam termos como cultura e sociedade de consumo ? Para auxiliar na reflexão sobre esta questão, os pontos de vista de Nestor Canclini (2001) e Mike Featherstone (1995) se revelam interessantes.

Dentre as abordagens teóricas do consumo, a visão da economia costuma pensar o consumo como o momento final do ciclo produtivo, ao qual está subordinado. Segundo Nestor Canclini (2001), esta forma de compreensão considera o consumo “como um momento do ciclo produtivo, sendo o lugar onde se completa o processo iniciado com a geração de produtos, em que se realiza a expansão do capital e se reproduz a força de trabalho” (Canclini, Ibid., p. 77). De acordo com tal perspectiva, o consumo “depende das grandes estruturas de administração do capital” (Canclini, Ibid., p. 77). Assim, nesta forma de compreensão, o consumo é pensado a partir do critério da racionalidade econômica, não sendo problematizado por si ou visto como portador de uma lógica própria.

A consideração pós-moderna do consumo como espaço de expressão da individualidade, além da determinação, algo que a “dispersão dos signos e da dificuldade de estabelecer códigos estáveis” (Canclini, 2001, p. 81) parece evidenciar, também não se mostra suficiente para uma compreensão dos variados aspectos relativos ao consumo, visto que mesmo em contextos modernos este “não é algo privado, atomizado, passivo” “mas sim eminentemente social, correlativo e ativo” (Appadurai apud Canclini, Ibid., p. 84)

Feathestone (1995) esclarece que, segundo a perspectiva clássica, a expansão capitalista demandou a construção de novos mercados e novas necessidades, o que inclui “a educação de novos públicos consumidores através da publicidade e da mídia” (Featherstone, Ibid., p. 32). De acordo com esta explicação a lógica da mercadoria é que guia o consumo e portanto, o que pode explicá-lo. Uma consequência da visão do consumo a partir desta perspectiva é a consideração do consumidor como um elemento passivo, sujeito aos desígnios do capital e à manipulação da mídia, cujo papel primordial seria educar as massas para a aquisição de bens convenientes ao desenvolvimento empresarial .

Douglas e Isherwood (2004) tecem várias criticas à abordagem econômica tradicional na obra “O mundo dos bens”. A economia tradicional, ao tratar elementos como o gosto, por exemplo, como um fator além da explicação teórica, também não consegue vislumbrar a dimensão cultural e política do consumo .

Canclini (2001) concorda em parte com a definição clássica do consumo mas lembra que este fator, ao qual chama de “racionalidade do tipo macrossocial, definida pelos grandes agentes econômicos” (Canclini, Ibid., p. 78) não é o único que modela o consumo, e identifica uma distorção: a superestimação da capacidade de influência das empresas, ao passo que é minimizada a dimensão dos consumidores.

Segundo Featherstone (1995), importantes autores partilharam deste ponto de vista, dentre os quais cita Karl Marx, os teóricos de Frankfurt e Baudrillard. O autor ressalva que este último, entretanto, fez um interessante acréscimo a esta concepção, ao “apoiar-se na semiologia para argumentar que o consumo apóia-se na manipulação ativa de signos” (Featherstone, Ibid., p. 33), assinalando a passagem de uma ênfase materialista “para uma ênfase cultural” (Feathestone, Ibid., p. 33).

De acordo com Featherstone (2001), o simbolismo introduzido por Baudrillard não se verifica somente no design e nas mensagens publicitárias: as “associações simbólicas das mercadorias podem ser utilizadas e renegociadas para enfatizar diferenças de estilos de vida, demarcando relações sociais” (Featherstone, Ibid., p. 35). Os objetos podem, assim, ser dotados de cargas simbólicas diferenciadas, de acordo com o grupo que os utiliza ou as situações de utilização. Esta perspectiva reforça a possibilidade de enfatizar a dimensão cultural, comunicacional, do consumo, tornando-se possível vislumbrar uma lógica do consumo, que aponta “para os modos socialmente estruturados de usar bens para demarcar relações sociais”. (Featherstone, Ibid., p. 35)

A respeito da consideração do critério econômico como objetivo, Canclini (2001) lembra que até mesmo o valor mercantil “não é uma coisa contida naturalmente nos objetos, mas é resultante das interações socioculturais em que os homens as usam” (Canclini, Ibid., p.90). De forma oportuna, o autor adverte que “os bens exercem várias funções, e que a mercantil é apenas uma delas” (Canclini, Ibid., p. 90). Douglas e Isherwood (2004) advertem que os bens são como símbolos visíveis de conceitos abstratos e, neste sentido, ancoram a racionalidade humana, não devendo ser tratados como meros acessórios transitórios, como ocorre em algumas análises econômicas. Com isso os autores querem chamar a atenção para o fato de que o significado dos bens vai além do seu valor monetário ou utilitário.

Em Cidadãos e Consumidores, Canclini (2001) fala do declínio das formas tradicionais de identidade na contemporaneidade, procurando evidenciar a qualidade de elemento aglutinador que possui o consumo. A dimensão cultural do consumo tem a ver com o potencial comunicador dos bens, que se evidencia, de forma flagrante, na sociedade de massa. Canclini pergunta “a que conjunto a participação numa sociedade construída predominantemente pelos processos globalizados de consumo nos faz pertencer ?” (Canclini, Ibid., p. 86). Segundo o autor, vivemos num tempo de “fraturas e heterogeneidade” (Canclini, Ibid., p. 85), em meio as quais “encontramos códigos que nos unificam ou ao menos permitem que nos entendamos” (Canclini, Ibid., p. 85). Entretanto, tais códigos são cada vez menos os da “etnia, da classe ou nação” (Canclini, Ibid., p. 86), estando cada vez mais estão relacionados aos estilos de vida – ao qual o consumo está estreitamente vinculado.

Não é recente a vinculação teórica do estilo de vida ao consumo. Já no texto “Classe,“Status”, Partido” de Max Weber (1974), os grupos de status eram definidos a partir dos estilos de vida, e esses últimos a partir do consumo. Na sociedade atual, urbana, anônima, midiatizada e cada vez mais compartimentada, a consolidação do estilo de vida não somente como aglutinador mas também como um comunicador do lugar social dos grupos alia-se a um sistema organizado de estímulo e pronto atendimento às necessidades de consumo. As implicâncias de tal situação se refletem, consequentemente, na problemática da identidade.

Falando da comunidade nacional na sociedade contemporânea, Canclini (2001) afirma que “a participação segmentada no consumo” “se torna o principal procedimento de identificação” (Canclini, Ibid., p. 87). Tal segmentação dos setores sociais não ocorre apenas no consumo ligado ao entretenimento mas também em relação a bens estratégicos, necessários para a tomada de decisões. É a partir deste ponto que o autor envereda pela discussão acerca dos media e seus conteúdos, levantando questionamentos que não serão desdobrados nesta oportunidade.

Canclini (2001) procura chamar a atenção para a existência de uma concepção, hegemônica, de mercado como lugar de troca de mercadorias. Entretanto, o autor o concebe “como parte de interações socioculturais mais complexas” (Canclini, Ibid., p. 90). Quanto ao consumo, este não envolve apenas a possessão individual de objetos isolados mas é antes “apropriação coletiva, em relação de solidariedade e distinção com outros, de bens que proporcionam satisfações biológicas e simbólicas, que servem para enviar e receber mensagens” (Canclini, Ibid., p. 90).

Para Featherstone (1995), usar a expressão cultura de consumo significa que “o mundo das mercadorias e seus princípios de estruturação são centrais para a compreensão da sociedade contemporânea” (Featherstone, Ibid., p. 121). Compartilhar deste ponto de vista pressupõe focalizar a dimensão cultural da economia bem como a simbolização e o uso de bens materiais como comunicadores e não apenas utilidades, além de focalizar a economia dos bens culturais e os princípios deste mercado, operando dentro da esfera dos estilos de vida, bens e mercadorias culturais.

A cultura de consumo é um fenômeno histórico, e gerou modos próprios de conduta. Segundo Featherstone, os valores pequeno-burgueses tradicionais, de um consumo ordeiro e conservador entram em choque com as novas noções pequeno-burguesas de consumo como lazer, e do lazer como um jogo criativo, da exploração emocional narcisista e da construção de relacionamentos. Diz o autor que os “novos heróis da cultura de consumo em vez de adotarem um estilo irrefletidamente por força da tradição transformam o estilo em um projeto de vida e manifestam sua individualidade e senso de estilo na especificidade do seu conjunto de bens e práticas” (Featherstone, 1995, p. 123). Suas propriedades serão, por sua vez, interpretadas e classificadas em termos de presença e falta de gosto. Na sociedade contemporânea, as normas do consumo adquirem um caráter mais expressivo e hedonista. Featherstone vai além e defende que na cultura de consumo vigora uma economia de prestigio, onde a obtenção de bens escassos demanda investimentos de tempo e dinheiro para “serem obtidos e manuseados adequadamente”. A preocupação das pessoas comuns com o estilo de vida é um fator que denota que o consumo não pode ser compreendido mediante concepção de valor de troca ou de cálculo racional instrumental. Featherstone (1995) diz que a cultura de consumo põe ambos na balança e assim torna-se possível falar em hedonismo calculista, no cálculo do efeito estilístico e por outro lado na estetização da dimensão racional instrumental mediante a promoção de um distanciamento estetizante.

É importante ressaltar que a posse material de determinados itens e sua utilização como fonte de prestígio social não é, entretanto, exclusiva do mundo atual. A diferença é o escopo que adquire tal mecanismo na sociedade contemporânea.

Para Canclini (2001) o consumo é um espaço que serve para pensar e onde se organiza grande parte da racionalidade econômica, sóciopolítica e psicológica nas sociedades (Canclini, ibid., p. 15). Para o autor, os homens intercambiam objetos para “satisfazer necessidades que fixamos culturalmente, para intergrarmo-nos com outros e nos distinguirmos de longe, para realizar desejos e para pensar nossa situação no mundo, para controlar o fluxo errático do desejo e dar-lhes constância ou segurança em instituições e rituais” (Canclini, Ibid., p. 91). Douglas e Isherwood (2004) também destacam a dimensão cultural do consumo, evocando o âmbito da identidade e das relações sociais quando afirma que “os bens são neutros, seus usos são sociais, podem ser usados como cercas ou pontes” (Douglas e Isherwood, Ibid., p. 36). Para esses autores, os bens “fazem parte de um sistema vivo de informações” (Douglas e Isherwood, Ibid., p. 34), ou seja, são comunicadores.

Essa forma de conceber o consumo abre espaço especialmente para a consideração da sua dimensão cultural, sua relação com os estilos de vida, seu papel na formação de comunidades, de identidade e no estabelecimento de estratégias de distinção, elementos centrais para a compreensão dos problemas postos pelo presente trabalho.

A FORMAÇÃO DE GRUPOS A PARTIR DO ESTILO DE VIDA E DO CONSUMO

A discussão acerca da relação do consumo com a identidade e a formação de grupos na contemporaneidade não estaria devidamente contemplada se não incluísse alguns aspectos relativos à globalização e à atuação da mídia / publicidade. Até o presente momento, por vezes foram utilizadas expressões como “sociedade contemporânea” “sociedade ocidental” ou “cultura ocidental”, sem que essas tivessem seu significado devidamente precisado, o que se pretende fazer neste momento. Certamente o uso de tais expressões pressupõe a existência de elementos que atravessam fronteiras regionais e nacionais para se estabelecer em nível global. Entretanto, defender a existência de um tipo de sociedade ou cultura de natureza mundial pode parecer uma imprudência, primeiro por conta da amplitude do seu escopo, algo que poderia inviabilizar a sua concepção como totalidade, e também por conta da idéia de homogeneização que pode vir aí embutida, inexistente até mesmo em grupos menores – algo que este trabalho, inclusive, procura evidenciar. Como sair deste impasse ?

Diz Ortiz (2000) que:

“seria impróprio falar em uma “cultura-mundo”, cujo nível hierárquico se situaria fora e acima das culturas nacionais ou locais. Raciocinar desta maneira seria estabelecer relações dicotômicas entre os diversos patamares (uma “cultura-mundo interagindo com esferas autonomizadas, local ou nacional”) promovendo a razão dualista em escala planetária (oposição entre cultura estrangeira X autóctone, Norte X Sul). O processo de mundialização é um fenômeno social total que permeia o conjunto de manifestações culturais. Para existir, ele deve se localizar, enraizar-se nas práticas cotidianas dos homens, sem o que seria uma expressão abstrata das relações sociais. Com a emergência de uma sociedade globalizada, a totalidade cultural remodela, portanto, sem a necessidade de raciocinarmos em termos sistêmicos, a “situação” na qual se encontravam as múltiplas particularidades” (Ortiz, Ibid., p. 30-31)

É assim, sem postular a eliminação de especificidades locais, que Ortiz (2000) defende a existência de uma lógica global que rege, em boa parte, diferentes sociedades do tipo capitalista. A possibilidade desse intercâmbio é dada, segundo o autor, não somente pela dimensão da economia e da tecnologia, mas, preponderantemente, pela esfera cultural. Esta é uma concepção interessante para os objetivos do presente trabalho, vez que, segundo as palavras do autor, “falar em cultura significa privilegiar uma instância social na qual as identidades são formuladas” (Ortiz, Ibid. p. 116).

Indubitavelmente, o progresso tecnológico compõe a condição material, infra-estrutural, para que a mundialização da cultura se configure. A disseminação do modo industrial de produção e os sucessivos avanços tecnológicos nas áreas de comunicação e transportes são fatores que possibilitaram a emergência de uma sociedade global. Mas é na dimensão cultural da globalização que Ortiz (2000) localiza a chave que torna efetivamente possível a integração em nível mundial, vez que esta proporciona o estabelecimento de um terreno comum para a compreensão de significados de extenso alcance.

Pensando a questão segundo a perspectiva proposta pelo autor, torna-se possível vislumbrar uma dimensão pouco evocada da globalização: a do processo de construção de uma lógica comum, que atravessa fronteiras e permite que a integração mundial se realize. Segundo Ortiz (Ortiz, 2000), uma cultura globalizada dá origem a um modelo cultural específico, que o autor qualifica como modernidade-mundo, capaz de estabelecer valores e padrões de legitimação generalizados.

À primeira vista, pode parecer que o autor está falando em homogeneização, entretanto, precavidamente, Ortiz (2000) sugere substituir essa idéia pela de nivelamento cultural, que, segundo ele, permite apreender o processo de convergência de hábitos culturais, preservando, porém, as diferenças entre os diversos níveis de vida. Ou seja, com o advento da globalização, o que ocorre é o estabelecimento de um patamar comum de compreensão entre indivíduos situados em sociedades do tipo industrial sem que, entretanto, necessariamente sejam destruídas especificidades regionais. O autor também chama a atenção para o fato de que este é um processo eminentemente contemporâneo.

Segundo Ortiz (2000),

“se entendermos por globalização da tecnologia e da economia a internacionalização das trocas, de produtos e de conhecimento, evidentemente não estamos diante de um fato original. O mesmo pode ser dito quando falamos da multinacionalização de empresas que operam em escala internacional” (Ortiz, Ibid., p. 15).

A globalização, nos termos propostos pelo autor, é um fenômeno recente, “uma forma mais avançada, e complexa, de internacionalização, implicando um certo grau de integração funcional entre as atividades econômicas dispersas” (Dicken apud Ortiz. Ibid., p. 15- 16). O conceito de globalização se aplica à

“produção, distribuição e consumo de bens e de serviços, organizados a partir de uma estratégia mundial, e voltada para um mercado mundial. Ele corresponde a um nível e a uma complexidade da história econômica, no qual as partes, antes inter-nacionais se fundem agora numa mesma síntese: o mercado mundial” (Ortiz, Ibid., p. 16)

Para melhor compreender a globalização, Ortiz (2000) propõe concebê-la como totalidade e processo, ou seja,

“que se reproduz e se desfaz incessantemente (como toda sociedade) no contexto das disputas e das aspirações divididas pelos atores sociais. Mas que se reveste, no caso que nos interessa, de uma dimensão abrangente, englobando outras formas de organização social: comunidades, etnias e nações ” (Ortiz, Ibid., p. 30).

O autor tem ainda o cuidado de desmontar raciocínios de orientação difusionista, imperialista ou de americanização do mundo , afirmando que “as relações sociais mundializadas exprimem a estrutura interna de um processo mais amplo” (Ortiz, Ibid., p. 104)

Mesmo aceitando que a diversidade das formas culturais persiste, a mundialização da cultura é evidente, inclusive passível de constatação empírica. Até mesmo um observador pouco atento pode facilmente perceber que “o mundo” chega a qualquer indivíduo que toma Coca Cola ou utiliza aparelhos eletrônicos, se for para citar apenas exemplos retirados do universo dos produtos industrializados, já que a idéia de homogeneização está, sem dúvida, relacionada com a padronização que desde sempre caracteriza esse tipo de material.

Neste sentido, a padronização, na história da produção industrial, se constitui como resposta à necessidade de produzir e distribuir produtos em grande quantidade, por permitir seu barateamento, tornando sua compra acessível ao maior número possível de pessoas. Porém, a transição do fordismo para o capitalismo flexível vai trazer outras necessidades para as empresas, como a de especializar-se no sentido de conhecer bem o mercado em que se atua e até mesmo de, em alguns casos, produzir em menor escala, tanto para corresponder com mais rapidez e eficiência às mudanças sociais que acabam por afetar a natureza da demanda, quanto para conseguir sobreviver em um ambiente cada vez mais competitivo.

Essa procura por meios eficientes de lidar com a nova realidade, que se refletia na configuração do mercado, acaba por motivar uma reorientação administrativa das empresas. No momento em que volume e preço já não compunham as principais barreiras para a entrada no mercado, passam a sobressair companhias que tenham “a capacidade de se diagnosticar quais tecnologias se adequam a um mercado particular. As corporações transnacionais não focalizam mais o produto enquanto tal mas; suas estratégias comerciais cada vez mais se voltam para o conhecimento especializado” (Robert Reich apud Ortiz, 2000, p. 149). Não somente o consumo se modifica, com a contemporaneidade, mas também as técnicas de administração das empresas.

Sobre as mudanças que afetavam a natureza da demanda, é preciso lembrar que a crescente complexificação da vida urbano-industrial, em sua dinâmica, favorecia a emergência de diferentes arranjos familiares e vínculos ocupacionais, por exemplo, que configuravam, por sua vez, diferentes afinidades e pertencimentos. Com isso, formas tradicionais de orientação de conduta vão gradativamente perdendo prestígio, ao mostrarem-se insuficientes ou inadequadas para orientar a atuação dos indivíduos na realidade em transformação. Por outro lado, com a expansão do modo de vida urbano-industrial, realidades cada vez mais parecidas se impõem em outrora diferenciados contextos. Neste sentido, Ortiz (2000) cita o trabalho efetuado por Vitor Scardigli que mostra que nas décadas de 70 e 60 os modos de vida variavam mais na Europa. Para Scardigli, depois dessa época, o conjunto de países europeus passa a conhecer mudanças profundas, como a mecanização do campo, a entrada da mulher no mercado de trabalho, etc, citando ainda estatísticas que evidenciam uma tendência de aproximação na estrutura e níveis de consumo, entre diferentes países (cf. p. 176). Ou seja, “as mudanças sócioculturais em curso reduzem as diferenças entre os consumidores dos países industrializados” (Vulpian apud Ortiz, 2000, p. 177). Ao afirmar que “doravante, as condutas se diferenciam em função de segmentos de consumo e não mais segundo suas territorialidades” (Ortiz, Ibid., p. 173), o autor assume que a segmentação se dá, de um determinado momento em diante, a partir dos estilos de vida, ou seja, do compartilhamento de determinadas características que congregam grupos afins mesmo quando situados em localizações geográficas diferentes.

Neste sentido, a produção e a divulgação segmentada de produtos, propagada pelas empresas como um meio de ampliar a satisfação da clientela, na verdade podem ser consideradas como parte da estratégia de adaptação da empresa capitalista a uma determinada situação social. Sobre esse assunto, Ortiz chama acertadamente a atenção para o fato de que “a convergência dos hábitos culturais não é uma invenção dos homens de marketing. Ela é uma tendência das sociedades contemporâneas” (Ortiz, 2000, p. 174). Entretanto, embora não possa se considerada como uma imposição da empresa capitalista, tal característica das sociedades contemporâneas – de compor demandas segmentadas de caráter mais ou menos homogêneo – é devidamente captada e processada, passando a fazer parte das considerações empresariais no momento de traçar as estratégias de produção, divulgação e venda de produtos e serviços.

Para exemplificar as afirmações anteriores, foram pinçados alguns trechos dentre as abundantes citações retiradas por Ortiz (2000) da produção bibliográfica voltada para a área de administração e marketing: “um mundo com demandas homogeneizadas requer, para atingir uma economia de escala necessária para competir, uma procura por oportunidades de venda nos segmentos similares do globo” (Levitt apud Ortiz, Ibid., p. 172). Ou: “sob muitos aspectos as nações industriais começam a convergir. (…) Essas convergências demográficas levam os consumidores a terem desejos e necessidades similares” (Jordan apud Ortiz, Ibid., p. 173). E ainda:

“a convergência do comportamento dos consumidores é uma tendência dominante nos últimos trinta anos. Chocava na Europa do pós-guerra a grande diversidade de comportamentos e a abundância de pluralismos locais e regionais. Mas em trinta anos, em todos os lugares, uma parcela cada vez maior da população distanciou-se da sociedade tradicional, de seus valores, para entrar na modernidade, criadora de novos valores. Essa evolução aproximou os comportamentos, sobretudo os de consumo”(Paitra apud Ortiz, Ibid., p. 173).

Um aspecto pouco abordado da operação empresarial através da segmentação é a sua utilidade não somente para ampliar a satisfação aos clientes, mas também para classificá-los, cerceá-los em categorias para melhor mapear suas necessidades e desejos, ao mesmo tempo que favorece a sua autopercepção como parte de agrupamentos, ou seja, ajuda a criar nos indivíduos uma espécie de consciência de pertencimento a um determinado grupo. Isso porque, enfraquecidos laços tradicionais, outras afinidades adquirem relevância, como o gosto musical, por exemplo, determinadas preferências estéticas e outras características que muitas vezes passam a ser simbolizadas por objetos produzidos pelas empresas. Assim, conforme afirmação anterior, a segmentação não é apenas uma adaptação das empresas ao mercado, mas uma estratégia para nele criar nichos.

Nessa história, outro ponto a ser considerado diz respeito ao advento da comunicação de massa e ao desenvolvimento das técnicas publicitárias, elementos-chave neste processo, que possibilitam não somente a comunicação com os mercados, mas, também, a configuração de grupos específicos de consumidores.

No Brasil, para falar de uma realidade próxima (e bem recente), essa estratégia de criar grupos de consumidores através da segmentação e aplicação de estratégias de marketing pode ser exemplificada pela promoção de festivais de música eletrônica por empresas transnacionais, dentre os quais é possível citar o Tim Festival e o Nokia Trends, entre outros. Tais eventos conjugam atrações nacionais e internacionais, sendo direcionados a milhares de pessoas, além de amplamente divulgados e noticiados. Sendo a música eletrônica uma tendência estética que adquiriu prestígio recentemente, há bem pouco tempo seus apreciadores valorizavam esse gosto musical das mais diversas formas ou talvez sequer pensassem sobre isso: durante um tempo, o fato de gostar de certos projetos ou bandas, que utilizavam preponderantemente recursos eletrônicos para construir sua música, não continha implicação existencial alguma. Entretanto, houve um momento em que uma determinada linhagem musical foi recuperada, no sentido de contar a história do estilo, onde grupos do mais variados propósitos originais foram reunidos, passando a ser percebidos como componentes de um mesmo movimento. É quando a denominação “música eletrônica” consolida-se e o seu apreciador adquire um determinado perfil.

Quando grandes empresas passam a patrocinar ou criar festivais e eventos para reunir apreciadores de um determinado estilo musical e procuram associar essa música (ou fortalecer uma associação preexistente) a valores como juventude, vanguarda, tecnologia, etc, cria também uma brecha para esses indivíduos perceberem que possuem algo mais em comum, que transcende, inclusive, o interesse pelo mesmo tipo de som. Por outro lado, abre-se a oportunidade de oferecer para essas pessoas, assim como para indivíduos que não apreciam a música mas que encontram algum interesse em evocar os valores desse grupo, determinadas roupas, bebidas, aparelhos de som, discos, serviços na internet, etc, e ainda, de bônus, angariar novos apreciadores / futuros consumidores.

É de modo parecido que a lógica empresarial da segmentação acaba se impondo a outros movimentos, que, pinçados do “underground”, vêem seus conceitos, características, etc, serem apropriados pelas empresas e agências de publicidade, constantemente em busca de novidades para substituir a tendência do momento, cujo prazo de validade é geralmente curto. Neste sentido, continuando com o exemplo utilizado anteriormente, dentre os artistas que fazem música eletrônica de vertente alternativa, muitos se ressentem da apropriação efetuada pela mídia de elementos relacionados a esse universo, sendo esse um tema constante em listas de discussão, fóruns, sites e chats especializados, na internet .

Quanto à influência da mídia e da publicidade na constituição de identidade e de grupos, não se quer dizer que os indivíduos respondem automaticamente aos seus “comandos”, mas que esses elementos, indubitavelmente, compõem uma referência que desfruta de inegável prestígio perante os sujeitos, na contemporaneidade. Sobre a participação da mídia no processo identitário de uma coletividade onde os indivíduos não compartilham laços de consaguinidade, etnia ou vizinhança, por exemplo, um interessante trabalho foi produzido por Sarah Thornton (1994), tratando da relação entre a cultura da música eletrônica e a mídia, mostrando o peso desta na demarcação e desenvolvimento de subculturas urbanas. Embora o texto trate de um estudo de caso, a autora demonstra aspectos gerais da relação entre mídia e cultura.

Thornton (1994) procura evidenciar, em seu artigo, como os media são importantes para a formação social e ideológica da juventude britânica, gerando uma autoconsciência necessária para a manutenção de distinções culturais. Ela chama de “cultura rave” a aglutinação de pessoas e o engendramento de práticas e representações em torno do gosto comum pela música eletrônica, procurando mostrar, através do exame dessa situação específica, que as subculturas jovens não são simplesmente digeridas pela mídia, mas que a atuação desta é parte do seu processo de constituição, crescimento e difusão. Thornton (1994) chega mesmo a dizer que uma revista como a inglesa I-D é tão produtora da cultura Acid House (movimento musical do final da década de 80 do século passado) quanto os membros de “carne e osso” da referida cena e desta forma postula a importância da atuação da mídia na formatação de uma comunidade, através do favorecimento da formação, nas pessoas dispersas, de um “senso de grupo”. Guardadas as especificidades, pode-se estender tal raciocínio também à forma de atuação da publicidade.

Voltando à questão da globalização, as corporações internacionais, aliadas à mídia, funcionam, em nível mundial, segundo Ortiz (2000) como “instâncias de socialização de uma determinada cultura, desempenhando as mesmas funções pedagógicas que a escola possuía no processo de construção nacional” (Ortiz, Ibid., p. 144). A publicidade e os demais conteúdos midiáticos constituem-se em referência, ocupando o espaço deixado vago pelos modelos tradicionais de orientação de comportamento, e assim a cultura de consumo – configurada a partir de valores disseminados pelas corporações internacionais via marketing e mídia –acaba se transformando, na contemporaneidade, “numa das principais instâncias mundiais de definição de legitimidade dos comportamentos e dos valores” (Ortiz, Ibid., p. 10).

Assim, se

“o anonimato das grandes cidades e do capitalismo corporativo pulveriza as relações sociais existentes, deixando os indivíduos soltos na malha social. A sociedade deve portanto inventar novas instâncias para a integração das pessoas. (…) Uma dessas instâncias é a publicidade, pois cumpre o papel de elaborar o desejo do consumidor atomizado, conferindo-lhe uma certa estabilidade social” (Ortiz, Ibid. p. 119-120).

Uma vez que mudanças sociais criaram um “vácuo na orientação das relações pessoais” (Ortiz, Ibid., p. 120), a publicidade, trabalhando para a “eficácia do mercado” (Ortiz, Ibid., p. 121), através da mídia, procura mostrar que os objetos e serviços oferecidos pelas empresas podem preenchê-lo. No desenrolar deste processo, os produtos industrializados adquirem a capacidade de informar sobre condutas, atividades e preferências dos indivíduos e o consumo adquire novo significado: associado a tópicos como liberdade de escolha, distinção e individualização, em si torna-se um valor, por passar a ser entendido como um elemento capaz de dizer algo sobre a identidade dos indivíduos.

Até este ponto, procurou-se evidenciar que, com a disseminação do modo industrial de produção, da comunicação e das diversas tecnologias, realidades parecidas acabaram por se impor a diferentes partes do mundo, e que, embora neste processo, não sejam eliminadas especificidades regionais, é construída uma lógica comum, compartilhada por indivíduos situados nos mais diversos contextos urbano-industriais espalhados pelo globo, o que resulta em certo grau de integração mundial. A empresa capitalista tem interesse em promover esta situação, o que faz através do uso do aparato publicitário, pois sobrevive através da adesão dos indivíduos à definição de realidade que propõe. E como tal lógica atua tanto no processo de formação de grupos quanto na constituição da identidade dos sujeitos, compreendê-la torna-se essencial para os objetivos do presente trabalho.

Resumidamente, pode-se dizer que, atualmente, as pessoas acham legítima a inserção em comunidades a partir do consumo, que revela, assim, sua dimensão integrativa.

Abordando a questão por outro ângulo, torna-se notável a existência de uma tendência em associar a multiplicidade de nacionalidades na composição organizacional das transnacionais à idéia de democracia e de fragmentação de poder – uma parte deste cabendo inclusive ao consumidor, que seria, em última instância, o verdadeiro senhor das companhias – “o cliente sempre tem razão” – por conta da sua capacidade de decisão e escolha. Através do exame da lógica operacional do capital na sociedade globalizada, Ortiz (2000) decompõe essa imagem de autonomia do consumidor, evidenciando que o que há, na verdade, é uma fragmentação conveniente do processo produtivo e ao mesmo tempo uma oligopolização, vez que muitas companhias atuantes em setores diferenciados, porém afins e complementares, se fundem, passando a operar de forma articulada, a fim de maximizar vantagens e lucros.

Ortiz (2000) identifica uma tendência em compreender certas modificações na estrutura e na forma de ação da empresa capitalista – fatores como, por exemplo, a descentralização do poder administrativo ou a procura pela adaptação às necessidades específicas de cada mercado – como favorecedores da ascensão individual e da liberdade de escolha. Entretanto, tal apresentação das coisas camufla o fato de que

“a emergência desta modernidade centrípeta, na qual fica difícil localizar a centralidade das coisas, não significa ausência do poder, ou sua partilha em termos democráticos. Pelo contrário, as relações de autoridade, ao se tornarem descentralizadas, adquirem outra abrangência (…) engendra outras formas de dominação” (Ortiz, Ibid., p. 104).

É justamente neste ponto que é realçada a dimensão ideológica da questão.

Dizia Weber que “todas as dominações procuram despertar e entreter a crença na sua legitimidade” (Weber apud Ortiz. 2000, Página 104). Inspirado por Weber, Ortiz (2000) procura então evidenciar como essa dominação se transforma em conivência, ou seja, como se favorece uma determinada compreensão, de forma que as pessoas se inclinam a perpetuar uma determinada definição das coisas, seja por conveniência, por falta de informação ou de senso crítico.

Ortiz (2000) chama a atenção para o fato de que, “se a ideologia do pós industrialismo aponta para a autonomia local, para a individualidade do consumidor, a dinâmica econômica revela outros aspectos” (Ortiz, Ibid., p. 163). Ele observa que “no lugar da fragmentação, observa-se uma crescente concentração das firmas” (Ortiz, Ibid., p. 163) – fusões que geram megacorporações, dando o exemplo de grandes conglomerados / oligopólios mundiais como Nestlé e Nabisco, por exemplo. Assim, apesar da descentralização no processo de confecção dos produtos, há concentração no setor distributivo e no comércio, o exemplo das grandes redes de supermercado e principais áreas de produção: alimentação, vestuário, indústria cultural, etc. Ou seja, existe uma tendência à concentração, apesar da descentralização da produção. Esta parte do processo certamente não conta com tanta evidência quanto o discurso de autonomia do consumidor, da descentralização administrativa, etc, por ser este um lado que desfavorece a imagem que as companhias procuram construir e disseminar.

Segundo Ortiz (2000) “concentração significa controle” (Ortiz, Ibid., p. 165). O autor afirma que “as consequências disso são graves pois as agências transnacionais são instâncias mundiais de cultura, sendo responsáveis pela definição de padrões de legitimidade social” (Ortiz, Ibid., p. 165). Portanto,

“se realmente nos encontramos diante de uma totalidade mundializada, é preciso reconhecer que os mecanismos existentes no seu interior são em boa parte (mas não exclusivamente) moldados pelas “indústrias culturais globalizadas. Elas representam um tipo de instituição que supera em muito o alcance de outras instâncias, cujo raio de ação é limitado” (Ortiz, Ibid., p. 165).

As megafusões produzem organismos poderosos, muitas vezes mais capazes do que os estados, partidos políticos e organizações da sociedade civil, de definir situações e propor valores, etc. Por conta desse estado de coisas, “as maneiras de pensar, distintas da ideologia de mercado, dos valores de uma cultura internacional-popular, encontram um espaço reduzido, previamente marcado, para se manifestarem. A oligopolização, longe de favorecer o pluralismo reforça um sistema de crenças, integrando todos a uma ordem coercitiva” (Ortiz, Ibid., p. 166).

Assim, embora haja fragmentação do processo produtivo, por outro lado há também concentração de poder e influência, vide esse exemplo das megafusões que dão origem a verdadeiros conglomerados, detentores, inclusive, do domínio de setores estratégicos, como o da comunicação, por exemplo, o que os constitui, conforme expressão de Ortiz (2000), em “artífices mundiais da cultura”, aptos a tornar o mundo um local ideal para atuar de acordo com suas conveniências, sem despertar resistências de caráter generalizado.

Por fim, o acompanhamento desse processo é interessante para evidenciar a dimensão mais propriamente ideológica de todo esse processo. Embora, na contemporaneidade, sejam exaltadas a individualidade e a diferença, é inegável a ascensão de um contexto social global e de uma cultura globalizada, compreendido por muitos a partir da perspectiva de uma homogeneização, o que poderia parecer, à primeira vista, contraditório. Entretanto, a oposição entre esses dois pólos é apenas aparente, vez que a lógica do capital, com o auxílio da publicidade, se mostra perfeitamente capaz de conciliar as duas coisas – heterogeneização e homogeneização – através de estratégias como a segmentação e do uso da publicidade/mídia.

Aproximando todas essas considerações das questões de que trata este trabalho, se os argumentos de Ortiz (2000) e Thornton (1994) podem ser considerados válidos, pode-se afirmar que a lógica da empresa capitalista parece, neste momento histórico, encontrar um ambiente propício para, em nível global, institucionalizar os homossexuais como categoria – privilegiada – de consumidores, enquanto através da mídia acena, ao mesmo tempo, com a possibilidade de legitimação social, através da inserção nesta categorização. Por outro lado, certamente por conta das vantagens que podem auferir, boa parte do contingente homossexual vêm aderindo a esta proposta de definição das coisas efetuada pela empresa capitalista, colaborando, desta forma, para fortalecer este ponto de vista, que ao menos em um primeiro momento vem se mostrando benéfico, em vista da possibilidade de amenizar o estigma negativo que historicamente acompanha a homossexualidade.

Entretanto, a imagem dos homossexuais atualmente proposta pela mídia – portadores de maior nível de escolaridade (e de maior quantidade de cartões de crédito) que a média geral da população, de bons empregos e disposição para consumir distinta e infatigavelmente – não é suficiente para dar conta da multiplicidade de maneiras de viver que a designação homossexual procura comportar. Os homossexuais despossuídos, por exemplo, ou descomprometidos com a ética do bom gosto e do consumo diferenciado, atribuída ao grupo de modo geral, podem comprometer o carisma dos demais, tendo a chance de, por isso, tornarem-se objetos de desprezo e exclusão.

Essa questão remete às considerações efetuadas por Zygmunt Bauman (1997) no texto “Os estranhos da era do consumo”, acerca dos consumidores falhos, que seriam “aqueles cujos meios não estão à altura dos desejos” (Bauman, Ibid. p. 57), os incapazes e imprevidentes da sociedade de consumo.

Na realidade, no texto em questão, Bauman quer chamar a atenção para um processo crescente de demonização dos pobres, que, na atualidade, “longe de fazer jus a cuidado e assistência, merecem ódio e condenação, como a própria encarnação do pecado” (Bauman, 1997, p. 59). Para o autor, isso é consequência do estabelecimento, em nível geral, de um determinado ponto de vista, estendido da racionalidade capitalista. Seguindo tal fluxo, o consenso atual diz que certos indivíduos tornam-se excedentes indesejáveis por sua própria culpa: por reproduzirem-se irresponsavelmente e em demasia, por emigrarem, deixando seus pobres países de origem, etc. Por outro lado, a lógica individualista que acomete o ocidente não comporta que os indivíduos bem sucedidos tenham que arcar com os custos da incompetência ou inabilidade de outrem. Deste modo, os elementos indesejáveis devem ser deixados à própria sorte, passando então a serem vistos como ameaças à prosperidade individual e coletiva.

Para Bauman, os consumidores falhos “são exatamente a encarnação dos demônios “interiores” peculiares à vida do consumidor” (Bauman, 1997, p. 57): o medo de perder o emprego, o medo de perder o status, o medo de não saber fazer as escolhas certas, etc. Na verdade, são uma amostra do que o consumidor apto poderia ser, ou do que poderá vir a ser caso não consiga se mover eficientemente num ambiente altamente competitivo, onde o emprego, cada vez menos estável, rareia. É neste sentido que Bauman afirma que o atual regime “não se beneficiaria em deter a produção de refugo” (Bauman, Ibid., p. 57)

No texto em questão, Bauman investe, na verdade, em outra dimensão de consequências dos processos pelo qual passaram o capitalismo e a sociedade ocidental, na qual o modelo de Estado-nação perde gradativamente sua força, e o cumprimento do que seria sua missão é cada vez mais deixado a cargo das forças de mercado, comprometidas prioritariamente, entretanto, com o lucro. A sociedade acaba convertendo-se em uma sociedade de consumo, onde “o estímulo de novos desejos toma o lugar da regulamentação normativa, a publicidade toma o lugar da coerção, e a sedução torna redundantes ou invisíveis as pressões da necessidade” (Bauman, 1997, p. 185). É neste quadro que os indivíduos acabam expulsos, de acordo com Bauman, da sua condição de produtores – por conta da diminuição dos postos de trabalho e da aquisição de prestígio por parte de outras identificações – e passam a ser definidos primordialmente como consumidores. Uma sociedade onde, na verdade, os “indivíduos são socialmente formados sob os auspícios dos papéis de quem procura o prazer e acumula sensações, em vez dos papéis de produtor e soldado” (Bauman, Ibid., p. 222). Neste contexto, o consumo torna-se a principal marca de sucesso e identidade e aqueles que não podem portar tais marcas devem ser – e são – deixados à própria sorte.

Bauman diz que:

“torna-se um axioma do discurso público que tudo o que economicamente “tem sentido” não necessita do apoio de nenhum outro sentido – político, social ou categoricamente humano. Num mundo em que os principais atores já não são estado-nações democraticamente controlados mas conglomerados financeiros não-eleitos, desobrigados e radicalmente desencaixados, a questão da maior lucratividade e competitividade invalida e torna ilegítimas todas as outras questões, antes que se tenha tempo e vontade de indagá-las…” (Bauman, 1997, p. 61).

Bauman se refere diretamente, aí, a uma mudança de valores ocorrida na atualidade. O autor fala do desamparo em que são atualmente deixados, por parte do estado – aqueles que ele classifica como “refugo” do sistema capitalista. Para Bauman, a exclusão de que são vítimas alguns indivíduos representa um dos “custos marginais da corrida do capital pelo lucro” (Bauman, 1997, p. 51).

Na configuração da sociedade atual, avanços tecnológicos como a mecanização, por exemplo, ou a concorrência de países que oferecem custos mais baixos de produção, trouxeram como conseqüência a redução dos postos de trabalho. Esse fator, juntamente com a flexibilização do capital ajudou a desenhar outro panorama social, tornando o desemprego um dado efetivo da realidade atual e não mais a contingência de um momento econômico. Hoje já está claro que “melhorias econômicas já não anunciam o fim do desemprego” (Bauman, 1997, p. 50).

Para demonstrar a mudança de valores que acompanhou este processo, Bauman se debruça sobre a realidade norte-americana, comentando a falência ideológica do modelo de regulamentação social representado pelo Welfare State. Segundo o autor, a compreensão do papel da sociedade em relação aos desempregados mudou radicalmente. Antes, através dos dispositivos da Previdência

“a comunidade assumia a responsabilidade de garantir que os desempregados tivessem saúde e habilidades suficientes para se reempregar e de resguardá-los dos temporários soluços e caprichos das vicissitudes da sorte. O estado do bem estar não era concebido como uma caridade, mas como um direito do cidadão” (Bauman, 1997, p. 51).

Entretanto

“isso era verdade – ou poderia ser – na época em que a indústria proporcionava trabalho, subsistência e segurança à maioria da população. O estado de bem estar tinha de arcar com os custos marginais da corrida do capital pelo lucro, e tornar a mão de obra deixada para trás novamente empregável – um esforço que o próprio capital não empreenderia ou não poderia empreender” (Bauman, Ibid. p. 51).

Porém, no momento em que outras forças assumem papéis que caberiam anteriormente ao estado, “a responsabilidade pela situação humana foi privatizada e os instrumentos e métodos de responsabilidade foram desregulamentados” (Bauman, Ibid., p. 54). Portanto, agora, é a capacidade individual (que não advém propriamente de nenhum dote “natural”) que deve atuar no sentido de garantir a sobrevivência e o sucesso de cada indivíduo, na sociedade de consumo. Isso significa que, no momento em que fica claro que o desemprego é algo inevitável, em vez de consequência momentânea de uma determinada conjuntura – ou seja, algo que não regredirá – não há quem assuma a responsabilidade de manter a dignidade dessas vidas, seja a indústria capitalista, seja o estado. Assim, “a radical privatização do destino humano acompanha aceleradamente a radical desregulamentação da indústria e das finanças” (Bauman, Ibid., p. 60)

Bauman afirma que:

“os pecados pelos quais o estado do bem estar original se destinava a pagar eram os da economia e da competição de mercado, do capital que não podia manter-se solvente sem enormes custos sociais em existências despedaçadas e vidas arruinadas – os custos que, no entanto, ele se recusava a pagar ou não podia pagar sob ameaça de insolvência. Era esse o prejuízo pelo qual o estado de bem estar se comprometia a indenizar as vitimas presentes e a resguardar as vitimas possíveis. Se atualmente ouvimos dizer que nós, os “contribuintes”, “já não podemos custeá-lo”, isso significa apenas que o estado, a comunidade, já não considera conveniente ou desejável subscrever os custos sociais e humanos da solvência econômica (que, sob condições de mercado, é equivalente à lucratividade). Em vez disso, transfere o pagamento às próprias vítimas, presentes e futuras (…) não há mais seguro coletivo contra os riscos: a tarefa de lidar com os riscos coletivamente produzidos foi privatizada” (Bauman, 1997, p. 52)

Uma das conseqüências marcantes desta situação, de acordo com Bauman, é o aumento da criminalidade. Segundo o autor “há provas esmagadoras da íntima vinculação da tendência universal para uma radical liberdade do mercado ao progressivo desmantelamento de estado do bem estar social, assim como a desintegração do estado de bem estar e a tendência a incriminar a pobreza”. (Bauman, 1997, p. 60-61). Para falar sobre o assunto, ele se espelha na situação dos Estados Unidos, que viveu um processo que toma corpo na Europa. Segundo Bauman, o aumento da criminalidade não uma questão de mau funcionamento do sistema econômico capitalista, mas outro produto inevitável deste. O aumento da criminalidade seria, assim, ao lado do desemprego, um produto da sociedade de consumo, pois, além do desamparo institucional, representado pela falência do Welfare State, existe ainda o anseio dos indivíduos em atender aos apelos do consumo e da publicidade, visto que “o consumo abundante, é-lhes dito e mostrado, é a marca do sucesso” (Bauman, Ibid., p. 55). Assim, resta aos excluídos “tentar alcançar os fins sem primeiro se aparelharem dos meios” (Bauman, Ibid., p. 55)

Bauman chama a atenção para um fato interessante, pois se “o consumo é a medida de uma vida bem sucedida (…) então foi retirada a tampa dos desejos humanos” e “não há padrões a cujo nível se manter – a linha de chegada avança junto com o corredor” (Bauman, ibid., p. 56). Segundo o autor, “de todos os lugares, por intermédio de todos os meios de comunicação, a mensagem surge forte e clara: não existem modelos, exceto os de apoderar-se de mais, e não existem normas, exceto o imperativo de “saber aproveitar bem as cartas de que se dispõe”” (Bauman, Ibid., p. 56). Assim, competir neste sistema é como ser capturado por uma rede: o enredamento aumenta na proporção do movimento.

Para o autor, a ação humana deveria ser direcionada a produzir e manter a qualidade de vida da população em geral. Entretanto, na contemporaneidade, obteve predomínio um pensamento individualista ao extremo, que termina legitimando o descaso estatal para com os indivíduos mal sucedidos e despossuídos, atribuindo-lhes ainda a responsabilidade pelo seu fracasso. Para Bauman (1997), se esses elementos, atuantes na configuração da realidade, servem como estímulo para a indústria da criminalidade, não há esperança de mudança, no quadro de uma sociedade desregulamentada, privatizada e dirigida pelo mercado consumidor.

Embora o autor esteja se referindo a um problema da sociedade ocidental em geral – mais especialmente à ascensão de uma lógica privatizante e individualista – seu raciocínio é certamente útil na compreensão do problema que é objeto do presente trabalho. Segundo Bauman “todo tipo de ordem social produz determinadas fantasias dos perigos que lhe ameaçam a identidade. Cada sociedade, porém, gera fantasias elaboradas segundo sua própria medida – segundo a medida do tipo de ordem que se esforça em ser” (Bauman, 1997, p. 52). Se no contexto da sociedade em geral, tal questão se reflete na rejeição geral aos despossuídos comentada por Bauman, no aumento dos aparatos de segurança, etc, no contexto da cultura homossexual, a hostilidade e intolerância por vezes detectada para com as “bichas quá quá” pode aí encontrar sua raiz: na incorporação de tal lógica no sentido de repelir um modelo de homossexualidade que não encontra respaldo em uma sociedade de consumidores, afastando de si e dos seus a suspeita de que se tem algo de comum com tal categoria, desprestigiada, de pessoas.

EM BUSCA DA DISTINÇÃO

Na obra “La Distincion”, Pierre Bourdieu (1988) procura explicar como se dá a reprodução das elites no plano simbólico, através da investigação dos mecanismos de afirmação de superioridade, dentre os quais se insere o gosto, elemento orientador, ao lado das possibilidades financeiras, das escolhas de consumo. O autor trata da vinculação deste âmbito com o estabelecimento de sistemas de classificação social.

Apoiado por um trabalho estatístico de caracterização das classes e dos estilos de vida a essas relacionadas, a obra em questão aborda, tanto teórica quanto empiricamente, a relação entre a dimensão considerada objetiva, das classes, e a dimensão simbólica, dos valores, de acordo com o esforço teórico de síntese ambicionado pelo seu autor. Especificamente, Bourdieu demonstra que a escolha e as forma de apropriação dos bens culturais gera distinção e que esta situação se relaciona estreitamente com estratégias de classificação social. Mostra porque o gosto constitui-se em uma problemática sociológica, ao evidenciar as condições sociais da sua produção e procura demonstrar também como este expressa sutilmente a posição social dos indivíduos, desenvolvendo a partir daí interessantes considerações sobre a reprodução da ordem social.

A elaboração do autor é formulada no sentido de demonstrar que o posicionamento na escala social se constrói não somente a partir das condições materiais de existência, embora essas não deixem de ter sua relevância reconhecida pelo autor. O que ocorre é que os poderes derivados da posse material têm sua eficácia aumentada quando conseguem se afirmar também no plano simbólico, visto que, os indivíduos situados em uma posição mais vantajosa têm força para impor aos demais o seu ponto de vista e, nesta perspectiva, conseguem estabelecer como excelência o seu modo de vida e adquirir uma aura de superioridade.

A reprodução das elites, ou seja, a perpetuação do seu poder, passa pela capacidade de apreender e dominar códigos culturais de acesso difícil para as classes mais humildes, seja pela raridade, pelo alto custo ou pela competência específica que o bem demanda para ser fruído. Por outro lado, como já dito, a ideologia predominante impõe este domínio como algo natural, o que faz com que este seja visto, consequentemente, como inacessível aos que não o possuem originalmente. O indivíduo deve possuir “naturalmente” a propriedade do discernimento, visto que é impossível de adquirir por ser, supostamente, inata. O gosto, como visto, é compreendido pelo senso comum como a faculdade de julgar os valores estéticos de maneira instintiva e imediata, não podendo ser aprendido, e funciona, assim, como um classificador “natural”.

Bourdieu procura explicitar, através das considerações encerradas em La Distincion que o gosto é simbólico e não natural, embora seja compreendido como expressão de qualidades pessoais como sensibilidade e educação. Esta concepção exclui do campo onde o “bom gosto” é um valor, aqueles que não conseguem demonstrar a posse dessas características através de um gosto superior. Na verdade, o refinamento social é um traço da cultura de um grupo específico, um elemento diferenciador que é fruto de uma situação de ordem social e não natural. A partir da leitura de La Distincion pode-se compreender o gosto como a relação que os indivíduos mantém com a cultura, e que expressa a classe à qual pertencem.

Como consequência desta concepção naturalizante do gosto, de caráter ideológico, é dificultado o acesso das classes médias e inferiores ao universo simbólico distintor. A força de argumentos como o da naturalidade, que se expressa na desenvoltura em acessar e manipular determinados códigos, é eficiente para barrar até mesmo a ambição e manter as pessoas “em seus devidos lugares”.

Deste modo forma-se e consolida-se ilusão da “distinção natural”, que repousa no poder da classe dominante de definir uma situação, uma maneira de excelência que, segundo Bourdieu (1988), é a sua própria maneira de existir, que aparece como distintiva. Bourdieu (1988) chama a atenção para o fato de que não há naturalidade e sim construções interessadas.

Numa sociedade onde existe, teoricamente ao menos, oportunidade para todos, se torna ainda mais premente a necessidade de garantir a perpetuação das vantagens adquiridas, sutil deve ser a forma de assegurar o posicionamento vantajoso, vez que o conhecimento e acesso aos bens culturais não é mais algo tão hermético e inacessível. Para examinar este ponto, Bourdieu analisa a situação peculiar das camadas médias, já distantes da pura necessidade e, portanto capazes de aspirar vôos mais altos, ameaçando com isso a posição dos mais bem estabelecidos. O autor mostra como é operada a exclusão desta categoria do reino dos gostos superiores.

Para Bourdieu (1988) a percepção do mundo social está duplamente estruturada, tanto pelo lado objetivo quanto subjetivo. Ele fala do conhecimento quando diz que os esquemas de apreciação são produtos de lutas simbólicas anteriores e que exprimem o estado das relações simbólicas. A luta de classes, segundo o autor, ocorre também no plano simbólico: há um confronto entre as diferentes interpretações do mundo e a camada instaurada superiormente esforça-se para fazer predominar o estado de coisas mais vantajoso para si, no sentido de perpetuar seu domínio.

Para normatizar o acesso ao universo da exclusividade, Bourdieu (1988) identifica elementos como a antiguidade, o desembaraço, a precocidade e o peso da origem social, por exemplo, considerados como critérios de legitimidade. Há também uma hierarquia da legitimidade dos bens. Na seara dos bens culturais é possível citar a música erudita e a pintura, considerados mais legítimos, e a culinária, o vestuário, a decoração, considerados mais livres. Segundo esta lógica hierarquizante, quanto mais acessível o bem e mais fácil a sua apropriação / manipulação dos códigos correspondentes, menos distinção é associada à sua posse ou fruição.

No universo da distinção o importante é estar além da pura superação: é preciso negar a necessidade, distanciando-se simbolicamente dela ao afastar-se da condição em que vive o pobre. Os mais ricos fazem isso através da ascese ou do luxo, atitudes que, embora opostas, do mesmo modo distanciam o consumo da dimensão da sobrevivência, visto que o consumo dos mais pobres se dá no sentido de suprir necessidades básicas: afastar a fome, o frio, etc. O comum ou o básico são rechaçados pela camada mais bem posicionada, através da procura do inusitado e do novo. Este é o princípio que orienta a categorização das práticas, no campo da distinção, segundo Bourdieu (1988).

A relação mantida pelos pobres com os objetos é de funcionalidade, estando, pois, subordinados em demasia à materialidade dos objetos, não dissociando forma e função por conta de serem presa da necessidade. Isso se revela em diversas dimensões. Bourdieu (1988) usa como exemplo desta afirmação a relação das classes com a comida e com o ato de comer. Dizendo como o autor: o pobre come com franqueza. Já o burguês opõe o comer à preocupação com a forma física, por exemplo. E mais: come dentro de uma ordem, obedecendo a um ritual, a um jogo de estilização expresso pela arrumação da mesa, pela ordem dos pratos, pela negação dos ruídos fisiológicos, pelo estabelecimento de maneiras adequadas para proceder à mesa, etc, descartando assim a função perante a forma. Deste modo, procura negar a realidade material do ato de comer. Segundo esta lógica, quanto mais distante da necessidade mais acima se está dos que continuam presos a ela.

Esta negação estética burguesa mascara a necessidade, através da primazia que se confere à forma perante o interesse funcional. Para negar o consumo puramente animal e vulgar, abandonado à necessidade, formalismos são impostos mediante o apetite. Isto gera uma estilização da vida, algo que demanda um aprendizado que é tanto mais eficiente quanto mais precoce e cotidiano. O signo mais seguro da legitimidade, em termos de distinção, lembra Bourdieu (1988), é a segurança.

O autor comenta a concepção weberiana de estilização de vida, que nomeia o fato de que, à medida em que se sobe na hierarquia social, o estilo de vida abre espaço para a estilização da vida, ou seja, para a atribuição de feições enobrecedoras aos atos cotidianos. O poder econômico representa a possibilidade de afastar a necessidade, e, segundo Bourdieu (1988), na medida em que aumenta a distância da necessidade, a estilização de vida se torna fonte de organização das práticas. E esta afirmação de um poder sobre a necessidade contém a reivindicação de uma superioridade legítima sobre os que continuam dominados por ela.

Neste sentido, Bourdieu (1988) considera interessante a situação das camadas médias, situadas em zonas intermediárias, podendo ascender ou decair. Enquanto a alta burguesia possui naturalidade para manipular os códigos sociais relativos aos mecanismos de distinção, o que inclui por vezes subvertê-los, o pequeno burguês fica ainda restrito a norma, remetendo-se estritamente ao código, ou seja, demonstra que não possui a familiaridade advinda do contato precoce com o universo de distinção, o que evidencia a sua origem “inferior”. Logicamente, o que os membros do segmento intermediário objetivam é a ascensão, identificarem-se e ser identificados com a camada social vista como superior. Embora a relação de subordinação não seja a mesma que vigora entre as classes, similar à situação dos estratos médios, neste sentido, parece ser a de uma parcela dos homossexuais na sociedade contemporânea: reféns de um estigma, os membros deste grupo vêm sendo associados, atualmente, a elementos considerados como característicos dos estratos superiores da população. Neste sentido, ao menos uma parte dos indivíduos que compõem este universo vêm, notavelmente, procurando fortalecer esta associação, no sentido de desconstruir esse estereótipo e promover a valorização social da categoria.

Neste sentido, Bourdieu (1988) cita em La Distinción, o exemplo daqueles que não podem responder à percepção parcial que os encerra em uma de suas propriedades, ou seja, que são estigmatizados, e que tentam impor, para serem definidos socialmente, a sua melhor propriedade, ou então o sistema mais favorável às propriedades que possui, ou ainda, lutam para dar ao sistema de classificação um conteúdo mais adequado para a valorização dessas propriedades. É quando o autor utiliza a lógica do estigma para concluir que a identidade social é uma aposta na luta que todo sujeito social, objeto potencial de categorização, enfrenta.

Assim como o espaço da pequena burguesia examinado por Bourdieu (1988), o “espaço social” dos homossexuais não está ainda consolidado, não possui legitimidade. Deste fator pode se originar a necessidade / estratégia de produzir distinção social pleiteando o status de consumidor de produtos diferenciados, não muito comuns na maioria da população. Daí também pode originar-se a inferiorização, dentro do próprio grupo, dos indivíduos que não se adequam ao modelo homossexual de conduta “distinta”, por comprometer a pretendida identificação do grupo com o universo de superioridade. Tal comportamento pode ser compreendido como uma estratégia de poder, a inserção na lógica de distinção que opera na sociedade mais ampla. Ao promover o distanciamento das camadas populares e a aproximação das camadas superiores através da filiação a um gosto e consumo sofisticados, facções entre os homossexuais procuram atenuar o peso do estereótipo que historicamente acompanha a categoria.

A construção de gênero é atravessada por questões étnicas ou de classe, por exemplo, o que dá margem para o apelo a outras afinidades. Assim, homossexuais pertencentes a estratos mais favorecidos economicamente, embora estejam situados à margem por conta da sua sexualidade ser compreendida, de modo geral, como desviante, procuram operar com estratégias de distinção, visando uma aproximação com os segmentos estabelecidos com os quais compartilham similares condições socioeconômicas.

OS HOMOSSEXUAIS E O CONSUMO

Como as classes médias avaliadas na obra La Distinción, os homossexuais, ou pelo menos uma parcela desse segmento, têm procurado promover (ou reforçar) a associação deste grupo a itens valorizados pela sociedade em geral, no sentido de conquistar um espaço social mais vantajoso do que as margens reservadas àqueles que fogem ao padrão considerado ideal pela sociedade. O consumo é um desses elementos.

Os homossexuais vêm sendo considerados como um grupo de consumidores excepcionais tanto em nível de potência, por terem poder aquisitivo e disposição de consumo mais elevados, quanto em nível de escolhas, por supostamente serem portadores de um gosto superior ao da média dos indivíduos. Neste sentido, são vistos como vanguardistas, antecipadores de tendências, ávidos consumidores de produtos culturais, etc

O presente trabalho tem como objetivo pensar algumas questões relacionadas à configuração da identidade homossexual, como a inédita ascensão do prestígio deste grupo na sociedade urbana atual através da associação da categoria a uma significativa capacidade e disposição para o consumo conspícuo. Com o apoio de reflexões efetuadas por Pierre Bourdieu em seu livro La Distincion, procurou-se compreender como os usos do consumo têm atuado no sentido de produzir honra social, no caso do segmento em questão.

É notório que aos homossexuais, historicamente, foram relacionadas características desvalorizadas socialmente, fator que contribuiu para a atribuição de um estereótipo negativo aos membros de tal categoria no imaginário social. Como foi visto, de acordo com Goffman (1975), o uso de estereótipos é uma estratégia para facilitar as relações sociais. Consiste em englobar os indivíduos em conjuntos, de acordo com determinadas características consideradas comuns. O uso de estereótipos seria, portanto, sob este ponto de vista, até mesmo um facilitador das relações sociais, vez que os indivíduos, no trato cotidiano, podem prescindir de pressupostos complicadores acerca da maneira de interagir com os demais. Porém, além do empobrecimento que toda categorização representa, a essas são atribuídos significados e valores que vão além dos aspectos considerados como de caráter objetivo.

Por conta deste porém, em relação aos indivíduos que não apresentam um comportamento / estilo de vida em conformidade com os padrões consagrados pela sociedade em que vive, o estereótipo geralmente assume uma má conotação, promovendo a associação de tais pessoas a aspectos de personalidade e escolhas de vida avaliadas depreciativamente. Esses fatores favorecem e até “justificam” o preconceito e a discriminação, trazendo uma série de desvantagens sociais para aqueles que são enquadrados nesta moldura social negativa.

Fenômenos como a industrialização, a globalização e a atuação de movimentos das minorias, por exemplo, trouxeram modificações para o âmbito das relações sociais, contribuindo significativamente para formar um contexto favorável a uma mudança de atitude em relação aos homossexuais. A configuração social modificou-se e com isto novos elementos ganharam relevância, promovendo a relativização dos paradigmas tradicionais e passando a atuar no âmbito das relações sociais. Como um dos elementos mais significativos é preciso citar o consumo, que assume, na contemporaneidade, um papel cada vez mais atuante na coordenação das relações sociais. O acionamento cada vez mais frequente de fatores relativos ao estilo de vida (estreitamente associado ao consumo) nos embates sociais, parece ser uma consequência da ascensão deste e de uma lógica baseada no funcionamento do mercado, que em tudo se insere e na qual tudo passa a ser inserido.

Na problemática aqui examinada, relativa à busca de legitimação social e status pelos homossexuais através da recorrência não somente ao poder aquisitivo mas ao que se poderia chamar, como Bourdieu (1988), de “discernimento”, não é possível deixar de fora, por conta dos fatores expostos, questões relativas ao consumo. Não somente o consumo material mas também o cultural, por ser este um elemento com relevância constatada na configuração da identidade homossexual. E não é somente em relação à identidade homossexual. O consumo cultural assume também relevância no aspecto das relações sociais mais amplas na sociedade de massa, onde a padronização industrial é um dos fatores que favorece a procura por estratégias de diferenciação. Neste sentido, muitos grupos procuram distinguir-se pela sua filiação a um gênero musical, por exemplo, para fundamentar seu estilo de vida e identidade.

Na sociedade contemporânea, cabe pensar, portanto, não somente no consumo em si, mas também em seus usos, vez que este elemento passa a dar o tom em determinados tipos de relação social, a atuar na constituição da identidade e estabelecimento de hierarquia. O âmbito homossexual foi um meio que se revelou frutífero para investigar e pensar tais relações, presentes na realidade mais ampla.

Inspirando-se nas considerações de Bourdieu (1988), um modo interessante para pensar essa questão parece ser a consideração do estilo de vida como uma forma de produzir e comunicar o lugar social dos grupos e dos indivíduos que os compõem. A partir do acionamento de elementos que evocam e delineiam uma formação grupal específica, os indivíduos comunicam sua filiação e, consequentemente, o lugar que ocupam na sociedade, administrando as vantagens e desvantagens advindas da sua posição e procurando também dar ao mundo uma feição mais favorável às suas expectativas e propriedades.

Pensando no caráter político da discussão em questão, parece muito interessante o termo “estilização da vida”, uma vez que a expressão “estilo de vida” sugere algo que se delineia no trato cotidiano de forma espontânea. Utilizar, em seu lugar, o termo “estilização da vida” talvez deixe mais evidente o uso interessado de símbolos que comunicam o pertencimento a grupos de status, estratégia que parece estar sendo utilizada por algumas minorias para se impor socialmente.

Essa discussão, pelas características dos elementos presentes na realidade enfocada, tem a ver com o contexto da sociedade de massas, da produção em escala industrial e da uniformização e segmentação da produção, e também com o consumo, em sua relação com estratégias de diferenciação e identificação através da filiação a grupos de status. Em relação a esta última afirmação, é notável que há lugar, na cultura homossexual, até mesmo para aqueles indivíduos que não são homossexuais mas que identificam-se com este estilo de vida: os denominados simpatizantes.

Uma das informantes poderia ser enquadrada nesta categorização de simpatizante. Em sua entrevista ela explicou porque convive com tantos homossexuais e também porque freqüenta locais destinados a este público. Para ela, que antes que a sexualidade, o que lhe interessa e procura, nas pessoas, são outras afinidades:

Mari: “porque, assim, é isso que eu falo, o que eu tenho que identificar são afinidades, só que eu não tenho afinidade sexual, mas tenho outras, entendeu ?”

No seu caso, especificamente, o que a uniu aos amigos homossexuais com quem convive bastante, quase exclusivamente, aliás, foi o gosto pela vida noturna e, mais especificamente, pela música eletrônica. Ela explica que:

Mari: “eu curtia música, eu gostava do ambiente, entendeu, eu gosto de dançar, eu vou pra dançar, então eu gostava, e aí eu comecei a encontrar (nome), esse meu amigo (que é homossexual) da faculdade nesses lugares. Aí a gente começou a falar assim: ‘vamos juntos, vamos um dia marcar juntos’. Um dia eu cheguei pra ele e falei ‘Pô, velho, não achei ninguém pra ir comigo pra essa festa’ porque ninguém gostava muito, eu não achei ninguém pra ir. Ele: ‘pô, velho, vamos marcar comigo pra ir’. Eu comecei a freqüentar a galera dele, indo pra festa de música eletrônica. Mas eu já ia antes dele”

O que a leva a lugares específicos para homossexuais:

Mari: “a maioria de meus amigos são gays, de uma certa forma a gente acaba indo pra lugares gays. O que me leva é: meus amigos, a música, um ambiente agradável, que me faz ir pros lugares…”

Ao Bonequinha de Luxo ela costumava ir porque:

Mari: Adorava. Adorava, adorava. E era assim … várias vezes ser bem gay. Era uma festa bem gay! Adorava a Bonequinha de Luxo. Acho que era uma das melhores festas de Salvador. Eu gosto de festa como aquela: pequena, música boa e uma galera legal. E além de tudo eles achavam sempre lugar bacana (…) que dá um público que gosta muito da música, dá uma galera bacana, o som é bacana, então tá ótimo (…)”

Sempre presente nas festas e possuidora de muitos amigos homossexuais, Mari, embora seja heterossexual, se define, até mesmo, como “meio gay”:

Mari: “eu sou meio gay, né, de uma certa forma, que eu acabo pegando… eu ando muito com os meninos …”

No caso desta entrevistada, ela deixa claro que a sexualidade não é um vetor importante –seja para unir ou para excluir – mas sim o compartilhamento de outras preferências.

Mari: essa coisa da sexualidade, que as pessoas acabam tomando como gancho pra ser referência ou conceito, eu acho às vezes uma bobeira, porque as pessoas são diferentes, independente da opção sexual, vai ter gente boa, vai ter gente mau caráter, vai ter gente com bom gosto, vai ter gente com mau gosto, entendeu. Independente da sexualidade…. apesar que eu acho, de uma certa forma, tem muitos gays que são muito mais abertos, não é à toa que festa de musica eletrônica, underground, tem muitos gays, entendeu, que são mais abertos, se permitem mais. Às vezes uma galera hetero de Salvador é muito mais resistente (…) pra ir, pra conhecer (…) eu acho que tem gays que realmente tem uma cabeça bacana, são abertos”

Mari: “que vai me aproximar daquela pessoa não é a sexualidade, não é a preferência sexual dela, é se essa pessoa tem realmente algo interessante pra me oferecer (…) no ambiente homo tem também muita gente fraca, muita gente que não tem nada a ver (…)”

Neste sentido, por exemplo, ela não gosta de frequentar as boates homossexuais de perfil comercial. Seu interesse, bem como o de seus amigos homossexuais, é pelo circuito mais underground. Porém, no caso deles, que são homossexuais, a procura por parceiros por vezes os leva às boates e festas de caráter mais comercial, embora, como Mari explica, eles critiquem bastante tais contextos:

Mari: Porque na Off as pessoas não vão por causa da música. Até meus amigos vão, eles odeiam a música, reclamam toda hora, mas eles vão porque é um lugar deles conseguirem alguém, se armar com alguém (…)

Essa moça, embora se defina como heterossexual, devido ao seu interesse pela vida noturna, música eletrônica, moda, cultura do Dj, ou seja, por elementos que são relacionados à cultura homossexual, acabou por se filiar a essa. O termo Simpatizante é o S da sigla GLS, e é utilizado para denominar as pessoas que freqüentam ambientes e tem afinidades com o estilo de vida dos homossexuais mas que, no entanto, não são praticantes do homoerotismo nem se definem como homossexuais. A sigla, talvez pelo momento em que tenha surgido – início dos anos 90 – tornou-se bastante popular em alguns contextos e ajudou a quebrar algumas barreiras, por abrir, explicitamente, um espaço para pessoas não-homossexuais, na cultura homossexual e a possibilidade de desfrutar desses contextos sem arcar com o ônus de assumir (ou sofrer a imputação de) uma identidade ainda estigmatizada.

“MODERNOS”

A presença cada vez maior dos homossexuais na mídia e o teor das abordagens correntes são fatores que permitem afirmar que vêm sendo construído, na sociedade contemporânea, um discurso que acaba por legitimar a figura do homossexual, outrora vítima de atitudes que iam desde a desconsideração de sua existência até a execração. Embora as atitudes negativas não estejam extintas, é preciso admitir que algo mudou e de forma significativa. A observação deste universo, não somente das concepções nativas mas também o que se diz “sobre”, permite captar os elementos mais recorrentemente associados à identidade homossexual. Dois foram selecionados para exame: o consumo e o ser “moderno”.

O consumo, especialmente em sua dimensão cultural, é um elemento extremamente presente no discurso jornalístico acerca dos homossexuais. Em diversas publicações, tanto específicas quanto direcionadas ao público em geral, é notável também que, ao lado da ênfase no consumo de bens culturais por parte dos homossexuais, os objetos de consumo que lhes são atribuídos são geralmente de difícil apropriação e que justamente por isso evocam status: perfumes importados, roupas de determinadas griffes e outros produtos de acesso restrito, a exemplo de cd’s importados de gêneros/grupos alternativos e festas “descoladas”, acessíveis apenas aos bem relacionados (ou insiders) ou ainda aos hypers (fomentadores do hype – o que pode ser definido como as últimas e mais interessantes novidades), etc. A associação com os itens citados é o que favorece a qualificação de tais indivíduos através do uso do termo “moderno”.

Moderno, de acordo com os informantes entrevistados:

Sofia: “eu acho que uma pessoa moderna é a que acompanha o tempo que ela tá, né, eu acho que é basicamente isso, né, não é uma questão de … de … tem a ver com estética um pouco, né, também, mas eu acho que é basicamente isso,eh, atual, né”

Sofia: “o que é moderno é o que gosta de música eletrônica, anda na última moda, tá antenado com as coisas que tão acontecendo, freqüenta os lugares, os lugares mais hypes, novos, que abrem, ele sabe tudo que ta acontecendo… esse é o gay moderno”

ENTREVISTADORA: onde geralmente a gente pode encontrar esse tipo de gay assim ? aqui, em Salvador ?

Sofia: “no Bonequinha de Luxo, eh, é uma coisa meio que pra convidado… só sabe quem tá antenado, quem tá aí querendo ver o que ta acontecendo, né, tá na noite, que freqüenta, que se conhecem, não sei o quê, tá nos lugares(…)” (grifo meu)

Maurício: “que tenha uma proposta mesmo, autêntica, assim, autêntica e que aponte para o novo, mesmo, para uma coisa que não foi feita ainda, que não foi pensada, que coloque as pessoas dentro de uma outra dimensão, eh, no caso, espacial, musical, de decoração, de tudo, é nesse sentido que eu falo, de um lugar supermoderno. Não é exatamente que a modernidade seja o supra sumo, não é isso, mas assim, um lugar que estivesse antenado com o que tá acontecendo no mundo, sabe, que tipo que apontasse pra isso, avant garde, que tivesse esse tipo de coisa …”

Gérson: “é a galera mais hype, que são os gays mais descolados, os gays mais cool, que procuram uma coisa mais interessante mesmo, mais inteligente, digamos assim (…)”

Pedi então uma definição de pessoa “hype”. Ele explicou:

Gérson: “é aquele tipo de pessoa que se interessa por todo esse tipo de coisa, se interessa por música boa, por moda, por lugares bacanas e que consegue tranqüilamente conviver com outros tipos de pessoas que não é o gosto dele, digamos assim, consegue viver com gays tranqüilamente, que poderia tranqüilamente receber uma cantada e não se chatear, entendeu, e passar essa bola facinho, assim, eu acho que ser descolado é isso. É você conhecer, se interessar em conhecer, não só conhecer, porque às vezes tem gente que conhece e não é descolado, entendeu, é você se interessar em conhecer coisas novas, coisas modernas e tal, e antigas também (…) ”

No decorrer da entrevista com o Gérson, ele mesmo se qualificou como moderno

Gérson: “Eu me acho um gay moderno, sabia ?”

Entrevistadora: porque esse termo às vezes é muito associado com os gays, né ?

Gérson: “pois é, e na verdade todos os gays se acham modernos já por ser gay, né, porque hoje em dia ser gay é moderno. Né não ? tipo, pô, você ser diferente… hoje em dia neguinho quer ser gay, até porque a mídia já colocou um pouco isso”

Desde o início do texto, o discurso da mídia – que vem a ser, na atualidade, uma das maiores instâncias de legitimação de comportamentos – vêm sendo mencionado. Para exemplificar, seguem abaixo trechos retirados de algumas publicações:

Artigo sobre lésbicas na revista ELLE (número da edição perdido), página 34: “ser / parecer lésbica (de preferência, chiquérrima, não esqueça !) é uma atitude assumida”. Jornal A Tarde, edição de 04/01/2004, reportagem no caderno 2, página 01, sobre o metrossexual, um personagem que é “um heterossexual que conhece e se importa com moda, gastronomia e elegância”. No mesmo jornal, o Caderno de Turismo, edição de 05/11/2003, traz um “perfil dos GLS”, no qual se afirma, acerca do segmento: “sem gastos tradicionais com família e filhos”, “gastam mais com cultura e lazer que os heterossexuais”, gastam, em média, mais do que o turista “tradicional”. Embora não seja revelada a fonte (ou fontes) dessas afirmações, a reportagem ainda traz os seguintes dados estatísticos: 62, 6 % dos homossexuais têm nível superior; 20% são pós-graduados; possuem renda média de R$ 2.000 a R$ 4.000 (bem superior à média nacional). Revista Veja, edição 1.808, de 25 de junho de 2003, reportagem de capa lançada no dia da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, que reuniu mais de 800.000 pessoas, segundo estimativa do corpo de bombeiros, ou um milhão de pessoas, segundo a organização do evento. De acordo com a matéria, em 1995 haviam cerca de quarenta endereços de espaços homossexuais, a maior parte situada em zonas desvalorizadas da cidade de São Paulo, “hoje, há 180 locais, vários deles situados em bairros valorizadíssimos” (Revista Veja, ed. 1.808, p. 73-74); segundo a reportagem o homossexual “tem bom poder aquisitivo e é exigente” (Revista Veja, ed. 1.808, p. 74). Na página 80 consta a seguinte afirmação: “como a maior parte dos gays não tem família para criar nem escola de criança para pagar, suas despesas mensais fixas são mais baixas que as dos heterossexuais” … “esse conforto material produz um estilo de vida”. Embora a questão do consumo não componha o foco da reportagem, esta está extremamente presente, seja direta ou indiretamente. A intenção da matéria é além de comentar a visibilidade adquirida pelos homossexuais, trazer um relato das conquistas do segmento e de metas a serem alcançadas. Entretanto, algumas das fotos que ilustram esta reportagem são bem elucidativas do que dá o verdadeiro tom na composição: uma delas mostra dois homens no apartamento que dividem, no Rio de Janeiro, com vista para o Pão de Açúcar. A legenda diz “casal VIP do Rio”, devido ao fato de terem sido incluídos, como casal, na edição 2003 do livro Sociedade Brasileira, “uma espécie de quem-é-quem no high society carioca”. Outra foto mostra um casal de mulheres escolhendo produtos em um supermercado (Revista Veja, ed. 1.808, p 74-75). As páginas 80 e 81 trazem a foto de outro casal, de homens, subindo a escada rolante de um shopping, ambos com as mãos cheias de sacolas.

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O interesse pelo termo “moderno” e sua relação com as questões de que trata La Distincion, se evidencia pela demonstrada associação com elementos de consumo diferenciado, até mesmo de elite, que o “ser moderno” pressupõe – como pode ser apreendido através dos conteúdos exemplificados e das falas dos informantes. E também devido à apropriação do termo pelo segmento homossexual. Resta então esclarecer o que “moderno” significa. Pelo que foi possível perceber, em primeiro lugar, para ser moderno, é preciso consumir muita informação, pois isso é o que permite o discernimento e a antecipação do hype (tendências em alta): o gay “moderno” reivindica o status de vanguarda. E isso inclui elementos como o acesso a âmbitos restritos não só fisicamente (como viajar, por exemplo) e a produtos de restrita apropriação, seja pela especificidade da linguagem na qual a mensagem se expressa, como é o caso da alta costura, seja pelo valor financeiro elevado, como é o caso das viagens, das roupas de grife e perfumes importados. A percepção da associação do termo aos elementos citados tornou-se possível, inicialmente, a partir da leituras de revistas (como a Vogue, a extinta Suigeneris), colunas de jornais (Contracapa, do Correio da Bahia; Noite Ilustrada, da Folha de São Paulo) e sites (erikapalomino.com.br, mixbrasil.com.br), e também através de observação, entrevistas e conversas informais com indivíduos pertencentes ao meio.

Entretanto, o uso do termo “moderno” não é exclusivo dos homossexuais, existindo termos e gírias mais específicas. Em São Paulo e Recife, por exemplo, costuma-se utilizar a terminação “ón” em algumas palavras. Assim modelão se transforma em “modelón”, colocado em “colocadón”, cabelão em “cabelón”, etc. Em Salvador alguns homossexuais costumam utilizar palavras de origem africana, como “mona”, por exemplo, que significa “menina” e é utilizada no sentido de homossexual e expressões como “dar a Elza” (que significa roubar). Em relação ao termo “moderno”, existem outros grupos que o utilizam e que são/ estão também relacionados ao ser “moderno”, como, por exemplo, o pessoal ligado à moda, aos clubes de música eletrônica, que são também grupos, a despeito das adaptações locais, globalizados. Neste sentido, é interessante notar que esses segmentos “modernos” estão presentes nas mais variadas partes do mundo ocidental.

Em relação ao universo homossexual, o termo, embora não seja exclusivo ou específico, adquire importância analítica pela sua recorrência e também por conta da sua qualidade de categorizador e hierarquizador, vez que encerra um conjunto de atributos e define, em relação à posse de tais atributos, o lugar dos indivíduos. E também normatizador, uma vez que orienta a maneira que se deve proceder, de acordo com um ponto de vista predominante em determinados contextos.

A atenção para como termo se justifica, portanto, pela sua característica de elemento extremamente presente e atuante no universo homossexual, sendo continuamente relacionado aos interesses desses indivíduos, pela sociedade em geral, além de também atuar no estabelecimento da diferenciação entre os subgrupos e na hierarquização desses. O termo moderno, por tudo o que encerra, também aponta para a relevância do consumo cultural.

De acordo com Nestor Canclini (1992) consumo cultural pode ser definido como a apropriação e uso de bens culturais, que são aqueles em que predomina, em vez do valor de uso ou de troca, o valor simbólico, ou pelo menos onde os valores de troca ou uso estão subordinados a dimensão simbólica. Com base neste ponto de vista, o fato de estar em determinados lugares pode caracterizar-se como consumo, bem como uma ida ao cinema e não somente a compra mas também a leitura de um livro. Conforme depoimento:

“Maurício: você pode ter contato, você pode saber o que é, entender as tendências, pensar nas tendências, participar também disso, claro, mas você não precisa necessariamente comprar, chegar naquela loja mais cara do mundo e dar 120 reais numa camiseta.” (grifo meu)

Como visto, o consumo não se limita à apropriação de bens, envolve também outras formas de fruição. Desta maneira, a exaltação de um maior poder econômico, por parte dos homossexuais, não está desacompanhada. Uma vez que, como disse Weber “o poder condicionado economicamente não é idêntico ao poder como tal” (Weber, 1974, p. 61), a despeito das considerações acerca do suposto poder aquisitivo desses indivíduos, na luta simbólica eles procuram contar também com outro tipo de armas, buscando associar ao grupo características que lhes confira distinção, através da associação com o “bom gosto” e um consequente consumo diferenciado.

O consumo de determinados itens evidencia status. Assim, o alardeado interesse dos homossexuais em itens como decoração, arte, etc, é compreendido como um sinal da capacidade desses indivíduos para a apropriação invulgar, uma vez que esses tópicos não são objetos de consumo corriqueiro, o que leva o consumidor desses itens a tornar-se / sentir-se parte de um universo restrito. Um exemplo que ilustra esta consideração é a presença massiva de informações relativas a esses universos nas publicações dirigidas aos homossexuais. Por exemplo, há sempre uma ênfase no quesito viagens, por vezes merecendo até mesmo uma seção específica. O referencial é preferencialmente o exterior do país e, neste ponto, EUA e Europa ocidental são os destinos que têm mais prestígio. Não é raro encontrar a adjetivação dos locais mais variados através da alusão a eventuais semelhanças com esses destinos consagrados, como por exemplo, a valorização da cidade de Buenos Aires devido ao “clima europeu” que a mesma “exala” (revista Homens, seção “Viagens”, número da edição perdido).

Essas evidências apontam claramente para o fato de que este consumo simbólico, embora não seja exclusivo do segmento homossexual, é um elemento essencial na definição social da categoria que vem ganhando força nos últimos tempos, sendo parte do referencial de ao menos uma parte desses indivíduos, daquela que procura configurar sua identidade dentro do parâmetro de referências englobado pelo termo “moderno”. A associação de determinado tipo de homossexual a determinados lugares é também uma evidência da atuação de tal mecanismo na seara identitária. O termo “bicha de Centro”, por exemplo, é usado para definir um estilo de homossexual, encerrando uma tentativa de classificar os indivíduos a partir do local que freqüenta – no caso, bares e boates no Centro da cidade, lugares geralmente mais simples e de freqüência popular.

De qualquer sorte, o interesse por artes e pelas “boas coisas da vida” é tido, em geral, como característico deste grupo. Esta compreensão predomina também no meio específico, como se pode conferir nos trechos de entrevistas a seguir:

Sofia: “… eu acho que o gay tem um lado artístico que é impressionante, tem um lado pra, da arte que não tem… ele sempre gosta de música , ele gosta de arte, ele gosta de cinema, ele gosta de arte em geral, então isso eu acho que já é uma classificação, sabe, diferenciada, né, pode ser… claro que tem artistas que não são gays… mas tem um interesse assim pela coisa estética, né, também muito forte, e , esse outro lado que … que eu acho que é a maioria, assim, e eu não sei porque …” (grifo meu)

Sofia: “ … claro que depende do trabalho, se tiver um poder aquisitivo ele gasta, ele gasta com tudo, eu acho. Com viagem, com roupa, com coisa boa, ele consome, ele bebe… e ele, gay gosta de coisa boa, né ? ” (grifo meu)

Márcio: “(…) Eu vejo poucos heteros que entendem, assim, de moda. Acho até surpreendente. Alguns conseguem mas eu acho que os gays … tem aí um saber, sobre isso, que eu não sei muito bem de onde vem mas é um saber sobre essa questão … de saber o valor de uma bolsa Prada, entendeu ? de, de, eh, querer … oh, a Comme de Garçons, não vi a coleção esse ano, pôxa. De alta-costura. O que é alta-costura ? que não é nem … quase não é moda. É aquele grande espetáculo de… conceitual, e que é maravilhoso (…)”

Márcio: “eu acho que tem uma questão de se preocupar com a moda, independente que eu use Richard’s e, ou eu use… deixe eu ver, uma coisa bem… Doc Dog, né, que são coisas absolutamente impossíveis de se conciliar, né. Mas é uma preocupação, é uma preocupação de tá com uma coisa que seja muito interessante ou muito bacana ou exclusiva… eu acho que eles gastam mais dinheiro, inclusive, porque isso é um valor , né, prá, prá o gay. Ainda que você olhe e ache de extremo mau gosto, (Entrevistadora: sim) né, as blusas transparentes e douradas e com brilhos e com negócio esquisitíssimo, né, que você fica assim, meu Deus onde essa pessoa conseguiu comprar isso ? quem que fez isso ? mas aquilo é importante, é um valor, houve uma produção, houve um gasto, houve uma preocupação em tá daquela forma, não é você chegar e pegar a primeira camiseta que aparece no seu guarda roupa e sai prá rua e tanto faz, né. Claro que isso hoje tá mais…os mauricinhos estão muito mais preocupados com isso, e com o cabelo, no lugar, né, historicamente o homem tem uma preocupação, mas eu acho que isso dos gays é… é claro que tem os gays que tá… nem aí, mas assim eu acho que é mais forte, é mais forte de ter essa história da estética” (grifo meu)

Márcio: “eu acho de uma forma … não sei se, fico pensando assim , é que as vezes eu fico até com medo de – você falou vamo falar à vontade – fico com medo de ser preconceituoso mas ainda acho que, de uma forma geral o que se faz de arte, que se consome de arte tem uma , uma, uma adesão gay mais forte, né, não tem prá onde correr, né, né ? você fica assim, tipo, tem muito pintor, né, ou, ou ou, que não é gay mas assim, provavelmente tem muito mais consumidor do trabalho dele que é, (Entrevistadora: sei) entendeu, ainda que… você pode ter um superestilista que não seja gay (Entrevistadora: sim), né, que faça coisas muito bacanas. Ele não é gay mas provavelmente as pessoas que se identificam com aquilo com certeza são, que co… que reconhece até aquele valor, daquele universo, do que ele tá criando, né”

Outra qualidade atribuída à categoria é o pioneirismo, a vanguarda. Homossexuais lançam moda, de acordo com alguns entrevistados:

Gérson: “porque os gays procuram se interessar pela moda primeiro que os hetero, então os gays já vestiram tudo que os hetero estão vestindo hoje e aí as coisas que os gays tão vestindo hoje, por hoje em dia as coisas estarem evoluindo muito mais rápido, os hetero também já estão começando a pegar, uma coisa aqui, um pecinha aqui, um bonezinho de lado, um negocinho, uma argolazinha, uns acessórios diferentes, você pode ver, em qualquer lugar que você vai…”

Fábio: “eu acho que os lugares gays, na maioria das vezes, estão à frente do que os heterossexuais, em vários quesitos, várias questões, passando pela música, passando pela atitude das relações lá dentro, passando pela moda porque você vai ver, na, na noite, pelos comportamentos, eu acho que são lugares mais interessantes. Tem, tem a questão do clima que, qualquer pessoa que já tenha ido pra uma boate gay e uma boate de hetero sabe que o clima é totalmente diferente…” (grifo meu)

Se no âmbito da sociedade mais ampla, o consumo massivo de bens culturais vem sendo visto como característico deste grupo social, no âmbito da comunidade homossexual, o volume e qualidade deste consumo é um claro elemento de diferenciação e hierarquização, uma vez que as escolhas de consumo, guiadas pelo gosto, são consideradas como indicadores de determinadas qualidades, ajudando a distinguir os tipos de pessoa, mais especificamente os tipos de homossexuais. Neste campo está em jogo não só a roupa que se usa mas também como se usa. Em relação ao citado tópico viagens, por exemplo, que é um elemento sempre presente em publicações dirigidas aos homossexuais (como a anteriormente citada Revista “Homens”, a revista G. Magazine aborda sempre o assunto e contava até mesmo com uma seção específica, a “Globe”), não está em pauta apenas a questão de poder arcar com os custos elevados, para o padrão brasileiro médio, de uma viagem, mas sim o fato de que o indivíduo que viaja pode se ver e ser visto como uma pessoa cosmopolita.

Essas considerações procuram deixar claro que esta forma de consumo simbólico vem fazendo parte do referencial identitário dos homossexuais ou, pelo menos, da parte que procura configurar sua identidade dentro do parâmetro de referências englobado pelo termo “moderno”. O consumo cotidiano de bens culturais pode ser considerado como característico deste subgrupo, embora, é bom ressalvar mais uma vez, não seja exclusivo deste.

É também interessante questionar porque os indivíduos situados nesta perspectiva são os que conseguem impor um determinado formato de representação identitária para toda a categoria, propondo a sua imagem como característica do homossexual. E porque justamente no momento atual. Se, provavelmente, os fatores que influenciam a renda dos homossexuais não são novos, cabe perguntar porque esta forma de apresentação de identidade não emergiu antes ou porque fatores como renda e consumo não eram suficientes, anteriormente, para propor aceitação social para os homossexuais. Com tudo o que foi exposto até o momento, é possível concluir que a configuração da sociedade urbana contemporânea atual abre os braços para uma concepção consumista de identidade.

O discurso que procura desconstruir o estereótipo negativo através da associação com um consumo elitizado, conforme mencionado anteriormente, vem tratando as escolhas de consumo de um segmento como preferências gerais, de um grupo, e essas como evidência de determinadas qualidades pessoais – neste caso específico, atribuídas aos indivíduos que compõem o segmento homossexual. A ressonância de tal discurso no arranjo social sugere a necessidade de desvendar a vinculação das práticas do grupo em questão ao consumo, vez que o consumo cultural aparece como um dos tópicos centrais de organização da identidade homossexual que vem adquirindo visibilidade nos últimos tempos. Esta problemática, por outro lado, está estreitamente relacionada à questão da distinção.

Falando sobre o campo da arte, mas estendendo seu raciocínio para o âmbito da configuração identitária, Canclini (1992) conclui que o consumo marca fronteiras dentro de um tipo de sociedade onde não há, oficialmente, superioridade intrínseca de um grupo sobre os demais. O consumo se torna, assim, uma área fundamental para instaurar e comunicar diferenças. Evidentemente influenciado por Bourdieu, o autor afirma que em um quadro como este, a capacidade de distinguir estilos se adquire pela pertinência a uma camada social, ou seja, pela posse de recursos econômicos e educacionais que não são equitativamente distribuídos pelo corpo social mas que, entretanto, não aparecem como uma construção a partir de uma base material que a pessoa possui, mas como algo que a pessoa é.

De acordo com Canclini (1992), a sociedade contemporânea necessita de divulgação, por um lado, para ampliar o consumo que a sustenta e por outro de distinção, para atenuar os efeitos massificadores provenientes da divulgação. Para garantir a distinção, os signos que diferenciam os setores hegemônicos precisam ser constantemente renovados / recriados. Dentro desta linha de raciocínio, o sentido do termo “moderno” está relacionado ao conhecimento e acesso, material e simbólico, a itens cujo consumo (e consequente prestígio) não se está disseminado para as camadas mais populares, o que favorece um posicionamento mais vantajoso na escala social geral, para a categoria homossexual, ao tempo que atua na hierarquização dos subgrupos. Ser “moderno” pressupõe também o consumo incessante de muita informação – o que também só é possível, geralmente, a partir de uma boa base material – uma vez que os elementos provedores de distinção estão em constante renovação.

Essas são considerações que fornecem pistas para desvendar o sentido da propalada relação dos homossexuais com o “ser moderno”, sendo possível vislumbrar, na forma de utilização do termo, o acionamento da propriedade classificatória do gosto e a atuação de mecanismos relacionados, conforme problemática explicitada.

Segundo Pietrocolla (1986), na sociedade atual ocorre uma rápida reciclagem de bens. A tecnologia barateia os bens e a comunicação generalizada logo faz conhecidas as últimas novidades das extremamente valorizadas culturas européia e americana. Isto, além de conferir um caráter descartável aos objetos, transforma também em um valor o fato de estar/manter-se atualizado. O projeto, vigente na sociedade contemporânea, de estender à todos os indivíduos a produção desenvolvida na sociedade, entra em choque com a vontade de autonomia e originalidade, própria do indivíduo situado na sociedade atual. E o consumo, neste sentido, aparece como um elemento capaz de ajudar a exteriorizar o verdadeiro eu das pessoas, propiciando ao indivíduo o sentimento de que está se expressando ao exercer seu gosto e revelar suas afinidades. A mesma autora afirma que na sociedade contemporânea “o ritual de compra de um objeto é quase um ritual de encontro do homem consigo mesmo. Ele reafirma neste gestual sua identidade, perdida no mundo da produção. A posse sobre o objeto dá legitimidade e integra-o no corpo social produzindo a sensação de ser um dos eleitos” (Pietrocolla, Ibid., p. 61).

Com base nessas considerações pode-se dizer que a cultura homossexual, da forma como vêm sendo concebida, guia-se por uma lógica elitista, excludente, ao procurar referências em uma cultura considerada superior para produzir, consequentemente, identidades que podem também ser consideradas superiores. Com isso se promove não somente a supressão do estereótipo negativo mas, também, uma hierarquização, a partir das formas como cada subgrupo vivencia a homossexualidade.

Seria interessante, em outra oportunidade, checar a validade dessas considerações em um estrato homossexual mais desfavorecido, onde ser “moderno” não compõe um valor e as estratégias de distinção podem ser outras. No meio investigado, os homossexuais mais pobres são percebidos como mais apegados à tradição e a moldes antigos de relação. Um dos informantes definiu os casais de mulheres encontradas na Boate Yes, de frequência popular:

Márcio: “… é aquela assim, tipo, aquela Diesel com aquela Lady , aqueles casais assim, de, de, bem estereotipados, né ?”

Com base em conversas informais travadas com alguns estudantes e professores homossexuais da área de Ciências Humanas, parece possível afirmar que homossexuais com perfil intelectualizado demonstram certa má vontade com contextos como os do Bonequinha de Luxo. Entretanto, tais homossexuais não podem ser considerados tão “tradicionais”, sendo que muitos dentre esses procuram também referenciais alternativos de comportamento. Assim, parece haver, nesta rejeição, manifestação de solidariedade com os mais pobres, refutação a valores compreendidos como burgueses, etc. Neste sentido, é interessante o que disse um freqüentador do Bonequinha de Luxo, que é professor, a um dos organizadores:

Vinícius: “Teve uma pessoa que chegou pra dizer que adorava a festa, que adorava a música, tudo mas, gostava de tudo isso mesmo apesar da formação dele, marxista que… que contradizia tudo isso assim, que ele não deveria gostar disso, que era uma festa excludente tal, mas, assim, ele gostava, achava legal e tal… a festa”

É interessante citar essas observações, embora nada de muito conclusivo possa ser formulado neste sentido, vez que não houve uma investigação sistemática.

Em relação ao gosto, considerado um dos elementos determinantes do consumo, Canclini (1992), ao discutir a situação da arte na sociedade contemporânea, cita Becker na sua afirmação de que os setores populares se guiam por uma estética pragmática e funcionalista imposta por sua condição econômica, que condena tais pessoas a gostos simples e modestos, por não serem capazes de separar os objetos do seu sentido prático e dar-lhes um sentido autônomo. O discurso recente que vem sendo construído a respeito dos homossexuais aparentemente está sintonizado com esta visão. Falando ainda da arte, Canclini (1992) conclui que o preço da obras de arte inviabiliza sua exposição massiva, o que impede a disseminação ampla dos bens culturais desta categoria. A democratização torna-se difícil e por isso, conclui Canclini (1992), as artes plásticas e a literatura são os elementos de consumo cultural mais resistentes às transformações contemporâneas, mantendo um âmbito relativamente restrito de disseminação. A partir do que foi visto, pode-se concluir que não deve ser à toa, portanto, que itens de consumo como esses vêm sendo continuamente associados aos homossexuais e, principalmente, assumidos por esses como característicos, uma vez que estão fortemente relacionada a estratégias de distinção social.

A QUESTAO DA HIERARQUIA

Na obra Estabelecidos e Outsiders, Norbert Elias (2000), auxiliado por John L. Scotson, procurou desenvolver uma teoria para explicar relações que envolvem hierarquia. Com essa finalidade, examinou a situação de dois grupos de trabalhadores residentes em uma comunidade a qual atribuiu o nome fictício de Winston Parva, que em nada diferiam quanto a fatores como nacionalidade, etnia, renda, educação e moradia. Porém, apesar de tal similaridade, uma situação curiosa se desenrolava: o grupo que residia há mais tempo no local acreditava-se superior, conseguindo impor esta mesma crença aos demais. Estabelecidos e outsiders, portanto, será a denominação proposta por Elias (2000) para designar o tipo de relação onde se estabelece hierarquia e há atribuição de estigma, muito comum entre grupos étnicos distintos ou de diferentes nacionalidades, porém incomum entre grupos que compartilham tantas similaridades.Visto que os dois grupos estudados não diferiam significativamente entre si, o caso ocorrido em Winston Parva é considerado paradigmático pelo autor, um modelo que pode auxiliar na explicação da natureza deste tipo de conflito, por conta de se constituir praticamente em uma relação de antagonismo em estado puro.

A partir do estudo realizado na comunidade em questão, Elias (2000) procurou demonstrar que o grupo que ele chamou de “estabelecido”, ao atribuir ao grupo que chamou de “outsider” as características de sua pior parte e ao seu grupo as características de sua melhor parte, torna evidente que a atribuição de estigma desempenha um papel importante nas relações de poder entre grupos sociais, podendo ser encontrada inclusive nas relações entre grupos que praticamente em nada diferiam entre si. O autor vê este mecanismo, antes de tudo, como estratégico para garantir vantagens.

Segundo Elias (2000), a situação investigada desmistifica a consideração de que a capacidade de impor hierarquia baseia-se apenas em fatores como a posse monopolista de armas ou dos meios de produção, mostrando que é no campo das representações que os diferenciais de poder realmente se definem. Por exemplo, em Winston Parva o tempo de residência era o único fator que diferenciava os dois grupos observados. Entretanto, é a partir desta diferença, ou melhor, do significado que esta assume, que se dá o processo de hierarquização e exclusão. Para chegar a esta conclusão, Elias (2000) investigou o desenvolvimento da comunidade e a formação das relações de vizinhança, segundo ele, não como introdução histórica mas como parte do método de pesquisa. É neste sentido que Elias (2000) sugere a importância da investigação dos processos e do estudo das representações.

No caso de Winston Parva, o tempo de residência foi o fator a partir do qual se engendraram estratégias de diferenciação. Mas poderia ser a cor da pele, por exemplo. Estendendo a sua avaliação para outros âmbitos, Elias (2000) considera que a questão da diferença racial, por exemplo, não é originária da cor diferente da pele. O autor explica que os primeiros grupos humanos se desenvolveram em pontos diferentes do planeta, entrando em contato somente tempos depois, passando a conviver principalmente na condição de conquistadores e conquistados. A partir desse diferencial de poder, as diferenças físicas foram apropriadas para assinalar a condição de inferioridade ou superioridade. Elias (2000) sugere que nos primeiros encontros étnicos os brancos provavelmente estavam em posição de vantagem e que a partir da sua posição privilegiada, operacionalizaram a exclusão dos negros dos meios de poder através da estigmatização, estabelecendo como sinal da inferioridade a cor mais escura da pele.

Assim, para efetuar uma abordagem racial na perspectiva estabelecidos/outsiders, por exemplo, seria preciso primeiramente recuperar processos grupais de longo prazo, levando em conta a raiz do processo, ou seja, investigando desde quando surgiu no mundo o hábito de perceber o indivíduo de outra cor como pertencente a um grupo diferente. Certamente apareceria a questão do poder, visto que esta perpassa este modelo de relação. O racismo teria chegado aos dias atuais como consequência da diferença racial, porém, investigado a questão nos moldes propostos por Elias (2000), ou seja, através da recuperação do processo, o verdadeiro motivo apareceria: o asseguramento de uma posição vantajosa.

A questão do equilíbrio instável do poder, ou seja, a possibilidade de sua perda, conclui Elias (2000), é, portanto, o fator que subjaz ao tipo de relação estabelecidos/outsiders. Segundo o autor, o que, em última instância, motiva a exclusão é o medo da perda de uma posição privilegiada e da identidade garantida por esta.

Representação pode ser definida como o conjunto de significados relacionados a um determinado objeto, um conceito construído coletivamente na prática cotidiana, que acaba por ser internalizado pelos indivíduos. Diversos elementos atuam e influenciam a construção das representações: tudo que altera o contexto, como a atuação da mídia, a trajetória histórica e social da comunidade, etc. Como se procurou demonstrar ao longo do trabalho, uma mudança vem ocorrendo em relação à representação da homossexualidade e aos poucos vem se impondo uma identificação homossexual positiva, especialmente a partir da consideração dessa categoria como bons consumidores e portadores de bom gosto.

Entretanto, é necessário considerar que o homossexual de comportamento discreto e bem sucedido economicamente sempre contou com certa tolerância. E se hoje, quando vem se disseminando amplamente a concepção de que é legítimo ser / parecer homossexual, e torna-se possível, em determinados ambientes – mesmos os que proporcionam contatos mistos – expressar uma identidade homossexual com certa tranquilidade, tal legitimidade parece associar-se à imposição de um determinado modelo de homossexualidade. Os que derrapam nesta forma aceitável podem comprometer a avaliação de toda a categoria. Assim, é possível supor que a rejeição, por vezes verificada no âmbito intragrupal, para com as “bichas feias, pobres e suburbanas” seja uma tentativa de fugir da atribuição negativa, afinal os homossexuais afeminados, “fechativos” e travestidos foram os que conferiram desde sempre visibilidade ao segmento, sendo por isso também os mais discriminados, por constituir a porção visível de uma identidade associada à marginalidade.

Em La Distincion, Bourdieu (1988) chama a atenção para a estratégia de grupos estigmatizados e sua tentativa de impor, para sua definição social, a propriedade que consideram potencializadora de maiores vantagens. Uma afirmação que parece bastante adequada à situação atual, em que os homossexuais vêm tendo a oportunidade de, apoiados na sua condição de portadores de gosto, poder e disposição para o consumo, fazer ascender uma idéia coletiva de caráter mais positivo, acerca da homossexualidade. Ainda estabelecendo-se, como portadores de bom gosto e lançadores de tendência, certamente não seria oportuno arriscar o status recém-conquistado. Inspirando-se nas palavras de Elias (2000), pode-se dizer que é bem possível que exista um certo medo da perda de posição privilegiada e da identificação conferida por esta posição.

Terto Jr. (em tese de doutorado recebida pela internet), ao relatar a história da homossexualidade no Brasil, referindo-se mais especificamente ao período final da década de setenta, afirma que enquanto a militância procurava propor uma aglutinação geral dos praticantes do homoerotismo, em torno da opressão sofrida pela categoria, uma parcela, que ele denomina “gays”, seguindo uma tendência internacional, optava pela diferenciação. Esses, em vez de aderir à proposta militante de unificação a partir de interesse políticos específicos, optaram por tentar romper com tudo havia de negativo, relacionado à homossexualidade, ou que pudesse comprometer essa nova identidade. A conseqüência disso, segundo Terto Jr. (Ibid.), teria sido a perda do “espírito de solidariedade e convivência inicialmente articulada com outros grupos e populações marginalizadas e oprimidas, inclusive daqueles mais pobres” (Terto Jr., Ibid.). É também neste momento que um mercado começa a ampliar-se e a oferta, especialmente de serviços, começa a diversificar-se.

Essas afirmações de Terto Jr. (Em tese de doutorado recebida pela internet) parecem autorizar a conclusão de que a militância e o consumo propunham duas vias diferentes de afirmação de identidade: a proposta da militância seria pela igualdade, enquanto a proposição do consumo seria pela distinção.

No âmbito do trabalho de campo foi possível constatar a existência de uma tensão, neste sentido, entre subgrupos homossexuais em Salvador. Nesta dimensão da pesquisa foi possível capturar alguns instantâneos reveladores, como, por exemplo, em um incidente presenciado, em que um jovem homossexual diante de outros que classificou como “bichas feias, pobres e suburbanas” afirmava ter vontade de “ressuscitar Hitler”, por exemplo. Ou da moça homossexual que dizia, diante da aglomeração homossexual formada no entorno da Caixa Econômica, durante o carnaval: “eu sou mais do que isso, meus amigos são mais do que isso”. Ou de outra moça, também homossexual, em um lugar da moda que começava a tornar-se popular entre os homossexuais em geral: “a gente não pode descobrir um lugar que logo eles tomam conta”.

O uso de expressões como “gente feia”, por exemplo, parece proveniente dessa mesma raiz. Por meio da observação, foi possível constatar que a expressão qualifica geralmente homossexuais de idade mais avançada e / ou negro / mestiços de aparência considerada desgraciosa no trajar, no corte de cabelo, etc. Interessante, neste sentido, é o relato, colhido informalmente, de um homossexual baiano de 36 anos em visita à SP para participar da Parada Gay de 2003. Ele viajou junto com um colega de trabalho, ficando ambos hospedados no apartamento de um amigo paulista. Enquanto seu colega de Salvador frequentava saunas e dark rooms de boates menos sofisticadas do Centro da cidade, esse rapaz procurava conhecer os locais mais “modernos”. Seus amigos de São Paulo diziam que ele era “conceito”, por procurar os bares e clubes da moda, enquanto o outro era “pegação”, já que só queria saber de sexo anônimo e farto. Ele comentou sobre a visita que fez à boate Danger e qualificou as pessoas de lá como “gente feia”. Usou também essa mesma expressão para definir o público dos bares da Rua Vieira de Carvalho, no centro de São Paulo.

Fiz então uma visita ao local em questão, para tentar entender o que ele queria dizer com a expressão “gente feia”. Fui à matinê da Danger, que acontece no início das noites de domingo. Paguei R$ 3,00 (três reais) para descobrir que a Danger é uma boate grande, localizada nas proximidades do Largo do Arouche, centro de São Paulo, que possui vários ambientes (11, de acordo com o flyer ): dark room, cinema pornô, pista de dança, bar, área vip, videokê e lanchonete, entre outros. O público é bem diferente do que frequenta o circuito homossexual dos Jardins, zona mais privilegiada de São Paulo – embora nos Jardins seja também possível encontrar locais onde acontece pegação, como a boate SoGo. Quando visitei esta última, pude constatar que existia lá, além do Dark Room, uma área especial chamada de Dungeon Bar. Até onde foi possível apurar, somente homens podem ter acesso a este recinto, sendo que, para entrar, é preciso tirar totalmente a roupa ou obedecer ao dress code: usando roupa militar, de praticar esporte ou leather (roupas de couro). Na Danger, assim como nos bares da Vieira de Carvalho, há uma maior quantidade de negros e mestiços. Avaliando as pessoas somente pela aparência, parecem bem diferentes dos homossexuais do circuito dos Jardins, “bichas” consideradas mais “finas”, e aparentam um poder aquisitivo mais baixo. O ambiente também apresenta diferenças: não existe um grande cuidado quanto à decoração e à iluminação, por exemplo, e o som segue o estilo tribal, com o Dj tocando hits massificados. No dia da visita à boate, a presença de mulheres era insignificante.

Outra situação parecida ocorreu quando encontrei um Dj de Salvador no clube Love, situado no bairro do Itaim, também em São Paulo. Era o dia da Jack!, festa mensal de House Music que durante um tempo foi patrocinada pela revista Vogue. Nesta festa tocavam dois Djs que são considerados referências brasileiras neste estilo musical. O rapaz de Salvador ainda não conhecia a boate, estava indo lá pela primeira vez, e continuamente afirmava que a Love estava “caída” e que se sentiu decepcionado com o público, o qual achou “esquisito”. Mais tarde ele explicitou o que pensava, dizendo claramente que “só tinha gente feia”. Ele falou que deveria ter ido ao AMP Galaxy, clube localizado na Vila Madalena, recém-inaugurado naquela época, porque, segundo seu namorado, era o lugar que “todo mundo” estava indo em São Paulo e onde ia até o “pessoal da MTV”. “Quem toca lá ?” – perguntei – e ele disse que não sabia, sendo que esse rapaz é DJ. Quer dizer, não importava tanto o som – embora eu tenha a dizer que ele provavelmente presumia que o som do Amp Galaxy não poderia ser ruim, visto que o lugar era badalado e estávamos em São Paulo, onde esse item é sempre bem cuidado. Parece que uma tradução possível dessa situação é que ele achava melhor arriscar o AMP Galaxy, mesmo sem saber quem estaria tocando, pois lá é onde vão as pessoas consideradas interessantes, do que estar entre “gente feia”, mesmo que estivessem tocando dois Djs de House Music considerados como os melhores do Brasil. Interessante é que, algum tempo depois, a festa Jack migrou da Love para o Amp Galaxy, sendo extinta pouco depois.

Neste ponto, é necessário ressalvar que o contingente homossexual comporta múltiplas categorizações, que poderiam ser utilizados para fins de subclassificação, referentes a critérios sócio-econômicos, geracionais e étnicos. Entretanto, a cor da pele, idade ou o sexo biológico não assumem aqui lugar de destaque uma vez que o que estabelece diferenciação, na perspectiva de abordagem do trabalho, é antes o padrão de consumo, especialmente o consumo cultural, e o estilo de vida. No trabalho de campo as questões racial ou geracional, por exemplo, em nenhum momento apareceram como um critério de diferenciação intragrupal. Mas é certo que tais questões, assim como a condição sócio-econômica, por exemplo, permeiam o objeto, uma vez que se fala em consumo. Por exemplo, a posse de determinados bens que estão sendo considerados pressupõe um bom poder aquisitivo, assim como a apreciação de determinados itens envolve a posse de informação diferenciada, o que pressupõe certa escolaridade.

Quando se considera a utilização de uma expressão como “gente feia”, por exemplo, e mais ainda, quando se presencia a emissão de uma frase depreciativa em relação à “bichas feias, pobres e suburbanas”, fatores raciais e de classe revelam-se presentes e necessitam ter sua presença registrada, embora o desenvolvimento da pesquisa não se dê nesta direção. A questão geracional, por sua vez, também não foi priorizada, bem como a diferença entre os universos homossexuais masculino e feminino, por também não se constituírem como critérios de diferenciação, a partir do ponto de vista dos informantes. É preciso admitir que essas são diferenças relevantes e que merecem ser investigadas, entretanto não se constituem em objeto do trabalho, merecendo, inclusive, por sua importância, um estudo à parte.

Segundo Goffman (1975), “o indivíduo estigmatizado tende a ter as mesmas crenças sobre identidade que nós temos” (Goffman, Ibid., p. 16), a ver-se depreciadamente e como não-merecedor de “um destino agradável” (Goffman, Ibid., p. 16), ou seja, ele também se auto deprecia. Neste sentido,

“o indivíduo estigmatizado tem uma tendência a estratificar seus pares conforme o grau de visibilidade e imposição de seus estigmas. Ele pode, então, tomar em relação àqueles que são mais evidentemente estigmatizados do que ele as atitudes que os normais tomam em relação a ele” (Goffman, Ibid., p. 118).

Ou seja, para as pessoas em geral os portadores de um mesmo estigma são iguais, entretanto, no âmbito intragrupal, alguns indivíduos querem mostrar que são menos iguais e as estratégias de distanciamento podem incluir a expressão de preconceitos e discriminação intragrupal. Goffman (1975) utiliza também a expressão “preocupação com a purificação intragrupal” para exemplificar o esforço de pessoas estigmatizadas no sentido de normalizar o seu grupo e também limpar a conduta de outras pessoas do grupo. Segundo Goffman, isso ocorre quando se apóia as regras sociais que excluem, inclusive, o próprio indivíduo. Entretanto, o autor afirma que tal atitude não apaga a ligação que o indivíduo sabe que compartilha com os demais e que “o mantém unido ao que repele, transformando a repulsa em vergonha e posteriormente, convertendo a própria vergonha em algo de que se sente envergonhado” (Goffman, 1975, p. 119). Talvez neste ponto resida a explicação de porquê foi difícil obter, no contexto de conversas direcionadas ou nas entrevistas, declarações abertamente preconceituosas, abundantes, entretanto, em conversas informais com outros indivíduos.

É bem exemplar, neste sentido, o que falou uma garota, numa conversa informal. Referindo-se a um bar gay chamado Toca do Caranguejo, situado no bairro do Rio Vermelho, ela disse que no período logo após a inauguração o local era bom mas depois de um tempo “deu para aparecer umas bichas baixo-astrais e uns sapatões pesados, aí sujou a Toca”. “Ficam se beijando ali na frente, uma baixaria. Eu sei que o lugar é gay, tudo bem, mas ali passa ônibus…” . Segundo ela “antes não era assim” pois a turma da dona é “elite” mas aí vieram os “plebeus”.

Outra situação interessante foi relatada durante uma das entrevistas, sobre uma visita que o entrevistado fez, com alguns amigos, à Yes, uma boate do centro da cidade. Ele conta a reação de dois dos amigos que o acompanharam na empreitada:

Márcio: “(…) nós entramos na Yes, quando a gente entrou, teve, né, aquele baque. Entramos, assim, Holmes (Entrevistadora: sei) freqüentando Off, Off, Off, aí, esses meninos ficaram num incômodo – não, gente, eu não fico neste lugar – e a gente todo animado ‘vamo ficar, vamo ficar, vamo ficar’ – ‘não, não, não, não’ – ‘vamo tomar uma cerveja, vamo relaxar’ – ‘não’- não tomaram nem uma cervejinha, deram meia volta e foram embora, e tinham pago, pra entrar. E aí, aí (nome do amigo) disse: ‘não vou ficar sozinho’ – (refere-se ao que ele mesmo disse) ‘por mim a gente fica’. Aí ficou eu, (namorado) e (amigo). Eles foram embora, eles não conseguiram ficar naquele lugar”

Entrevistadora: mas você acha que… o que foi que incomodou eles ?

Márcio: “incomodou por que era … primeiro, assim, eram pessoas com o nível social mais baixo, nitidamente, eh, mais … suburbanas, entendeu ? que não eram as pessoas que eles estavam acostumados a se relacionar, né, que é do Shopping Barra e não, sei lá, do Shopping Piedade. Que talvez não tenham curso superior e compre roupas na Fórum e adore conversar sobre as boates de São Paulo, quiçá as de Nova York. Sabe esse padrão assim: ‘ah porque eu tava não sei aonde …’ – ir pro Soho (ri), né… nunca…é uma coisa que as pessoas ali tomam uma cerveja na Carlos Gomes, passam naqueles bares ali, um Charlie Chaplin da vida, entendeu, vão prá praia de Aruba, né, e… se enfeitam prá ir prá noite, botam uma camisa muito brega, mas que eles acham o máximo, que é meio transparente e tem uns detalhes dourados, entendeu, e acham o máximo. E eles acham mesmo (Entrevistadora: sim) e vão prá lá felizes da vida, e a gente que tá muito básico, né, tirando onda. E assim, eles foram embora e a gente ficou, bebeu, subiu, viu o show, foi di-ver-ti-dís-si-mo , demos muita risada e fomos prá casa, mas assim, não tinha, você não vê pessoas … são poucas pessoas que conseguem fazer esse circuito.”

No início dos shows de Bagagerier Spielberg, famoso “ator transformista”, como o próprio gosta de se definir, “Baga”, como é apelidada, costuma cumprimentar o público saudando caravanas imaginárias, oriundas de bairros populares e favelas de Salvador, parodiando antigos programas de auditório ao mesmo tempo em que brinca com um dos critérios de hierarquia mais presentes no meio homossexual. Um entrevistado conta uma história sobre isso:

Márcio: “(…) a gente queria muito ir na Yes, aí um amigo meu que adora show de traveca, adora show de traveca, adora a roupa, adora traveca, adora (…) aí ‘ vamo, vamo, vamo, vamo’, aí assim, Bagagerier tinha uma piada muito que ela fazia: ‘a caravana dos… aqui a caravana que veio do São Caetano, a caravana que veio do, de… Planeta dos Macacos (nome de uma invasão)’, não sei o quê, aí meu amigo fez uma graça, ele fez: ‘vamos fazer a caravana dos bairros nobres prá ir prá Yes, né ?’”

Assim, embora tenha, ao contrário dos outros dois rapazes, permanecido na Yes com seu namorado e seu amigo, Márcio, ao mesmo tempo expressa a compreensão de que ele e seus amigos são “de outro mundo” e que fazem ali como que uma excursão a um lugar exótico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Bichas feias, pobres e suburbanas. Numa hora dessas dá vontade de ressuscitar Hitler”

No encerramento do livro “Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo”, Adriana Nunan (2003) afirma que um maior desenvolvimento do mercado homossexual “seguramente poderá dar visibilidade, legitimidade e poder político e econômico aos homossexuais, contribuindo igualmente para diminuir o preconceito de que são vítimas” (Nunan, Ibid., p. 339). Tal afirmação evidencia que a autora possui uma visão positiva / otimista do consumo, no qual vislumbra uma via possível de superação de preconceitos e constituição de cidadania para os homossexuais.

O consumo, como visto ao longo deste trabalho, por conta de múltiplos fatores que se configuraram no advento da contemporaneidade, adquiriu a propriedade de produtor e comunicador do lugar social de grupos e indivíduos, na sociedade globalizada. Neste trabalho, procurou-se demonstrar que a ascensão, em nível mundial, do contexto urbano-industrial e de serviços, ao desestabilizar as âncoras tradicionais da identidade, abriu espaço para o consumo atuar, de forma generalizada, como elemento aglutinador e comunicador de diferenças e pertencimentos: os indivíduos, dispersos por conta do desmoronamento dos valores tradicionais, perante a ascensão de uma realidade múltipla e fragmentada, são novamente reunidos através da sua inserção em categorias de consumidores. Procurou-se mostrar também a atuação, neste processo, da empresa capitalista, através, especialmente, do uso da publicidade e da mídia, agindo não somente para explorar comercialmente os grupos, mas, também, para criá-los.

Sobre a questão da homossexualidade, se buscou evidenciar que esta diz respeito a uma construção cultural impregnada, por motivos históricos, de negatividade, e que o termo homossexual procura nomear um segmento concebido pelo senso comum como homogêneo, mas que comporta imensas variações em termos de faixa etária, situação econômica e nível educacional, por exemplo. Do mesmo modo, o comportamento sexual dos praticantes do homoerotismo também varia bastante, assim como as possibilidades de identificação relacionadas. Neste sentido, se procurou demonstrar que a prática do homoerotismo não implica necessariamente em reconhecimento – especialmente por conta da negatividade que acompanha o estereótipo do homossexual – ou em solidariedade grupal.

Relatou-se ainda que, na contemporaneidade, os tradicionais suportes da identidade, devido à influência de variados fatores e processos, acabaram enfraquecidos, e a identidade, antes compreendida como fixa e imutável, se fragmentou em múltiplas possibilidades de identificação, ganhando tonalidades e diversificando-se até mesmo no interior de categorias concebidas como unitárias. Essa flexibilização, por sua vez, também atingiu categorias estigmatizadas, como a dos homossexuais, multiplicando, neste sentido, as possibilidades de reconhecimento e identificação, por um lado, e provocando segmentação, por outro.

Foi visto ainda que, nos últimos anos, vêm ocorrendo, no âmbito geral, uma gradual desconstrução do estereótipo negativo que historicamente acompanha a homossexualidade. Como se procurou demonstrar, foram múltiplos os fatores que contribuíram para delinear esta situação. Dentre esses, entretanto, foi destacado um que se considerou especialmente interessante, pelo seu caráter recente e recorrente: a evocação midiática da qualidade, atribuída aos homossexuais de modo geral, de bons consumidores e portadores de bom gosto.

Foi procurado evidenciar que essa situação revela uma mudança no quadro de valores da sociedade atual, uma vez que a situação financeira e o senso estético privilegiado dos homossexuais, argumentos que vêm sendo corriqueiramente acionados, nos últimos tempos, como critérios de legitimidade, não devem, certamente, ter sofrido bruscas alterações no período dos últimos cinqüenta anos. Assim, ao avaliar essas informações, pôde-se constatar que o quadro atual torna evidente a ascensão de uma lógica, na coordenação das relações sociais, em que o consumo assume posição preponderante. Tão preponderante que serve até mesmo como argumento para propor a amenização da histórica consideração negativa da homossexualidade e alçar os homossexuais à categoria de cidadãos, como crê Nunan (2003). A sociedade está diante, portanto, como esse tipo de situação evidencia, da emergência do consumo como critério para o estabelecimento da legitimação dos segmentos sociais.

Entretanto, apesar do crescente otimismo em relação ao pote de ouro no fim do arco-íris, é interessante avaliar, por exemplo, o significado do resultado da Pesquisa Social Brasileira (PSB), na qual 89% dos entrevistados se declaram contra o sexo entre homens e 88 % se declaram contra o sexo entre mulheres, segundo reportagem da Folha de São Paulo, edição de 29 de junho de 2005. Outra informação interessante, fornecida pela mesma reportagem, se refere aos resultados da pesquisa realizada durante a Parada Gay carioca de 2004, onde 20% dos homossexuais declararam já ter sofrido agressão por conta de sua homossexualidade. Em relação efetivamente à questão da cidadania, no sentido jurídico, se forem avaliados somente os direitos adquiridos através do casamento que é negado aos homossexuais, esses são impedidos de desfrutar de 37 benefícios legais, de acordo com reportagem da Revista Superinteressante (edição 202). Apesar dessas questões, é inegável que mudanças positivas realmente ocorreram, no âmbito geral.

É importante notar que as propriedades evocadas, nos últimos tempos, como características dos homossexuais, estão referenciadas em uma forma específica de consumo, por conta de um suposto bom gosto, concebido como típico da categoria. Assim, são os homossexuais que se vestem “bem”, usam bons perfumes, viajam, freqüentam bons restaurantes e costumam assistir a espetáculos artísticos – e, que, está subentendido nisso tudo, possuem dinheiro para gastar com essas coisas – que atualmente vêm sendo impostos, no âmbito da sociedade em geral, como representantes da categoria como um todo.

É interessante perceber que, na era da diversidade e da diferença,

“a louca tradicional, simpática ou má, o amador de garotões, o especialista dos mictórios, todos esses tipos coloridos herdados do século XIX, apagam-se diante da modernidade tranqüilizadora do (jovem) homossexual (de 25 a 40 anos), de bigodes e com sua pastinha de executivo debaixo do braço, sem complexo nem afetações, frio e bem educado, publicitário ou balconista de lojas elegantes, inimigo dos excessos, respeitoso em relação ao poder, amante da cultura e de um liberalismo esclarecido” (Hocquenghem, 1980, p. 123).

O autor prossegue dizendo que “ainda sobram em Pigalle ou nos subúrbios, as bichas que gostam de transar com árabes. Isto não impede que tenha sido lançado o movimento de um homossexualismo finalmente branco, em todas as acepções do termo” (Hocquenghem, Ibid., p. 124). Por fim, o autor conclui que os homossexuais acabarão por ser “integralmente reinseridos, não em sua diferença, mas em sua semelhança” (Hocquenghem, Ibid., p. 124). Assim, o que se procura evidenciar, ao reproduzir afirmações como essas, é que o pressuposto da normalidade não se desfaz, mas antes se amplia. No caso dos homossexuais, estende-se em direção ao fim do arco-íris.

Para refletir sobre essa representação que vem sendo construída, filiando a homossexualidade, de modo geral, ao bom gosto e ao consumo distinto, é importante relembrar o que escreveu Bourdieu (1988), ao ressaltar que o gosto, assim como os hábitos de consumo que orienta, em boa parte expressa a condição sócio-econômica dos indivíduos. É necessário ressalvar que este pressuposto do consumo, especialmente do consumo distinto – que é ter um bom posicionamento econômico – raramente recebe o mesmo destaque que a qualidade das escolhas desses indivíduos, da forma como vem sendo representados pela mídia. Deste modo, a propriedade do discernimento acaba sendo percebida como uma superioridade social advinda de uma aptidão natural, algo que a pessoa é antes do que algo construído a partir do que a pessoa possui, em termos materiais. Sob esta ilusão ideológica repousa a propriedade de classificador natural do gosto. E é deste modo que a filiação dos homossexuais ao universo de bens e práticas compreendidos, de modo geral, como distintos, lhes garante lugar entre os indivíduos considerados “naturalmente” superiores, representando um contraponto ao estigma histórico.

No âmbito geral, a preocupação cada vez maior, segundo Featherstone (1995), do individuo comum com a estetização da vida, revela a compreensão disseminada de que o consumo, na sociedade contemporânea, se constitui como princípio generalizado de hierarquização. Neste sentido, o novo estereótipo do homossexual que vêm sendo construído é um bem acabado protótipo do que Featherstone (1995) chama de “novos heróis da cultura de consumo”: cientes do caráter expressivo e hedonista das normas do consumo, “em vez de adotarem um estilo irrefletidamente por força da tradição transformam o estilo em um projeto de vida e manifestam sua individualidade e senso de estilo na especificidade do seu conjunto de bens e práticas” (Featherstone, Ibid., p. 123). Esse novo estereótipo do homossexual apresenta ao mundo – parafraseando Lolita Pille no romance Hell Paris – 75016 – um artista cuja de obra de arte é o seu próprio eu, na composição da qual utiliza seus conhecimentos sobre moda, decoração, música, enfim, sobre elementos relacionados à esfera dos bens e práticas geradoras de distinção.

No decorrer deste trabalho, procurou-se evidenciar que a realidade é definida a partir de um embate de pontos de vista, onde múltiplos agentes, muitas vezes antagonicamente posicionados, atuam para impor uma definição de situação que acreditam ser mais favorável para si e para os seus. E essa constatação não favorece conclusões unidimensionais ou muito taxativas. Neste sentido, é certo que a exposição midiática dos homossexuais como bons consumidores traz vantagens inegáveis, especialmente quando se pensa em uma história como a do advogado que contou ter pensado em se matar, na adolescência, porque não conseguia aceitar seu desejo por homens, nem pensar que trazia em si a homossexualidade que era espelhada pela “bicha” que morava na mesma rua, e de quem todos os garotos de sua idade faziam chacota. Atualmente, a prática do homoerotismo pode ser plasmada em múltiplas identificações e é provável que a visibilidade crescente dos homossexuais esteja ajudando não somente a diminuir o pavor irrefletido que a homossexualidade causa ao indivíduo médio, mas, também, fornecendo referenciais positivos para a identificação de indivíduos homoeroticamente inclinados, a partir da presença cotidiana, na mídia, de homossexuais bem sucedidos, inteligentes e bem vestidos, por exemplo. Talvez, se vivida hoje, a adolescência daquele garoto fosse menos sofrida.

Ainda sobre as conseqüências positivas do processo, é exemplar o relato de um dos entrevistados, que contou como uma reportagem sobre homossexuais, publicada na Revista Veja (ele não soube informar o número da edição), foi importante para a sua decisão de procurar ajuda no sentido de tentar solucionar o conflito que vivia desde a infância, devido ao seu interesse sexual por pessoas do mesmo sexo. Ele conta:

André: “eu quando decidi que eu ia, não sei nem se assumir, mas me aceitar ou me reconhecer na verdade como homossexual, foi com a Revista Veja, lembra da Revista Veja? Há uns dois anos atrás, mais ou menos, falando sobre homossexualismo, de casais homossexuais, falava do índice de suicídios que acontece no meio etc. Eu estava sofrendo de depressão, tava sofrendo de depressão e muito, não cheguei a tomar medicamento, mas fazia terapia e não me reconhecia sabe?”

Ele conta que antes de ler a reportagem, seu objetivo, com a terapia, era aparentar virilidade:

André: “eu comecei a fazer terapia não pra me sociabilizar, mas pra ficar mais másculo, mais menino, pra ver se eu tomava jeito de homem”

Depois de ler a reportagem na revista citada, tomou a decisão de aceitar sua sexualidade – de se “reconhecer” – e de tentar ser feliz da maneira como é:

André: “mas quando eu me descobri ou melhor quando eu me reconheci, quando eu disse – eu sou homossexual porra, aí eu comecei a melhorar na terapia, eu vi que a minha depressão não tem nada a ver com a minha família, é porque eu não me aceito como eu sou e não dá pra pessoa ser feliz se ela não se aceita (…) alguns meses depois eu falei com minha ex-esposa porque eu no inicio não falava pra ela o porquê da minha depressão até que chegou o momento que eu falei: não, não dá mais (…) quando eu reconheci que eu era mesmo homossexual eu vi que não ia adiantar, eu já tinha 30 anos, porra, há 30 anos que você foge disso, quanto tempo eu vou levar me enganando…”

André: “eu vi que a minha depressão não tem nada a ver com a minha família, é porque eu não me aceito como eu sou e não dá pra pessoa ser feliz se ela não se aceita.”

Outro ponto que o rapaz chamou a atenção foi para a descoberta da multiplicidade de identificações possíveis, no âmbito da homossexualidade, o que lhe trouxe a tranqüilidade necessária para, usando o termo utilizado por ele, reconhecer-se :

André: “eu descobri que existem várias nuances no homossexualismo feminino e masculino, existe o homossexual de postura hetero, o homossexual de postura homo e que eu sou homossexual, mas a minha postura é essa e eu não sinto necessidade alguma de andar com pulseiras, com relógios, brincos e de vestir roupas assim … essa coisa de postura de mostrar… eu não me vejo assim (…) pra mim o homossexual era a bichinha ou travesti” (grifos meus)

Entretanto, embora o fato da visibilidade massiva trazer conseqüências positivas, como a história de André evidencia, outras dimensões do processo não devem ser obscurecidas. É preciso pensar, por exemplo, sobre essa versão da homossexualidade que vem recebendo destaque, conseguindo obter visibilidade, o que leva a refletir, conseqüentemente, sobre qual estilo de homossexualidade torna seu portador digno da aquisição desta cidadania vinculada ao consumo. Essas nuances mencionadas pelo entrevistado certamente contrapõem-se ao reducionismo característico da estigmatização, é correto, mas parecem esbarrar, novamente, em algo estabelecido como comum, que procura novamente circunscrever a diversidade: a disposição e a capacidade de consumo.

Tendo em mente questões deste tipo, procurou-se avaliar um fenômeno a partir de duas perspectivas. Uma relacionada a uma dimensão mais ampla, da ascensão, no âmbito da sociedade em geral, de uma consideração, pode-se dizer, mais positiva da homossexualidade a partir da qualificação dos homossexuais como consumidores excepcionais e portadores de bom gosto – um processo onde se evidenciam especificidades da sociedade contemporânea. A outra perspectiva relaciona-se a um contexto empírico: através do exame da realidade de um grupo de indivíduos, procurou-se mostrar que esse, pode-se dizer, novo estereótipo, do homossexual bem sucedido financeiramente e distinto, com poder e disposição para consumir, atua, no âmbito da comunidade homossexual, no erigimento de fronteiras e na hierarquização de subgrupos. O termo “moderno” foi selecionado como exemplar, neste sentido, por funcionar muitas vezes como operador da segmentação e hierarquização, devido à relação que possui com o consumo distinto.

Como se procurou demonstrar anteriormente, através de exemplos retirados de publicações e do discurso dos informantes, o termo “moderno” é utilizado coloquialmente para qualificar pessoas, festas, ambientes, cortes de cabelo, roupas, decoração, etc. O termo possui também estreita vinculação com a esfera do consumo, o que se revela na sua relação com a fruição ou interesse em itens como moda, vida noturna, viagens, música, fotografia, arte e gastronomia, por exemplo. É interessante relembrar que o interesse por itens como esses também tem sido visto, de forma geral, como característico dos homossexuais.

Segundo Bauman (1997),“ao contrário do processo produtivo, o consumo é uma atividade inteiramente individual” (Bauman, Ibid., p. 54). No entanto, a revisão de autores como Ortiz (2000) e Douglas e Isherwood (2004) revela, ao contrário, que o mundo inteligível – que somente pode ser criado de forma coletiva – se constrói também com os objetos e bens de consumo, por serem esses portadores de idéias e sentido. De acordo com os autores como Douglas e Isherwood (2004) e Canclini (2001), o consumo possui propriedades integrativas e comunicativas, não podendo ser considerado como atividade individual, precisando ser compreendido como fenômeno cultural e político. A evocação do caráter criativo do consumo, empreendida por alguns desses autores, também desautoriza a visão do consumidor como elemento passivo, obediente aos desígnios da empresa capitalista e da mídia.

Porém, se por individualismo for entendido o fato dos indivíduos não estarem dispostos a assumir responsabilidades pelo outro ou pelo bem estar coletivo, parecem bastante pertinentes algumas conclusões de Bauman (1997) acerca da sociedade contemporânea. É neste sentido que o autor procura chamar a atenção para uma dimensão preocupante da lógica que rege a sociedade atual, tratada por Featherstone (1995) e Canclini, por exemplo, como sociedade de consumo, procurando evidenciar um outro nível de conseqüências de um mesmo processo, mais especialmente, a exclusão social daqueles que não podem participar da festa do consumo, os quais denomina “consumidores falhos”.

Bauman (1997) esclarece que os consumidores falhos são o refugo do sistema capitalista, representando um dos “custos marginais da corrida do capital pelo lucro” (Bauman, Ibid., p. 51). Representam também a encarnação dos medos do consumidor bem sucedido – de ser roubado, de perder o emprego, de não escolher “certo”, de perder o prestígio, etc. Ao lado do estabelecimento, em nível geral, de um ponto de vista estendido da racionalidade capitalista, este seria, para o autor, um dos principais motivos para a rejeição e exclusão geral dos despossuídos, expressas no aumento crescente dos aparatos de segurança e no apoio da população ao desmantelamento de mecanismos de seguridade social. Os consumidores falhos são vistos como uma ameaça ao patrimônio dos consumidores bem sucedidos, além de comprometerem sua estabilidade emocional, por serem ilustrações do que pode acontecer com quem não consegue transitar competentemente em um ambiente altamente competitivo, onde as garantias profissionais se dissolvem. O sistema é excludente e manter-se à tona é, cada vez mais, concebido como uma responsabilidade individual.

Tendo em mente as considerações efetuadas por Bauman e inspirando-se nas considerações contidas em Estabelecidos e outsiders, para refletir sobre a representação da homossexualidade na contemporaneidade, pode-se considerar que, ainda se estabelecendo como cidadãos a partir da evocação da qualidade de bons consumidores, para aqueles homossexuais que conseguem portar os sinais de status certamente não seria conveniente arriscar o prestígio que começam a desfrutar a partir desta forma de identificação. Nada mais apropriado, portanto, do que desenvolver modos de afastamento daqueles que destoam do modelo que começa a consagrar-se. Neste sentido cabe, mais uma vez, relembrar Bourdieu (1988) e suas considerações sobre a problemática do estigma. O autor esclarece que, para afastar o estigma limitante, indivíduos estigmatizados procuram evidenciar suas melhores propriedades, ou, dizendo de forma mais apropriada, procuram mostrar que também possuem propriedades que são valorizadas no contexto onde estão inseridos. Ou ainda, reforçar o sistema que se mostra favorável a essas propriedades.

No entanto, em um sistema excludente, onde comportamentos são compartimentalizados para serem devidamente remetidos a objetos vendáveis, onde diferenças são mercantilizadas, materializadas em bens para serem descartados na próxima estação – para usar um jargão do mundo da moda – Bauman parece advertir que não há garantias quanto à manutenção de nenhuma conquista. Seja para bichas “modernas”, seja para “bichas feias, pobres e suburbanas”.

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REVISTAS

ELLE, edição de agosto de 1994 (numeração da edição perdida), Editora Abril

HOMEM, numeração da edição perdida

SUI GENERIS, nº 38 , Ano IV, 1998, Editora SG – Press.

SUI GENERIS, nº 48 , Ano V, 1999, Editora SG – Press.

SUPERINTERESSANTE, edição 202, Editora Abril.

G. MAGAZINE, nº O6, Ano 01, Fractal Edições Ltda

G. MAGAZINE, nº 14, Ano 02, Fractal Edições Ltda

VEJA, Nº 1808, Ano 36, Editora Abril

JORNAIS

A Tarde. Edição de 30 outubro (Caderno Dez)

A Tarde. Edição de 05 novembro de 2003 (Tópico Especial do Caderno Turismo)

A Tarde. Edição de 04 de janeiro de 2004, (Caderno 2)

Correio Da Bahia. Edição de 12 de Dezembro de 2003 (Folha da Bahia)

INTERNET:

Correio da Bahia:

Érika Palomino:

Farofa Digital:

Mix Brasil:

Pragatecno:

Rraurl:

SITES ENCONTRADOS ATRAVÉS DO GOOGLE SOBRE O FILME BONEQUINHA DE LUXO

SITES ENCONTRADOS PELO GOOGLE SOBRE A TIFFANY´S

http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2003/05/11/eco002.html

ROTEIRO DE ENTREVISTAS

Geral

Identificação (nome / apelido)
Idade
Sexo
Escolaridade
Profissão / trabalho / emprego
Renda Responder o valor e se vem totalmente de emprego formal ou é complementada por “bicos”, ajuda da família, renda de aluguéis de algum imóvel que possua, etc)
Residência (dizer o local e se é própria, é da família, alugada, emprestada ?)
Voce é gay ?
É importante assumir isso ?
Em que medida as pessoas do seu círculo pessoal, familiar, sabem que você é gay e como se relacionam com o fato ?
Você acha que os gays são diferentes dos heterossexuais ? em caso positivo, explique em relação a quê ?
Como você identifica que alguém é gay ? É possível distinguir uma pessoa gay ? Como ?
Você acha que existem características específicas dos gays ? Existe um “tipo” gay ou um estilo de vida gay ?
Todos homossexuais são iguais ? Se não acha, cite o que diferencia essas pessoas.
As lésbicas são diferentes dos homens gays?
O que costuma ou gosta de fazer nos momentos de folga ? Tem algum hobby ? Cite quais seus interesses em geral.
Cite e os lugares que costuma freqüentar.
Costuma frequentar lugares gays ? Se sim, explique porquê.
Cite os locais gays que você frequenta ? Diga o porquê desta preferência ?
Existe algum lugar gays que você não gosta de frequentar ? Em caos positivo, explique porquê ?
Você conhece o termo “moderno” ? em caso positivo, explique o que ele significa ?
E “carão” ? sabe o que significa ?
É usuário de internet ? acessa de onde ? possui computador com internet em casa ? a internet é a cabo ? acha importante ter / usar ? porquê ?
O que procura na internet ? que sites visita ?
Possui tv a cabo ? em caso positivo, diga qual é a que assina ? acha importante ter? porquê ?
Possui carro ? em caso positivo dizer marca e ano. Acha importante ter? porquê ?
Acha importante cuidar do corpo? Porquê ? Malha ? em academia ou em casa ?
Costuma ler jornais ou revistas ? Quais ? é assinante de algum veículo deste tipo? Em caso positivo dizer qual / quais ? compra algum/alguma com regularidade ? quais ? acha importante ? porquê ?
Costuma comprar cds ? em caso positivo, de que estilo ? cite os estilos musical que prefere. Acha importante ?
Costuma baixar música na internet ?
Tem costume de ler ? compra livros ? de que estilo ? cite os estilos literários que prefere. Acha importante ler ? porquê ?
Costuma ir ao cinema ? com que regularidade ? Acha importante ? O que procura em um filme ?
É consumidor de moda ? Cite as lojas / marcas de roupa que prefere ?
Costuma usar perfume ? Qual ? Acha importante ? Porquê ?
Costuma usa produtos para pele ou cabelo ? Quais ? Acha importante ? Porquê ?
Costuma viajar ? Quando viaja quais seus destinos preferenciais dentro do brasil ? acha importante ? Porquê ?
Conhece outros países ? Em caso positivo dizer quais ? Isso é importante ? Porquê ?

Perguntas específicas para os freqüentadores do Bonequinha de Luxo

Conhece o Bonequinha de Luxo ?
Gosta da festa ?
Costuma ir ? Em caso positivo, explique o que o atrai no evento.
Poderia traçar um perfil das pessoas que freqüentam o Bonequinha de Luxo ?

Perguntas específicas para os organizadores do Bonequinha de Luxo

Como começou ? Quem teve a idéia ? Conte a história…
Porque esse nome ?
Qual o objetivo do Bonequinha de Luxo ?
O visual da festa é uma preocupação de vocês ?
Porque não vende convite na porta ?
Qual a periodicidade pretendida e a que efetivamente acontece ? Porquê vocês não conseguem manter o ritmo pretendido ?
Porque a divulgação é feita em cima da hora ?
Porque música eletrônica e porque somente Djs que tocam House ?
Poderia traçar um perfil das pessoas que freqüentam o Bonequinha de Luxo ?

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